Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Seu Estrangeiro

Emaranhados

Por Ivani Medina

─ Quem é você?

─ Se sabe de alguma coisa, por favor, me conte logo.

─ O que sei é que você veio andando pela praia e está aí há um tempão olhando o vento. Ué, você está desmemoriado?

─ É. Estou.

─ Veja se tem algum documento no bolso.

─ Estão vazios.

─ Hummm… Pode ter sido assaltado. Tem sangue seco na sua cabeça e sua camisa está manchada.

─ É mesmo, o cabelo está duro.

─ Vamos procurar a polícia.

Ali perto havia um postinho policial e lá foram atendidos. Pelo rádio, os soldados entraram em contato com seus superiores pedindo instruções, pois não podiam contar com o maior interessado. O descreveram como um homem alto, forte, com mais ou menos cinquenta anos, cabelos castanhos claros, olhos azuis, trajando boas roupas, unhas cortadas, cabelo bem aparado evidenciando alguém de trato que foi encontrado em estado precário e faminto. A central comunicou que não havia até aquele momento comunicação de desaparecimento de alguém com aquelas características e que seguissem os procedimentos e aguardassem novas instruções.

Encaminhado ao posto de saúde para tratar do ferimento na cabeça, sofrido há bem mais de vinte e quatro horas, foi submetido a alguns exames que indicaram bom estado clínico a pesar da dificuldade neurológica e de um pouco de desidratação. Como nada se sabia dele e de um nome ele precisava. Pelas condições da sua chegada e o seu tipo físico, um dos profissionais de saúde sugeriu um apelido: Estrangeiro. Ele não se incomodou e achou até engraçado. Era seu Estrangeiro pra cá, seu Estrangeiro pra lá e estava tudo certo.

Seu Estrangeiro mostrou-se um sujeito amigável e agradecido por tudo o que faziam por ele. A curiosidade era uma só: todos queriam saber como era não ter um passado. Alguns não acreditavam que ele não se lembrasse de nada, como dizia.

─ Não é possível, de alguma coisa ele tem que se lembrar. Esse cara está querendo nos fazer de bobos.

─ Mas que desconfiança besta! Pra que alguém ia fazer isso se tivesse alguma má intenção? Ora bolas, teria logo evitado a polícia.

No geral, seu Estrangeiro foi ganhando adeptos por méritos próprios, inclusive. Recebeu um convite do dono da loja de materiais de construção para almoçar, juntamente com o sargento e o rapaz que o havia encontrado na praia. Tomou banho e recebeu roupas limpas. Ali, todos se conheciam. Eram homens experimentados e farejavam um mau caráter a distancia, por isso a curiosidade com a novidade superou qualquer desconfiança. O sentimento de solidariedade e o senso de oportunidade se mesclavam no divertido almoço. Por mais angustiante que a ausência de lembranças seja também há de ser uma grande oportunidade.

O sargento era um sujeito muito engraçado e tinha uma habilidade incomum para desviar assuntos desagradáveis. Em sua memória, episódios trágicos se avolumavam, tanto na sua carreira de policial como na sua vida pessoal. Seria ótimo se pudesse apagar metade daquilo. Estava ali diante dele alguém que a sorte ou o azar havia apagado tudo. Ele nunca tinha visto isso.

Não permitiram que seu Estrangeiro brindasse com eles com caipirinha. Podia não fazer bem a ele. O cuidado com o visitante era espontâneo e teve momentos hilários. O dono da casa gozando o modo amistoso e o sentimento de responsabilidade do sargento desferiu:

─ Seu Estrangeiro, abre o olho com ele! Do contrário ele vai te mandar escovar os dentes e te botar pra dormir depois do almoço. Hahahaha.

Todos riram demais. O que parecia ser um caso de polícia, até aquele momento, havia sido uma quebra-rotina sensacional. No final da tarde, a pesar do ilustre convidado não ter tido histórias para contar, parecia que eram amigos há muito tempo. Espíritos em estado de desprevenidos são mesmo assim. Caminharam até o mar e seu Estrangeiro com o rosto sorridente abriu a camisa e os braços para receber a brisa do mar por inteiro. Parecia que o seu mundo se completava naquele instante, pois seus olhos azuis brilhavam de satisfação. Os outros perceberam que ligações neuronais aos poucos se restabeleciam ao menos a nível profundo.

─ Sargento, dá licença. Chegou comunicação da central e parece importante.

Diante do aviso do soldado o sargento pediu licença e se dirigiu ao posto. A descrição do seu Estrangeiro correspondia a de um homem que havia sumido de casa há mais de três dias, da zona Sul do Rio de Janeiro. A comunicação de desaparecimento, estranhamente, havia chegado naquela mesma tarde. Uma moça de nome Marília era a autora. O soldado voltou à praia a pedido do sargento e pediu que todos se dirigissem ao posto. Seu Estrangeiro continuava conversando animado como antes quando entrou no recinto apertado. Sentado junto à mesa de serviço, o sargento perguntou:

─ Seu Estrangeiro, o nome Marília significa algo para o senhor?

Ele ficou quieto e não parecia que estava pensando, mas catatônico. Pareceu que nuvens escuras encobriram céu claro dos seus brilhantes olhos azuis e deixou-se cair numa cadeira, sob o olhar curioso e preocupado dos novos amigos. Marília era a sua única filha, que ele recusara ao nascimento por desejar um filho homem. Vivia muito mal com mulher que o desprezava. Carregava um sentimento infundado de rejeição da própria mãe com o nascimento do irmão mais novo, pois ele foi levado para a residência de uma tia, pois os partos naquela época eram feitos em casa. Jamais aceitou o fato racionalmente e até aquela idade odiava o irmão.

Morava em Copacabana e foi andar na praia tentando fugir da dor absurda daquelas lembranças mal interpretadas e não conseguiu mais parar, surtado que estava. Foi assaltado e uma forte coronhada completou o serviço. Desvencilhado da memória, foi encontrado em Mangaratiba, 85 quilômetros depois. Era estrangeiro em si mesmo e estrangeiro no seu próprio lar. Em toda sua vida somente pode desfrutar dos poucos momentos bons dessa condição, beneficiado pelo esquecimento absoluto, como o estimado e misterioso seu Estrangeiro.

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5 thoughts on “Seu Estrangeiro

  1. por que deseja saber algo; por indagação o forte não é
    Aquele que pergunta mais sim,quem explica; serta vez,
    Um homem recebeu um projeto de vida de um senhor
    Muito rico e muito sabio, E neçe projeto, era preciso se
    retira para um lugar muito distante,e chegando neçe lugar
    este homem tinha que que fazer um sacrificio, e este sacrificio
    Era que; Ele precizaria adiquirir, tods os conhecimentos!

    Descubrondo os valores que estava dentro de si-mesmo
    Adiquirir esperiéncias de como aplicar os valores já adiquirido
    saber ser um atoista; E depois que aprender toda ciéncia
    de conhecimento e di desevolvimentos espera á ordem
    de seu senhor; Obedeçendo as leis sociais!!

  2. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Caro Ivani Medina, novamente parabéns pela qualidade do que escreveu.
    Como dito em outro de seus ótimos contos, sempre chegará o inevitável dia do encontro dos credos e esperanças juvenis com o mundo real.
    O tamanho da dor desse encontro dependerá da estrutura que se tenha recebido desde os primeiros passos.
    Para alguns, o vestibular da solidão e do desnudamento das máscaras chega a ser até um presente, pois sabem a importância desse encontro marcado e o esperam, como diria Hélio Pellegrino.
    Para outros, no entanto, significa a perda dos tais “bons tempos”, o fim.
    A simples alienação irresponsável da juventude, sem a bagagem de uma infância e adolescência regadas a autoestima e preparação intelectual conduz apenas à muralha de uma intangível identidade madura, a autoanulação, à fuga e à perda de si mesmo. Aceita, então, o apelido de estrangeiro, assim como o de workaholic ou será rico o suficiente para comprar o nome que quiser.

  3. Miguel

    Obrigado pela leitura e comentário.
    Abraço.

  4. Caro Sergio

    mais uma vez sinto-me satisfeito por contar com a sua apreciação.
    Forte abraço.

  5. Pingback: Ver! | Blog | Seu Estrangeiro

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