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Prazer e decibéis

Prazer

Por Ivani Medina

Era um casal discreto que entrava e saia do prédio cumprimentando funcionários e vizinhos com muita reserva. Ele era mais reservado do que ela, parecia um tanto repressor e ela receosa em desagradá-lo. Quase nada se ouvia do apartamento deles, senão os gritos da mulher nas noites de amor caliente. Logo que eles se mudaram para lá algumas crianças ficavam assustadas e perguntavam aos pais o que era aquilo. Sem saber o que dizer, alguns desses pais inventavam estorinhas das mais idiotas possíveis. Uma mulher disse aos filhos pequenos que aquela vizinha sofria de uma doença terrível e por isso gritava daquele jeito à noite.

─ Mas só dói de noite, porque o marido dela não leva ela para o hospital?

Perguntou a menininha de cinco anos e a mãe se fez de surda. Mas, criança não esquece e o melhor seria botar um ponto final naquele interrogatório infantil de alguma maneira.

─ Eu não sei porque ele não a leva para o hospital. Deve haver algum motivo, mas isso não nos diz respeito. Fosse algo muito grave já teriam pedido ajuda. O melhor é esquecer essa história em respeito ao sofrimento dos outros.

A menininha e os irmãos ouviram a explicação da mãe com seriedade e concordaram com a decisão. Passando roupa, já livre da curiosidade das crianças, a dona de casa pensava que tudo o que mais precisava naquele momento da sua vida seria conhecer um “sofrimento daquele”! Seus três filhos haviam nascido de uma naturalidade que dava sono.

Finalmente, as crianças superaram as dificuldades dos pais com o fato inusitado. Os mais crescidos se riam na hora “h”, enquanto os menores, que já deviam estar na cama, tapavam os ouvidos sem comentar mais nada. Além da novidade trazida ao prédio, de despertar a curiosidade infantil, o riso dos adultos, a rabugice de alguns idosos, a reflexão a respeito da vida íntima de alguns casais, a verdade entre as quatro paredes do distante casal não era muito diferente das conclusões apressadas de muitos. Sinais aparentes de felicidade completa serão sempre sinais aparentes. A aparência domina tudo e eles não eram exceção.

Os gritos de prazer da mulher eram uma característica estereofônica dela, uma necessidade de extravasamento que por sorte não é muito comum naquele nível de decibéis, senão cidade alguma dormiria à noite. Havia muito ciúme entre eles. Para ele aquela gritaria noturna fazia propaganda dela. Para ela fazia propaganda dele. Para a rua inteira fazia propaganda do casal, para inveja de uns e chacota de todos. Nos tempos de motel era tudo uma diversão só. Ela pensou até em estudar canto. Mas depois quando eles resolveram morar juntos a coisa mudou de figura. O poderoso contralto e seu acompanhante sisudo sentiam-se mal com os olhares curiosos e risinhos daqueles que tinham de ver todo dia.

O casal estava ficando famoso no bairro e as piadas se avolumavam a cada noite de amor. Os rapazes se reuniam próximo ao prédio e ficavam a imitá-la. A situação ficou insustentável e eles tiveram que deixar aquele apartamento alugado. Com um grande esforço econômico e financeiro precipitaram um projeto para alguns anos a frente. Ficariam um bom tempo a pão e água e a decoração do lar na base do pinico e fogareiro. Contudo, morando em apartamento próprio, o projeto acústico do quarto do casal sairia do sonho para a realidade.

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5 thoughts on “Prazer e decibéis

  1. Bom dia, Ivani! Dei aqui um pulinho rápido, para ler alguma coisa, e me diverti bastante com esta história. Ao ler, ia me lembrando de tantas e diferentes coisas . Quem não tem o que lembrar a este respeito? Interessante o que colocou sôbre o casal, o outro lado do que aparentemente era só felicidade – é isto, o que pode ser emocionante num motel, nem sempre vai bem na vida rotineira. Pois que encontrem logo uma solução que não lhes diminua o prazer! Bom domingo!

  2. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Solução econômico sexual perfeita e bom exemplo também, para aqueles que troquem uma noite ruidosa de amor, pela promiscuidade de (deci)bélicos roncos, inevitavelmente combinados com a insônia mortal de todas as infelizes vítimas que se encontrem em seu raio de alcance.
    Parabéns, seu conto desceu tão bem quanto o calmo café da manhã desse lindo dia de domingo.
    Conte sempre, conte mais…

  3. Boa-tarde, Vera

    Pois é, a vida rotineira muda tudo, ainda mais no caso rsrsrs. Muito obrigado pelo seu comentário e um ótimo domingo.
    Abraço

  4. Olá Sergio

    Muito obrigado por mais um incentivo e um forte abraço.

  5. Pingback: Ver! | Blog | Prazer e decibéis

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