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Uma Garrafinha Cheia de Nada

Garrafinha

Por Luísa L.

Tenho uma garrafinha de cristal muito elegante e delicada. Ela está cheia de nada.

É linda a minha garrafinha cheia de nada. Umas vezes é cor de fogo, outras azul com nuvens brancas. Tem gravada uma roseira brava que, ora dá rosas vermelhas de sangue, ora lhe crescem umas brancas de neve.

A rolha é em forma de lágrima, mas não chora. É uma lágrima sorridente, pincelada de arco-íris e que tapa o nada da garrafinha.

Há quem pense que a minha garrafinha está cheia de tudo, mas é ilusão, ela é apenas uma garrafinha cheia de nada. Se estivesse cheia de tudo não era uma garrafinha, era um pote bojudo cheio de tudo. É que o horizonte do tudo e do nada estão na imaginação. No que quisermos lá meter. Na garrafinha cheia de nada.

Ontem destapei a minha garrafinha cheia de nada e o nada entornou-se. Desapareceu. E para ali fiquei eu com a garrafinha na mão, de nada entornado. Parece uma coisa de nada, mas para mim é tudo; também para a minha garrafinha, que agora está vazia de nada. Do nada surgiu-me a ideia do nada procurar. E lá fui eu.

À cata, à cata Maria Sapata… perdi uma coisinha que me faz muita falta! Essa coisinha é o Nada… Cantei eu, baixinho, no ritmo próprio das feiticeiras. E repeti três vezes, sempre na cadência apropriada para a magia se realizar.

Estou aqui, senhora! Ei!… olhe nesta direcção, estou aqui. Gritou o nada da minha garrafinha, com uma voz fininha que mais parecia um suspiro. Eu não o via, mas ele estava, com certeza, dentro de alguma coisa, ou de fora de coisa nenhuma. Mas onde? Respondi-lhe feliz, toda esperançada de nada. Aqui mesmo, entre o Sol de fogo e a roseira brava. Disse o nada com toda a confiança. Mas onde estão as rosas? Perguntei, começando a afligir-me de tudo. As rosas estão lá. Agora são brancas de neve… repare!… Esforcei-me, concentrei-me, e finalmente, as rosas brancas de neve surgiram, do nada, na garrafinha vazia. Mas então, porque fugiste de dentro da garrafinha cheia de nada, nada? Perguntei eu. Ah… porque acreditei que saindo da garrafinha, podia libertar-me da inexistência de tudo. Estava cansado do vazio de tudo. Ou seja, do cheio de nada… quero dizer, de mim mesmo! Respondeu o nada. Nada, não te atormentes com pormenores improfícuos. A liberdade do nada passa pela aniquilação do tudo. Agora é tudo ou nada!

Bem, aquelas palavras eram só para animar o nada, porque nada é tudo. Mas eu gosto muito do nada da minha garrafinha. Então o nada lá entrou dentro da garrafinha vazia de tudo. Depois voltei a colocar a garrafinha cheia de nada em cima do toucador. A rolha em forma de lágrima sorriu-me em jeito de mar.

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20 thoughts on “Uma Garrafinha Cheia de Nada

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  3. Cecilia on said:

    Ei Luísa,

    Interessante como o nada nos revela tudo, como do nada se transborda não é verdade?Esta garrafinha com a rolha em forma de lágrima tem um jeito tão especial de enfeitar, cuidar, criar, colorir…

    Beijos

  4. joselitobortolotto on said:

    Bem, não sei bem o quanto o nada é relevante, entretanto neste caso ele é tudo, ou não.

  5. Sua bela narrativa me fez lembrar do “Ser ou o nada”, apesar de assuntos diferentes, em comum o fato de serem escritos com maestria.
    Um forte abraço do amigo

  6. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Luisa, seu nada é um gênio e aquela tampa em forma de gota sorridente tem um bastonete de condão. Não nos prive desse segredo, pois a foto é reveladora…
    Ungida por uma gotinha de nada, bem atrás do lóbulo das orelhas, esse segredou seu perfume envolvente e, do nada, você escreveu tudo.
    Que tal feitiço se espalhe pelos seus contos mágicos e gostosos de ler.
    Afinal, não custa nada você dividir um pouco de nada.

    • Bom dia, Sérgio!
      Muito obrigada pelo teu alento. Afinal são pequenas atenções, que apenas parecem de nada, que contribuem para tudo.
      Abraços.

  7. Esta história não me é estranha. Mas, como é encantadora, não me canso de ler. Linda. Magistral. Pura.

  8. Nada a declarar. É tudo.

  9. Olá minha querida Luísa, que metafísico seu texto, eu gosto de textos que dizem tudo falando do nada…Me lembra de novo, aquelas maluquices Budistas que curto, tipo: Não há barulho mais forte que o som ensurdecedor do silêncio !
    parabéns
    abração!

    • Olá Frank, bom dia!
      Eu nem sabia que essa ideia dos sons do silêncio era budista… mas está certa. Também gosto dessas maluquices!
      Grande obrigada pelo tua presença aqui e um abraço.

  10. tutankamon3000@live.com on said:

    Projetou o vosso tudo na inexistência do nada e criastes um belo conto reflexivo-òh,Divina Luísa!
    Do nada surgem as transmutações em perfeitos cenários, transformando-os em enredos, criados pela fértil imaginação
    Abraços fortes

  11. Faraó, há quanto tempo… muito bom ver-te por aqui!
    Às vezes, de certas coisas de nada surgem-nos algumas ideias.
    Muito obrigada pelo teu comentário e recebe um grande abraço.

  12. Gostei do conto. Gosto de quem escreve sem limites, mas com sentimento, com alma. bj

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