Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Reminiscências

Art by Jarostaw Datta

Por Ivani Medina

Na sua mais remota lembrança se via aterrorizado por criaturas estranhas e amorfas. Tinha medo de fechar os olhos para dormir. Tudo era escuro e o único som eram seus gritos. Talvez, os tenha imaginado depois. Aos três anos de idade se viu com uma grande farpa de um daqueles copos altos de sorvete, tentando enfiá-la nas costas do pai, que montado na sua mãe caída no chão a esbofeteava. Tomou um safanão que voou longe.

Ação e reação estão na sua pré-história como representações rupestres intrauterinas. Foram elas as suas anfitriãs a lhe dizer veladamente: “Bem-vindo ao mundo, menino! Muitas histórias se iniciam piores do que esta e outras tantas nem tiveram como continuar. Salvo fatores mais poderosos, a vida continua e muitas dessas vivências desafortunadas vão para o esquecimento, deixando, contudo, inidentificáveis resíduos. Cuidado com eles”. Palavras que levaram umas boas décadas para serem assimiladas.

Enfrentou abusos de autoridade paternos na família sem medo, sabendo dedicar amizade e respeito ao seu genitor. Não foi fácil, mas conseguiu. Sabedor de que o pai fora hospedeiro do seu inimigo, procurou também se cuidar do jeito que foi capaz. Motivos pessoais poderiam enganá-lo facilmente e o ódio reprezado transbordaria sob qualquer pretexto. Quantas vezes ele se viu naquela contingência que por sorte não se confirmava. Somente ele sabia o que sabia. Nem tentava compartilhar aqueles pensamentos porque ninguém o entenderia e a vergonha não lhe permitia.

Certa vez, estraçalhado por ciúmes e estupidez, deu uns tabefes no rosto de uma moça que amava ao desespero. Fosse para se defender de uma agressão, tem mulher maluca mesmo, vá lá. Mas não, foi pela mais pura e indesculpável covardia. Aquela moça merecia tudo diferente daquilo. Ele era o problema, não ela.  Depois, sofreu muito mais do que a vítima. Primeiro derrotado pela própria fraqueza por não conseguir sustentar uma relação bonita e saudável com ela. Segundo pela força do inimigo triunfalista a zombar dele: “Tá vendo, você vai fazer o que eu quero. Será exatamente como fiz com seu pai e farei com quantos eu quiser”.

Ele detestava essa ideia e não seria vencido por ela de modo algum. Já tinha assistido a aquele filme. Sabia como se defender. Nas oportunidades seguintes cometeu outros erros, mas aquele não. Sentiu-se mais gratificado por não ter repetido aquele erro herdado e antigo do que desapontado consigo mesmo pelos erros novos. Percebeu que quando a consciência intervinha era pra valer. Erro algum lhe preocuparia mais. Era como se estivesse sendo apresentado a si mesmo, alguém que ele mal conhecia e passava a respeitar. Reparou-se confundido boa parte da vida a outras pessoas próximas, das quais já podia se separar. Sentiu-se mais leve. Entendeu, finalmente, que a sorte que faz lembrar é a mesma que faz esquecer.

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7 thoughts on “Reminiscências

  1. Pingback: Ver! | Blog | Reminiscências

  2. Só caminhamos um pouco mais seguros e conscientes no atrito. Belo conto, parabéns!

  3. Muito obrigado, Letitia.

  4. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Se conseguirmos juntar todos os momentos de nossas vidas poderemos montar uma infinidade de mosaicos, e alguns serão inteligíveis.
    Mais do que isso é impossível desvendar, pois não temos tantas equações racionais quanto o número de incógnitas da nossa alma.
    Às vezes, pegamos alguns desses cacos e, nos fingindo magos, os jogamos no cânhamo arriado de nossas velas sem vento, na esperança de adivinhar a próxima brisa ou tempestade, mas nunca saberemos para que lado soprará.
    Assim, crentes da adivinhação, imaginamos com esperança, ansiosos e pretensiosos o novo momento.

  5. Sergio
    Acho que não percebi bem a sua interpretação deste conto, de qualquer modo muito obrigado pelo seu comentário, como sempre, a prestigiar o nosso trabalho.
    Forte abraço.

  6. Q interessante esta história. Deve-se por um fim ao ciclo de abusos sofridos na infancia. Seu texto é muito bem estruturado e cativa a nós leitores sempre. Parabéns.

  7. Salve, Danilo! Muito obrigado e um forte abraço.

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