Só Contos

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Um triste jantar

Um triste jantar

Por Ivani Medina

Um poste caiu e matou um homem. A má conservação do serviço de iluminação pública não foi a coadjuvante daquela morte, como se tentou informar. A batida do imprudente e inábil motorista, por si só, teria apenas causado leves danos ao veículo. A base do poste há muito estava aos pedaços com as ferragens a mostra. Quando familiares do morto chegaram ao local, no cumprimento da dolorosa missão, a polícia já estava lá. Eram 8hs: 40 min., pouco depois do café da manhã que o falecido tomara em casa, enquanto aguardava a condução para o trabalho.

Curiosos aos montes a olhar não sei o quê? O fato é que ali permaneciam não por solidariedade ou homenagem ao morto, nada disso. Porque apesar de constatarem o acidente fatal continuavam curiosos. De quê? Vai saber… Quem sabe o morto dissesse alguma coisa, se ainda doía muito ou pedisse um pouco mais de conforto porque a calçada era dura demais; sei lá. Aguardava-se a chegada da perícia enquanto alguns funcionários da prefeitura discutiam se o poste era de responsabilidade da concessionária privada ou da própria prefeitura. As chefias deveriam ser logo avisadas para prepararem suas desculpas para a imprensa, não para a população que paga sua conta de luz e espera que um poste de rua não apague seus dias.

Os familiares da vítima se revezaram no almoço, afinal, eram já 13hs: 50 min. e nada da perícia chegar. Os peritos chegaram somente na hora do lanche, às 15hs: 20 min. Morto não tem pressa e eles estavam assoberbados de trabalho e a viatura com problemas mecânicos. Os mais indignados parentes do falecido não tinham mais a quem xingar, intimamente, claro, senão vai preso. Protestavam com policiais que, por vezes, solidários, diziam:

─ Lembremos-nos disso na hora de votar.

Lembrei de que, certa vez, por uma questão de urgência tivemos que transportar uma maquete de um projeto arquitetônico que faria parte de uma cerimônia no palácio do governo estadual. Estava em cima da hora e o transportador contratado teve problemas.  O que fazer? O carro de uma funerária, que oportunamente passava diante de nós, foi prontamente requisitado e por uma boa gratificação o motorista aceitou o biscate. Tudo se encaixava porque o projeto era uma homenagem póstuma a um ex-governador.

Felizmente chegamos a tempo. Quando paramos na guarita do portão do palácio, um policial fardado dirigiu-se a nós com um sorriso debochado e perguntou:

─ Vieram buscar a governadora?

Foi uma gargalhada só. Isso mostra o quanto os nossos homens públicos são queridos em nosso país. No caso, tratava-se uma mulher que fica na mesma categoria, porque as chamadas “mulheres públicas” por aqui, certamente, são mais apreciadas e encontram quem as defenda.  Os servidores públicos não são tão admiradores dos seus superiores como alguns deles, diretamente beneficiados, podem fazer pensar. Por isso não é prudente xingar funcionários do governo, melhor descarregar a raiva nos governantes, pois dá até para contar com algum apoio.

Vazios de lágrimas e da crença no respeito humano, aqueles enlutados familiares continuavam lá, fiés ao ente querido falecido. Mesmo com o possível apoio da raia miúda do funcionalismo público o corpo do infortunado só foi removido pelo rabecão quando as luzes dos postes se acenderam numa última homenagem, às 17hs: 48 min., quase na hora do jantar.

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8 thoughts on “Um triste jantar

  1. Pingback: Ver! | Blog | Um triste jantar

  2. ainda bem que o morto não podia ver essa baderna. se pudesse, ele mesmo se mataria – ou mataria o pessoal da perícia… muito bom, o conto!😉

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Na realidade, a governadora ausente de suas obrigações precípuas com a população, como é comum naqueles que curtem o delírio do poder e se esquecem da razão maior para essa nomeação, estava morta desde eleita. Mumificada, jazia sentada à sua mesa, firmando a caneta, enquanto seus asseclas movimentavam o documento diante da pena, para arrancar-lhe mais uma assinatura.
    Pelo menos, era essa a ideia que fazia o guarda do palácio e toda a raia miúda de funcionários públicos presente ao acidente. Estavam em seus postos apenas para manter as aparências e seus empregos.
    Esse também é o pensamento do povo, ao presenciar desvarios de poder, sem a devida autoridade, sobre aqueles que o deveriam servir…

  4. Ivani
    Mais uma vez venho agradecer pela sua habilidade de retratar os fatos cotidianos, emprestando o seu lirismo e a sua pena forte.
    Abraços

  5. Ivani Medina on said:

    Shirley, muito obrigado pela sua leitura e comentário.
    Abraço.

  6. Ivani Medina on said:

    Caro Sergio, mais uma vez agradecido pela sua leitura e pertinência dos seus comentários.
    Forte abraço.

  7. Ivani Medina on said:

    Caro Antonio, eu é que agradeço o seu apoio de sempre. Forte abraço.

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