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O casulo da borboleta

Borboleta

Por Luísa L.

És tão má… Grossas lágrimas rolavam pelo seu rosto sem parar. Pérfida… Tinham feito um sulco na fina penugem da sua face, um leito brilhante, uma espécie de caminho desbravado com a alegria heróica das pioneiras, sedentas de liberdade e aventura. Hipócrita… Agora a vereda estava traçada e todas as lágrimas nascidas percorriam aquele carreiro, descendo as maçãs do rosto, como um rápido, até ao queixo. Egoísta… Quando ali chegavam, pingavam, na monótona cadência dum relógio de corda, para alimentar uma mancha cada vez mais larga na camisola de algodão vermelho.

Porque choras tu, afinal?… Ela chorava porque um enorme saco de lágrimas sufocava o seu peito, cortava-lhe a respiração. Talvez fosse apenas a consciência do sofrimento que não iria viver, da solidão que não iria sentir, do abandono que não iria provar. Talvez fosse simplesmente a tristeza que iria ver nos olhos de quem tanto amava. Amas… tu ama-lo tanto!… E o rio de lágrimas engrossou a este pensamento. Ela chorava agora a agonia da separação, chorava a solidão e o desespero que o seu amado iria sentir daí a pouco.

Anda, levanta-te… vai lavar a cara. Levantou-se da poltrona e entrou na casa de banho. Despiu-se e tomou um duche demorado, tépido, como se quisesse iludir o tempo para o encontro final. O que tens dentro de ti? Ela tinha amor para dar, tinha um coração apaixonado e gostava de viver as suas paixões nas sombras sedutoras do quarto. Um amor louco, desapegado, que ela alimentava com devaneios apaixonados, até aquele espaço se tornar num casulo onde só cabiam os dois. Mas, inexplicavelmente, esse espaço ia ficando cada vez mais apertado, até ser difícil respirar lá. E agora o casulo está prestes a rebentar… O choro tornou-se num grito rouco, desesperado porque sabia que o casulo já não suportava aquele amor, aquele laço lasso que se desfizera, pois nunca fora consistente. Nascera desprovida de laços, como quem nasce com os pés grandes demais, o nariz arrebitado ou o cabelo ruivo. Não era um defeito era apenas uma característica sua. Por amor tinha tentado enganar a natureza e, com esperança, deixara-se amarrar por um laçarote vaporoso de carinho e delicadeza. Mas o laço desfizera-se. Agora era apenas uma fita de seda, suave e macia.

O que vais fazer, ele morrerá de dor… Ela chorava mais e mais, enquanto as lágrimas se diluíam na água morna do duche. Chorava agora a perda daquele amor quente e delirante. Chorava por não ter amarras que a prendessem, por ter pretendido ser um guarda-rios. Chorava porque o fizera acreditar que queria construir um ninho no canavial, e, na sua companhia, deambular até à morte entre o verde das canas e o verde profundo do rio. Nunca te perdoarás… Mas era preferível ele saber que fora enganado. Se for preciso fala-lhe de outro amor inventado… E era isso que faria. Isso ele compreenderia sem delongas. Ele sairia dali magoado e triste, mas a sua mágoa e raiva teriam o seu rosto e não um patético sufoco estrangulado num nó desfeito. Um inimigo sem forma, incompreensível e incontornável. E chorou mais. Chorou até gastar todas as lágrimas.

À noite, quando fechou a porta o apartamento, sem lágrimas para chorar, voltou a sentir espaço no casulo e moveu-se à vontade. Ele abriu-se com naturalidade e ela foi outra vez borboleta, sem culpa nem pena. Voou livre ao sabor do vento. Livre de laços e nós tomou consciência que não voltaria a contrariar a natureza.

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14 thoughts on “O casulo da borboleta

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  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Belo, Luisa, uma encruzilhada difícil para uma borboleta.
    A autêntica borboleta multicôr deve voar saltitante para todos os lados, mas nunca pousar no visgo do amor.

    • Sérgio, penso que todos temos uma fase, ou um pouco, de borboleta embora não gostemos de admiti-lo. Nem a nós mesmos. Talvez por uma questão cultural. Se calhar é por isso que o amor é tão sofrido…

      Muito obrigada pela tua presença e aproveito para agradecer também a excelência dos teus comentários.

  4. Luisa, que conto inteligente!
    É isso, algumas pessoas amam e muito, mas precisam sair do casulo que vivem (por pouco tempo), do contrario, morrem…. eu penso que era assim com o cara que namorei. Ele diz me amar, que sou isso e aquilo, mas nao consegue se “acertar na vida”. A vida passa, passam os dias, e outras historias começam a surgir.

    Beijos

  5. Oi Luisa, penso que existem pessoas realmente assim, elas amam mas não conseguem manter os laços e ficam sufocadas.
    Seu texto relata muito bem esse tipo de sentimento e atitude. É diferenciado, trata-se de um conto apenas, porém, embasado na vida.
    Gostei bastante, beijo.

    Sandra F.

    • Sandra, boa noite!
      Bom ver-te de volta. É verdade, também penso que a vida das pessoas é um pouco assim. A necessidade de independência e liberdade faz parte da nossa existência, só que cada ser vive-as de maneira diferente.
      Beijo.

  6. O Amor sublime, nos da grande alegria, e podemos chorar de felicidade,mas se acaso for ao contrario, chores então, ate suas lagrimas encharcarem panos,lenços,toalhas e lembre se…. a vida continua, vamos então dar a oportunidade a um novo AMOR…..abraços Lu…fuiiiiii

  7. O caminho das lágrimas que descreves supera a própria motivação. Aveludastes as palavras luisamente. Não fostes poética, sim a própria poesia.

  8. A borboleta, por vezes, procura o que a contenha. Busca o que outrora foi segurança. Até descobrir que suas asas não se encolhem mais, como antes, a menos que não se importe de ferir-se mortalmente. Por isto chora, mas consente em ser o que é. Beijos.

    • Pois é Vera, algumas consentem ser o que são. Muitas pessoas se acomodam ao casulo e são infelizes, outras adaptam-se… o ser humano é excecional!
      Beijos!

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