Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

“Eu” vende Livros entre os outros Pronomes

Foto by Ming Bai

Por Luísa L.

– Ora viva a todos, digo eu!
Eu também sou gente, porque só saúdas todos?
– O quê? Agora és eu?
Nosso é que não é, soa-me muito democrático e quem sabe tudo aqui, sou eu!
Isso é que era bom, não faltava mais nada…
Ele manda?
Outrem manda…
Eu tenho livros para vender, fui eu que escrevi, eu sei, eu sinto, eu vejo!… Comprem!
Qual?
Outro… irra!
Tantos!
Nenhum diz nada de novo…
Eu deixo aqui um pequeno trecho sobre como encontrar deus e o diabo, o amor e o ódio. É só para vos aguçar o apetite!…
– Apetite de quê?
– Um hapy meal daquele palhaço?…
Quanta porcaria…
– Cala essa boca!
Qualquer um pode fazer compilações de ideias, uma aqui outra ali…
– Chamaste por um?
Muitos podem, mas poucos querem passar por essa vergonha.
– Ouve lá, isto é uma conversa entre homens, vai mas é coser meias!
Isso das meias é comigo?
– Machista empedernido… não ligues, poucos estão de acordo.
– Mas muitos concordam, bem dito!
Vós concordais com uma coisa dessas?
Poucos e muitos, estamos a discutir os livros, as meias ficam para depois.
– Ah, bom… temia alguma briga.
Eu estou a perder a paciência e vós devereis comprar os meus livros, vejam bem… é a minha experiência pessoal com o verdadeiro amor, com seres divinais e fadas…
Porquê fadas?
Onde, são boas, digo, bonitas?…
Onde, tu não te metas, isto é só entre pronomes!
– Porque as fadas me escolheram. E eu escrevi os livros… sou um ser iluminado. Pesquisei e estudei a minha vida toda, sempre a mesma coisa, sempre nos mesmos parâmetros e sempre os mesmos autores.
Quanto embrutecimento.
Tu tens luz própria?
Isso é falta de imaginação.
– É uma estrela, com tanta claridade…
– O nosso corpo é muito quente!
– Também tu?!…
– O vosso quê?
Eu disse, comprem lá os meus livros, porra!
– A nossa matéria, digo.
– Ah sim, essa… entendo… não sabia que eras estrela.
– Mas tu estás mesmo com bom aspeto.
Ele também se tem tratado bem, vê-se pela cor.
Nós somos muito atléticos, ora vejam os nossos bíceps…
Vós também estais muito elegante!
Vocês são todos uma cambada de ignorantes, não estudam nos meus livros, não abrem as vossas mentes como eu estou farto de dizer…
Eles são os que têm melhor aspeto, com a pele bronzeada e porte atlético…
– São os tais que chegaram agora do Algarve!
– Idiotas… assim nunca encontrarão o verdadeiro caminho. Comprem os meus livros porque eu lá explico tudo, tudo, tudo sobre o espírito, as fadas, a levitação e os hindus!
– E os outros foram esquiar.
Quais, quais, os hindus?
– Não, não, os mesmos que estão além com o nariz queimado…
– Podia ser Shiva, ninguém explica…
– Ai, ai… qualquer uma pode ficar caidinha por aquele narizinho cuti.. cuti…
– Idiotas!… eu vou-me embora daqui, não suporto pronomes, nunca suportei… mas lembrem-se, vós aí, eu tenho livros onde explico tudo. Nunca serão nada se não lerem as minhas verdades. Comprem!
Essas verdades soam-me a falso…
– Como as de qualquer vendedor.
– Consta que ele aprendeu o ofício por correspondência…
Tu és mesmo má língua!…
Alguém percebe alguma coisa de narizes?
Aqueles cuti, cuti?
Tantos que percebem!…
– Os meus amigos por exemplo.
Todos os narizes cheiram, o teu não?
– Pronomes, meus amigos, não sentem algo diferente?
Onde?
Nada…
Tudo!
Isto é fabuloso!
– Já não me cheira mal!
– Ufa…
– A mim também não!…
Quem diria…

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13 thoughts on ““Eu” vende Livros entre os outros Pronomes

  1. Pingback: Ver! | Blog | “Eu” vende Livros entre os outros Pronomes

  2. Luíza, brincas deliciosamente com as letras, é sempre muito bom ler os teus textos, e quanto ao Algarve … suas letras trouxeram a reboque as saudades dos meus avós paternos. Como disse é muito bom parar por estas bandas.
    Um forte abraço

    • António, bom dia!
      Meu amigo, obrigada pela leitura e comentário. O Algarve, atualmente é uma chique zona turística, mas há muitos anos era uma terra de pescadores e gente que vivia da agricultura.
      Grande abraço!

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Artigo bem definido e pessoal, embora trate de um livro possessivo e pouco substantivo, escrito por não sei quem.
    No entanto, não tenho adjetivos para elogiar o tom superlativo de seu trabalho, sem nenhuma dúvida.
    O tom interrogativo do diálogo é demonstrativo de que tudo é relativo, o que demonstra facilmente o valor de quem o escreveu…
    Parabéns, Luisa L.

    • Sérgio, super obrigada pelo teu comentário. Às vezes dá-me vontade de variar o tipo de discurso, grande parte das vezes sai algo ilegível, outras vezes compreende-se mais ou menos.

      Abraços.

  4. Luisa, você parece-me uma mágica das palavras. Divertido e instrutivo. rsrs
    Como disse o Antonio, você brinca com as palavras e … com muita maestria.
    beijos

  5. Van on said:

    Oi Luisa

    Tão criativo e diferente!

    Você é tão eclética na escrita, isso a torna ainda mais atraente, quando a forma é o diálogo, seu texto ganham um dinamismo incrível.

    Beijos

  6. Olá Luísa, bom dia. Um festival de imaginação, técnica e conteúdo. Obrigado e
    parabéns. Um grande sorriso e um beijo.

  7. Parabéns, Luísa! É maravilhoso quando podemos produzir alguma coisa e nos divertir no processo, não é? Deve ser assim com você, quando brinca com as letras!
    Que beleza! Beijos e bom final de semana!

    • Vera, na verdade este tipo de texto dá-me sempre muito prazer escrever. Normalmente acabam por surgir na sequência de um desafio que alguém me propõe. rsrsr

      Beijos e uma ótima semana para ti!

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