Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Resposta ao tempo

Sozinha no escuro

Por Ivani Medina

“Amores terminam no escuro, sozinhos”. Diz a bonita lera (Aldir) da música Resposta ao Tempo, de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc. Amores terminam de todo jeito, sabemos disso. Quando não literalmente no escuro, como na letra da música, no escuro do vazio que ele parece deixar. Inventamos nossas soluções estético-afetivas e acreditamos nelas de verdade. É natural que como seres de aprofundado senso estético procuremos tornar a vida sempre mais bonita, confortável e segura. O maior problema é torná-la mais segura aos nossos sentimentos, porque eles dependem dos sentimentos alheios. Sem controle sobre os próprios, como controlar os dos outros? Eis um superpoder que todo mundo gostaria de ter.

Aretha se pudesse não desgrudaria um só minuto de Abel. Tinham se conhecido havia pouco tempo, depois de um longo período de lamuriosa e interminável solidão. Deram-se bem quase instantaneamente. Ela participava de um trabalho de grupo para a faculdade na casa de uma colega de turma, quando conheceu Abel, amigo do irmão da referida colega. Tudo muito simples e fácil no auge da beleza e juventude. Ele nada tinha a ver com o trabalho do grupo. Foi lá buscar um arpão emprestado, pois haviam roubado o dele numa pousada em Paraty. Prometeu trazer e preparar um bom pescado para comemorar a boa nota que elas haveriam de conquistar. Aretha adorou a ideia e o voto de confiança no grupo. A boa nota estava evidente no entusiasmo da professora ao receber o trabalho delas e o almoço foi um sucesso. Ninguém decepcionou.

Abel era de jeito firme e fala calma. Evitava autorreferencias e estava se formando em oceanografia. Aretha era do tipo penetrante e extrovertida cursando nutrição. Aprovou com louvor os cuidados e o talento de Abel na preparação do almoço. As moças ficaram de coadjuvantes justamente para testarem as habilidades culinárias do rapaz. Foi tudo perfeito de ambas as partes e ficou acertado um passeio à Ilha Grande na semana seguinte, do qual todos participariam.

Bons ventos impulsionavam o namoro do casal recém-formado. Aretha parecia ter penetrado nos poros de Abel e ele a segurava em si com a firmeza e calma que lhe eram naturais. Aqueles dois juntos eram uma beleza de se ver. Passavam um tipo de liberdade a dois raro em outros casaizinhos abaixo dos trinta anos de idade. Sugeriam uma maturidade existencial pouco comum naquela faixa etária. A intensidade da afeição que desfrutavam era oxigenadora para ambos.

Oceanógrafo não fica atrás de uma mesa de escritório, precisa viajar e a ausência devida a demoradas pesquisas começou a afligir Aretha. O coração dela começou a se comportar como um peixinho no aquário a se debater por falta de oxigênio. Ela desconhecia a existência daquele fantasma sufocador que havia no seu peito. Parece que os inexplorados recantos do mundo de dentro se revelam de forma assombrosa e ameaçadora só para estragar tudo. Chegam a fazer do dia seguinte uma temeridade. O que seria da minha vida? Perguntava-se aflita.

Aretha procurou ajuda profissional para lidar com aquilo. Obteve bons resultados ao interpretar que seu coração fora despertado por uma luz muito intensa, como alguém que acorda com o flash de uma lanterna nos olhos. Só pôde perceber isto com a distância física de Abel, juntos precisavam de nada. Sabia também que aquela situação se repetiria para o resto da vida. Impossível seria adivinhar as surpresas do próprio íntimo a cada ausência do seu amado, fosse ele quem fosse. O amor estremece a vida de qualquer um. Costuma-se chamar o seu início de paixão. Todo petisco é mais saboroso nas primeiras mordidas. Não era como nas provas na faculdade. Não dá para “colar”; sobre o amor só se aprende amando. Finalmente relaxou quando entendeu que, no fundo, aprendia sobre si mesma.

Mais adiante, pode suportar melhor preparada o sincero encantamento de Abel por uma colega canadense que ele conheceu numa pesquisa que faziam no mar da Patagônia. Ela era tão bonita quanto inteligente. Aretha não se sentiu diminuída em nada. Doeu muito. No entanto, já podia se perceber como mais uma das diversas embalagens que o amor possui entre os humanos. Ela, Abel, a canadense, seus ex-namorados e os futuros eram partes de um todo. O importante era aproveitar os bons momentos e não lamentar os naufrágios. Apagou a luz do quarto e foi ouvir Resposta ao Tempo, com Nana Caymmi.

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9 pensamentos em “Resposta ao tempo

  1. Pingback: Resposta ao tempo | Contos e Crónicas | Scoop.it

  2. Sérgio Werneck de Figueiredo em disse:

    A combinação foi perfeita: seu conto e esse vídeo com a poesia de Aldir Blanc, música de Cristóvão Bastos envolta pela voz inconfundível de Nana Caymmi.
    Apenas diria que o amor não termina, mas sim, para, embora persista.
    Parabéns pela clarividência de escrita e sentimentos.

  3. Ivani Medina em disse:

    Obrigado Luísa. A presença do teu avatar é um bom sinal.
    Beijos.

  4. Ivani Medina em disse:

    Sergio
    Obrigado pelas palavras estimulantes e apreço a este conto. A Internet oferece recursos que o livro impresso não pode oferecer. Daí, a gente aproveita.
    Forte abraço.

  5. Pingback: Ver! | Blog | Resposta ao tempo

  6. Olá, Ivani.

    Lindíssimo seu texto. As palavras estavam muito bem colocadas, também concordo que havia harmonia entre o texto e a música.
    Os amores vem e vão, mas deixam suas marcas.

    Sandra F.

  7. Ivani Medina em disse:

    Obrigado, Sandra. O Sol tropical nos particulariza de modo positivo.
    Abraço.

  8. Apesar de ser ficção seu texto de uma aula para aquelas pessoas que não conseguem entender os mistérios das relações, genial!!!

  9. Ivani Medina em disse:

    Obrigado, Natanael.

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