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Endoscopia de um sentimento

Art by Andy Lee

Por Ivani Medina

Não estava bem do estomago e resolveu consultar-se com um médico especialista. Uma endoscopia – exame visual por intermédio de uma microcâmara acoplada na ponta de um tubo fino e flexível, introduzido pela garganta, que permite também a coleta de material para biópsia – foi indicada e ele teve que se submeter aquele exame desconfortável.

Teve uma grata surpresa quando descobriu que o exame seria procedido por um antigo vizinho que já não via há muito tempo e com o qual se dava muito bem. Conversa vai, conversa vem e acabaram descobrindo mais uma identidade, só que ocasional: ambos viviam novas experiências amorosas. A do endoscopista já estava em curso, a dele ainda não. Era um achado recente e ele refletia a respeito, porque naquele momento da sua vida aquela atração tornara-se uma grande novidade. Tudo muito acidental: ela havia resgatado na vida dele satisfações íntimas das quais ele nem se lembrava, e um sentimento de gratidão havia naturalmente brotado daí. Interessado pela história dele, o médico em tom de brincadeira disse:

─Quero saber de tudo e você vai me contar enquanto ainda pode falar. O procedimento seguinte ao seu acaba de ser desmarcado, portanto, estamos com tempo. Vamos lá!

─ Pois é. Já pensou se certos procedimentos da medicina, como esse que você faz, pudessem ser feitos na mente da gente?

─ Enrola não, conta logo.

─ Pois bem. Há quem diga que pensamento e sentimento é quase a mesma coisa. Eu acredito que não. O pensamento dá mais liberdade, enquanto o sentimento aprisiona ou restringe. É voltado ao próprio umbigo e pouco se importa com o resto, pois tem ramificações com o instinto de sobrevivência. Por exemplo: gosto de pensar nela porque um sentimento brotou das impressões que ela me trouxe a faculdade de pensar, sem que jamais eu a tivesse visto. Digo “a faculdade de pensar” porque passou a existir uma inesperada boa vontade mental para com ela. Como a gente não é besta sabe que aí tem coisa. As afeições do pensamento geralmente são respeitadas por quem os pensa. Comigo não foi diferente.

─ Espera aí. Besta está eu, como é que você pode se sentir envolvido por uma mulher que nunca viu? Ah, não. Tenho um amigo que é um ótimo psiquiatra e vai poder lhe ajudar muito!

O médico caiu na gargalhada e continuou zombando.

─ Já sei, é mais um desses casos da Internet, né?

─ É sim. Só que não é mais um, é o meu. Isso já acontecia no mundo por intermédio de correspondência, hoje, as ocorrências do tipo estão se multiplicando e abrindo novas oportunidades em diversas áreas do relacionamento humano por causa da Internet, sim. Certos aspectos da nossa natureza estão ficando mais evidentes por causa desse fato novo na história da humanidade. Quando a atração física é inocente, isto é, quando a consciência responde a percepção de algo abstrato do mesmo modo que responderia a apelos físicos de igual teor, o gostar espontaneamente acontece. Cria-se daí uma necessidade que antes não existia, a necessidade da presença de uma determinada pessoa em nossa faculdade de pensar. Pelo fato do pensamento possuir ainda essa capacidade de isenção, isto é, ajuizar o acontecimento que se desenvolve no mundo interior, algo que o sentimento nos seus momentos mais abafados gostaria de ter, me é possível lhe falar disto.

Depois de muitas pensadas e fraquejadas, quando estou pensando nela, já não tenho a antiga liberdade de só pensar, sem sentir o que agora sinto. Antes, eu o fazia com liberdade e de forma prazerosamente estética. O fraquejar mandou meu controle às favas e fiquei a mercê deste sentimento. O fato é que este sentimento está ligado a diversos aspectos da nossa complexidade, como o instinto de procriação, que não é mais do nosso interesse. Tem a força e os meios para exercer uma verdadeira ditadura. É como num vício que faz um pensamento de escada para a imaginação falsear visões do outro lado do muro que separa a fantasia da realidade. O verdadeiro muro das lamentações. “Ah, bem que podia ser assim”, “Ah, bem que eu podia estar com ela agora”. Coisa assim.

Apaixonei-me pela inteligência dela. A inteligência é tão sedutora quantos rostos, pernas e corpos bonitos. É o lado imaterial da nossa existência em ação, algo bem diferente da imaginação – imagens em ação. Não é preciso acreditar em fantasmas para se perceber que vivemos mais num mundo imaterial do que naquele que chamamos de real. A realidade de um pensamento ou de um sentimento não é inferior a de um abacate.

Todas as impressões exteriores cobiçadas pelo instinto são levadas para dentro, para se tornarem o que as impressões desta mulher já são para mim. A coisa é meio doida sim. Se ela me diz: “Adoro de conversar contigo”, eu acredito. Não porque eu tenha motivos para crer nisso, ela fica semana sem me dar à mínima. Mas eu mesmo arranjo desculpas para ela, imaginando-a ocupadíssima, sem tempo de coçar aponta do nariz. Não posso reclamar conscientemente do mesmo que outros reclamam de mim. É preciso amplitude para se compreender alguma ocorrência no mundo de dentro.

─ Rapaz, eu nunca havia pensado assim. Realmente, na maioria das vezes parece que um amor pouco contribui ao bom sucedimento do próximo porque o nosso foco está sempre na pessoa amada e não em nós mesmos. Disse o médico.

─ A fila anda enquanto nós, nesse sentido, continuamos no mesmo lugar. Saber como o amor funciona na gente devia ser a nossa principal ocupação mental, creio eu. Devíamos ser criados e educados assim.

Ainda pensativo, o médico, a despeito das concordâncias, resolveu ponderar.

─ No que você acha que vai dar essa história com esta mulher?

─ Não sei e nem me preocupo com isso. Só sei do que já deu, e eu estou muitíssimo satisfeito com os resultados. Faço a minha parte e a vida faz a dela.

─ É talvez sejamos colegas em áreas diferentes. Agora vou lhe sedar logo, senão é você que vai querer me cobrar à consulta.

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3 thoughts on “Endoscopia de um sentimento

  1. Pingback: Ver! | Blog | Endoscopia de um sentimento

  2. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Vagamos nos pensamentos que nossos sentimentos nos orientam a ter.
    Em contrapartida, sentimos o que somos capazes de imaginar, depois de pensar.
    O equilíbrio dessa simbiose depende da coragem de buscarmos os mais recônditos sentimentos, manipulá-los sincera e verdadeiramente, para que possamos nos autoconhecer.
    Essa é a sinergia ótima entre corpo e espírito, é a paz.

  3. Obrigado Sergio, por mais este mergulho nos meus textos.
    Forte abraço.

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