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Puzzle

Puzzle

Por Ivani Medina

Para ele a vida era um jogo sem sentido, no qual a inteligência e a sorte deveriam estar presentes o tempo inteiro. Mas não era assim que acontecia. Se demorasse um pouco mais no exame de cada fato, ia ver as burrices insondáveis que cometeu a se rirem dele. Cochilos da inteligência? Vai ser dorminhoca assim no diabo que a carregue.

Era complicado dar sentido a determinados acontecimentos porque era igualmente complicado se perceber fora dos limites da complicação. A maioria das pessoas gosta de parecer mais inteligente do que verdadeiramente é, na esperança de conseguirem mais respeito, admiração e defesa se apoiando nos filósofos que não explicaram nada.  Aparentar inteligência é uma coisa. Viver com inteligência é outra bem diferente. Filosofia o cacete!

Fazia-se displicente nesse sentido. “Não tenho problema algum com a minha ignorância. Ela é o meu campo reservado aos meus futuros conhecimentos”. Ele não era de se esforçar tanto, nunca foi um bom aluno. Quando criança só pensava no recreio. No raso, era muito preguiçoso e até deixava aos outros a incumbência de identificar os seus pontos fortes, nos quais ele não acreditava muito. “Ah é, você acha mesmo?” Era o usual.

Método, disciplina, concentração, perseverança etc. ingredientes indispensáveis às receitas de sucesso, contribuíram com a vida dele de modo acidental. Surgiam do nada como se uma força mágica lhes ordenasse: “Vai lá e salva ele”. Nada a ver com sentimento religioso, ainda que o exemplo assim possa aparentar. Algo à Ludwig Feuerbach, algo que a esperteza se apoderou para submeter às pessoas através do tempo.

Ele era apenas um sobrevivente que ás vezes chegava a conclusões singulares. Foi assim que aconteceu enquanto jogava quebra-cabeça com a netinha. Um jogo daqueles de peças miúdas que levam muito tempo para formar lindas paisagens cuja conclusão fica invariavelmente para o dia seguinte e são conhecidos como Puzzle.

Propôs a menina que iniciariam a montagem do jogo no dia seguinte, sem se guiarem pela estampa da caixa. A criança gostou do desfio, destacaram as pecinhas com cuidado, misturaram todas muito bem e as guardaram num saco plástico. Depois, contemplaram por alguns instantes a estampa a ser montada antes de guardá-la. O combinado era que nenhum dos dois veria mais ver a estampa, como no jogo da memória.

No dia seguinte, parecia uma tarefa impossível de ser realizada. Eles se entreolharam com sorrisos de cumplicidade, satisfação e dúvida diante do desafio. A miudeza e o recorte das pecinhas vaporizam toda a lógica quando misturadas. De súbito estabeleceu-se uma relação em sua mente: “a vida é mesmo assim, um monte de coisinhas sem importância misturadas”. Sorriu para si mesmo enquanto admirava as peças.

O critério estabelecido foi separar cada pecinha de acordo com o colorido das extremidades e formar vários montinhos. Daí, num exercício de humildade e paciência, eles começaram a buscar as conexões. O tempo passava, mas os modestos resultados se tornavam mais e mais animadores. O próprio cérebro havia aprendido e já resolvia sozinho.

Novamente de volta às digressões, ele percebeu que mesmo sem consciência o ser aprende. O problema é que o indivíduo ao invés de conduzir o próprio destino, é conduzido por ele. O destino vem a ser aquilo que a compreensão ou não do dia anterior irá estabelecer. Boa compreensão e assimilação, um bom destino. Do contrário, paciência. Era o que as pecinhas daquele jogo sugeriam a ele.

Se a função da filosofia é ajudar o indivíduo a não se perder das próprias conexões, então ele vivera com muita intensidade, até aquele momento, um grande preconceito. Numa das muitas casualidades da sua vida havia percebido, sem uma compreensão aprofundada, que falar de filosofia é permitido, vivê-la não. Por isso ela não é ensinada nas escolas como um método de aprendizado. Papagaios sim, pensadores não, porque há uma incompatibilidade de princípios. A cultura dominante exige que se acredite nela, não admite ser colocada em questão. Porém, o objetivo da filosofia é justamente questionar tudo.

Sorria ele com uma cara de idiota a quilômetros de distancia daquela mesa.

─  Vô, do que o senhor está rindo?

Quando ele se deu conta do jogo, notou que a netinha havia montado algo como o topo de um pico nevado e sorria efetivamente vitoriosa.

─ Heureca!

Disse ele com ar de vitória também.

─ O que é heureca?

─ Significa achei! Encontrei! Descobri! Exclamação atribuída a um grego antigo chamado Arquimedes.

─ E o que foi que o senhor achou?

─ Que o seu mundo e dos seus filhos tem tudo para ser bem melhor do que o meu.

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6 thoughts on “Puzzle

  1. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Sem a pretensão de julgar, mas sentindo e juntando pecinhas, como qualquer ser, achei ontológico, com veia antológica, pela simplicidade e profundidade.
    Ser ou não ser, continua a grande questão…

  2. Bem, a vida toda é uma mão dupla …

  3. Sergio

    Muito obrigado por mais esta apreciação e um forte abraço.

  4. Joselito

    obrigado pelo seu comentário e um abraço.

  5. clara-mente on said:

    Quando tudo parece encaixar, a vida deixa de ser um desafio permanente.Entre o parecer e o ser, está a descoberta da peça que não encaixa.
    Valerá a pena descobrir, tal peça?
    Eis a questão, quando se quer viver.

    Boa inspiração, para você.

  6. Clara-mente
    Obrigado pela leitura e comentário. Francamente, por que a vida tem que ser um desafio? Claro que vale a pena descobrir todas as peças sim. Questão quando se quer viver? Existiria alguma quando não se quer?
    Obrigado.

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