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O gosto pela má notícia

Coscuvilhice

Por Ivani Medina

Há quem tenha um apreço todo especial pela má notícia. Ao menos, naqueles instantes em que a novidade é transmitida as atenções lhes ficam voltadas. Algo muito comum a pessoas solitárias e sem ocupação e aos que sofrem de fofocagem crônica. Quando não se tem vida própria, a vida alheia é “o” regalo e tumultuá-la um pouquinho deve dar uma sensação vampiresca de participação, como se estivesse a viver também.

Telefonou para a tia idosa e solteirona para saber dela. A tia perguntou pelo estado de saúde da sua irmã, operada havia quatro meses. A cirurgia foi nos intestinos e aquela bolsa para os dejetos se fez necessária naquele período. Como já estava tudo bem, foi decorrência de um acidente e não de uma doença daquelas, uma nova cirurgia seria marcada para a retirada da bolsa e a normalização das funções. Tudo dentro da previsão e sem preocupações maiores, o pior já nem se via da curva.

─ Diga-me, meu filho, a sua irmã já operou?

─ Ainda não, tia Amelinha. Quando a cirurgia estiver marcada ela nos avisará.

─ E como é que ela está?

─ Esta ótima. Apenas no aguardo para se livrar de vez do seu desconforto.

Tia Amelinha sempre foi uma tia muito querida e irmã da sua falecida mãe. Viveu a vida dela independente, com os seus namorados, mas não se interessou por casamento. E não foi por falta de pretendentes, pois ela sempre foi muito bonita. Agora havia se tornado uma octogenária cheia de manias. Quando implicava com alguém, era um problema sério. Acostumou-se a fantasiar, de um tempo pra cá, coisa que nunca foi do seu feitio. Inventava estórias bobas para preencher seus vazios.

Tia Amelinha andou brigada um tempão com a irmã que mora no mesmo bairro, tia Luzia, que está na casa dos setenta. Heraldo sentiu-se algumas vezes constrangido com a mania dessas senhoras de inventarem coisas da cabeça delas. Uma vez, lanchando com a tia Luzia, tocou o telefone e era o filho dela, seu primo. Para o espanto de Heraldo, antes de desligar, disse ela ao filho:

─ Ó, teu primo Heraldo está aqui. Ele disse que depois vai dar uma passadinha aí na tua casa.

Querendo forjar uma circunstância familiar simpática, Luzia, deixou o sobrinho numa situação tremendamente desconfortável e absurda, levando-se em conta os princípios básicos de educação. Ele gostava do primo, mas não tinha a menor intenção de visitá-lo naquele momento, ainda mais de supetão. Ia passar por mentiroso mesmo. Ah, essas tias velhas…

Finalmente, Amélia e Luzia, se reconciliaram e viviam ao telefone. Na semana seguinte lembrando-se das tias, e a fim também de evitar queixas por desatenção ou ciumeiras, Heraldo, telefonou primeiro para tia Luzia. A conversa logo tomou o rumo da indagação sobre o estado de saúde da sua irmã, Luciana, cuja cirurgia ainda não estava marcada.

─ E então, Heraldo, como está a sua irmã? Eu tenho rezado tanto por ela.

─ Ué, espere aí minha tia. Que conversa é essa?

─ A Amelinha disse que você ligou pra ela porque a sua irmã estava internada e muito mal.

─ Eu não acredito! Isso é terrorismo, droga!

Heraldo deixou passar um tempo porque não sabia exatamente o que fazer naquela situação. Precisava tomar uma atitude de largo espectro. Não podia aceitar o lugar de destaque no centro das fofocas como retribuição a atenção para com as velhas senhoras. Comentando o incidente uma das suas primas, do outro lado da família, ouviu as ponderações de praxe.

─ Você precisa ter muito tato porque elas são velhinhas e se magoam à toa.

Tinha toda razão.  Ele faria o máximo que a sua paciência permitisse.

Na semana seguinte, Luciana telefonou para Heraldo dizendo que estava indo para o hospital e que a cirurgia seria realizada no dia seguinte. Estava animada com o final da história e apressada pedindo que ele avisasse às tias. Como ele havia prometido, telefonou em seguida para a tia Amelinha, o ponto mais nevrálgico da questão.

─Tia Amelinha, Luciana ligou para mim toda animada, pois está indo para o hospital e a cirurgia será amanhã.

─ Ah, meu Deus do céu! Vou rezar muito para Nossa Senhora da Aparecida para ela proteger a Luciana e vai dar tudo certo.

─ Tia Amelinha, nem precisa incomodar a sua santinha. É como eu disse a senhora, tudo já estava previsto, trata-se de um procedimento corriqueiro. O mal já ficou para trás há meses. Relaxe, tia.

─ É, mas agente nunca sabe.

─ Nunca sabe o quê? A senhora está agourando a sua sobrinha?

─ Não, claro que não…

─ Ah, se não tiver drama não tem graça, né tia?

─ Que isso, meu filho!

─ Se a paciente está animada, que direito temos nós de ficar puxando os ânimos para baixo? A senhora esqueceu que eu sou irmão dela e Luciana é a minha irmã mais querida? Eu não quero mais ouvir ou saber de palavras negativas da senhora. Por favor, hein! E tem mais, velhinha fofoqueira não fica no céu junto dos que já se foram da própria família. Fica de castigo numa casinha distante, isolada na beirada de uma nuvem aonde faz um frio danado.

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8 thoughts on “O gosto pela má notícia

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  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    A idiossincrasia do pobre de espírito dá-lhe o equivocado convencimento de que pode confortar seus próprios males comparando-os com alguma desgraça que possa considerar maior que a sua.
    Ainda bem que inventaram o purgatório para as velhinhas fofoqueiras.
    Só não sabia que ficava na beirinha da nuvem…

  4. Olá Sergio
    O purgatório para velhinhas fofoqueiras foi um desabafo do personagem com a tia rsrsrs. A busca de importância pessoal comete pecados terríveis.
    Forte abraço e obrigado.

  5. ohhhh dó da tia velhinha , deixa ela falar! não é nem por maldade, mas é por falta de ter uma vida própria, portanto não ter assunto para falar.

  6. Personagens comuns que tomam vida própria no nosso imaginário e nas nossas estórias pessoais sob a pena forte do colega Ivani.
    Perfeito como sempre !

  7. Olá, Paulo

    Obrigado pela leitura e comentário. Tem tia velhinha que, se bobear, ela mata a família toda. rsrsrsrs Mesmo não sendo por maldade demanda alguma contenção. rs
    Grande abraço.

  8. Caríssimo Antônio

    Que bom ver seu comentário aqui. Estamos saudosos dos seus textos. O último que li no seu blog me deixou apaixonado. Muito obrigado pela visita e comentário
    Um forte abraço.

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