Só Contos

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Um tipo em extinção

Frescura

Por Ivani Medina

─ Três reais e oitenta centavos.

Pagou e recolheu ao bolso as moedas de troco. Aquela loja do hortifruti havia passado por reformas e estava bem melhor. Havia reconhecido a moça do caixa, mas ela não o reconheceu, o que é natural. Ela trabalha com o público e são muitos rostos a cada instante, como poderia lembrar-se dele se nada que justificasse uma lembrança havia ocorrido. Ao menos para ela. Tinham se encontrado na fila do caixa do supermercado na semana anterior. Ela estava procurando se ajeitar com três tortas que pareciam bastante apetitosas e umas pencas de copos descartáveis.

─ Hoje é um dia espacial, já vi tudo. Seu aniversário?

Disse ele, seguindo um antigo hábito de puxar assunto para amenizar momentos enfadonhos. Ela voltou-se e sorriu amigavelmente. Moça simples e bonita no seu uniforme de trabalho, calça jeans e blusa verde clara, do hortifruti, que trazia o frescor humano das cidades interioranas do Nordeste na sua despreocupação com estranhos e no seu sotaque cantado.

─ É não. A loja vai ser reinaugurada e vão-se distribuir agrados aos clientes. O senhor sabe aonde é a Hortifruti?

─ Sei sim. Também sou cliente de lá. Prefiro as verduras e os legumes da loja em que você trabalha às do supermercado.

─ Então passe lá depois daqui.

Poucas palavras para tanta simpatia na impessoalidade estampada nos olhos e no sorriso harmonioso daquela moça. A postura do corpo e os gestos sublinhavam a encantadora verdade. Ele ficou maravilhado. Ela era assim mesmo, como muitos quando chegam às grandes capitais do Sudeste, vindos de longe, trazidos pela esperança de uma vida melhor e pelo vigor da juventude. Ele pensava na sorte que teve por conhecê-la ainda assim, como um tipo de ser humano em extinção. Torceu do fundo do seu coração que a boa sorte acompanhasse aquela menina. Que o inevitável lhe fosse o menos doloroso possível.

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7 thoughts on “Um tipo em extinção

  1. Pingback: Ver! | Blog | Um tipo em extinção

  2. Bom dia, Ivani.

    Ao ler esse seu conto, acredite, também passei a torcer para que nada mudasse o jeito de ser da moça, que seus sonhos não fossem totalmente frustrados, que o passar do tempo ainda permitisse a ela sonhar…

    Sandra F.

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    É assim mesmo a torcida dos bons pelos mais puros e ingênuos, aqueles que ainda estão com os braços abertos e o sorriso largo.
    Sente-se mais, por que o mundo que tememos para eles é exatamente o nosso…

  4. Sandra
    Claro que acredito! Aquela moça é a verdade pela qual Charles Chaplin se dedicou. Não é nada inventado, por isso, continuamos torcendo por ela.
    Abraços.

  5. Sergio
    Todos torcemos por isto. Torcemos pelo que ainda resiste em nós, sem se curvar às lágrimas.
    Forte abraço.

  6. No final das contas, muitos de nós trazemos ainda, apesar do tempo, esta disponibilidade para a vida e para crer, embora fique ali meio escondido e encabulado dentro de nós, contudo nada se compara ao momento em que, com o frescor da juventude podemos vivê-lo. Vamos torcer então, para o mundo permitir-lhe que siga assim, sem vergonha de ser.

  7. Obrigado, Vera.
    que assim seja.
    Abraço.

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