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A víbora

A Víbora

Por José Sousa

A igualdade é um cimento. Uma massa não uniforme que nos une ao outro e une o outro a nós.

Haverá quem lhe chame empatia, amizade ou até amor. Estão no vosso direito. Perdoar-me-ão, mas eu prefiro ser mais prosaico e dar-lhe outro nome: igualdade.

Sou igual aos meus alunos. Tenho apenas a vantagem, ou a desvantagem como queiram, de já ter passado por muitos dos locais para onde eles se encaminham. Já lá estive e voltei para contar.

Sou também igual àquele homem que, depois de apostar até a família, escreveu ao casino para que lhe impedissem a entrada. Segurem-no porque ele não é capaz. Já lá estive e estou aqui para o silenciar. Permitam-me algum pudor, afinal de contas, ainda mal nos conhecemos.

Sou ainda igual à adolescente que, na ânsia de se livrar de tudo e ser feliz, terminou a olhar para um bebé sem saber muito bem o que lhe fazer. Nunca lá estive e não o saberia contar.

Ei-la que chega. Não é uma surpresa, aguardava-a, se fosse louco diria que até a desejava.

Aproxima-se descrevendo suaves ondulações no soalho da sala. Tenho de reconhecer-lhe alguma elegância. Levo o copo aos lábios, faço a bebida dançar o tango na minha boca antes de engolir e acendo um cigarro. Recosto-me ainda mais confortavelmente na poltrona. Preparo-me.

Ela para os dois metros do sofá, enrosca o corpo numa espiral e levanta a cabeça vinte centímetros acima do chão. Olha-me e eu enfrento aquele olhar.

A víbora.

Não sei quanto tempo ali ficámos. Ela imóvel e eu a fumar. Registei, aqui sim com surpresa, a total ausência de medo. Ter-lhe-ia até sorrido, mas seria desigual, equivaleria a uma vitória menor, pois o criador, na sua finita sabedoria, não lhe atribuíra essa prerrogativa.

Já chega, decidi. Apaguei o cigarro. Levanto-me e avanço. O bicharoco permanece quieto. Não me senti heróico, nunca nos devemos sentir épicos por nos enfrentarmos, é seguro que alguém pagará por essa tolice. Estendi a braço na direcção dela, os dedos da mão em forma de garra.

Vou esmagar-te a cabeça dentro do meu punho, atirar o teu corpo contra as paredes e fazer desaparecer os pedaços. Nada restará de ti.

“Pai”

A minha filha esfregava os olhos de sono à entrada da sala.

” Sim. O que é que se passa. Devias estar a dormir.”

” Tive um pesadelo. Um burro queria comer-me.”

” Um burro. Podias ter escolhido um animal um pouco mais antipático, não te parece. O que é que aconteceu? “

Sorriu.

” Dei-lhe um pontapé e ele fugiu.”

Foi a minha vez de sorrir.

” Olha, olha, mas que menina tão corajosa que aqui está. Vá, vamos para a cama. Esse burro já deve ir longe.”

Olhei para trás. O meu bicharoco também desaparecera.

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17 thoughts on “A víbora

  1. Pingback: Ver! | Blog | A víbora

  2. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Muitas são as interpretações de um sonho com cobra. Tudo depende do tamanho do réptil, cor e reações decorrentes de ambas as partes.
    Também pode significar a busca de algo que procuramos e, em seu caso, o achado foi ótimo.
    Bons outros sonhos…

    • Lanna O'Hara on said:

      Um Filipino me disse na Tailândia que se você sonhar matando uma cobra você será rico e se essa cobra for uma Naja com certeza você será um “Rei” nos negócios. Ou seja, mate uma naja no sonho e serás bilionário.

      • José Sousa on said:

        Olá Lanna, quase que fiquei com pena por viver em Portugal, mas depois recordei-me do meu “republicanismo” e a coisa passou. Muito obrigado pela sua presença e simpatia. Um sorriso e um abraço caloroso.

  3. Olá Sérgio, obrigado. Gostei mesmo muito de interpretar este seu comentário. Um
    abraço caloroso.

  4. Salva pelo gongo ….. kkkkk

  5. Olá joselito, boa tarde. Gostei do riso. Só te pedirei para não voltares a chamar
    gongo à minha filha, sentir-me-ei profundamente ofendido se o fizeres. Um
    grande sorriso, um abraço e obrigado pelas presenças no que vou rabiscando.

  6. Ivani Medina on said:

    Caro José, teu refinamento de sempre muito nos honra e ilustra este mero contador de estórias. Obrigado por mais este.

    • Pelo contrário Ivani: o prazer é todo meu. Sou eu que agradeço não só
      estes testemunhos, mas principalmente o que vou retirando sempre que
      tu pões uma palavra a seguir a outra e a seguir a outra. É, mesmo, um
      privilégio. Um abraço genuíno.

  7. Mesmo a igualdade é desigual nos pormenores. Os bichos que nos invadem os sonhos por exemplo. Eles têm um objetivo igual, tirar-nos o sono, mas cada ser afasta-os com uma eficácia particular.

    Muito obrigada por mais este conto, José, e recebe um grande abraço.

    • Luísa, bom dia. Antes de tudo: enorme fotografia, um dia destes cansar-me-ei de o afirmar mas, por enquanto, vais ter que carregar com estes elogios. Desculpa.
      Abraço recebido e saboreado. Um beijo nada agastado para ti.

  8. Amigo José
    Estou passando por uma fase no mínimo estranha, acho que é causada pela idade, quando leio um belo conto, como este que acabei de ler, sorrio comigo mesmo por satisfação, não me julgo mais capaz de me arvorar em crítico, ou pior ainda tentar interpretar os significados e os simbolismos que o autor quis imprimir em sua obra, portanto só tenho uma palavra para escrever neste comentário. Belo !
    Um forte abraço do amigo do outro lado deste “marzinho” que nos separa.

    • Meu caríssimo companheiro: por vezes, o “marzinho”, como tu muito bem o apelidas, parece-me que não passará de um adereço de cenógrafo. É mais ou
      menos assim que o vejo agora. Recebe, por favor, o meu mais fraterno abraço.
      Estou, talvez inexplicavelmente, a lembrar-me de um inspirador texto teu em
      que tu dizias ” não me rendo coisa nenhuma”. Julgo que, como é teu timbre, acertas cheio no centro do alvo: vamos a isto. Os meus agradecimentos por
      tudo. Uma boa semana para ti.

  9. clara-mente on said:

    Este texto, impressiona pelos tempos e cadência de acçóes que as palavras são capazes de produzir. Diria que ao ler este texto, sou impelida a ver dinâmica e movimento com se presenciasse de longe, o sonho ou até hipotéctica realidade, o que nem sempre é possível percepcionar-se num tema desta índole.
    Parabéns pelo seu momento de inspiração.

  10. Boa noite, clara-mente. Muito obrigado por estas suas palavras. São um
    importante incentivo para mim. Um abraço e bom fim de semana.

  11. Olá José Sousa. Como gosto de ler seus textos. Me dá prazer, não só por poder acompanhar cada cena com curiosidade, como por admirar o modo como escreve.
    Obrigada. Abraço e bom final de semana!

    • Olá Vera, boa tarde. E eu gosto imenso de saber de si, desde logo com estas suas
      presenças no que vou fazendo, mas também deliciando-me com o que a Vera faz
      o favor de partilhar connosco. Muito obrigado por tudo. Um abraço caloroso e
      também um excelente fim de semana para si e para os seus.

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