Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Vim apenas lhe abraçar…

Photo by Ming Bai

Por Vera Alvarenga

Ela sabia que ele estava lá, em algum lugar, mas há algum tempo não recebia notícias. E naquele dia, quando já ia partir, com os ventos da primavera as recebeu. Vieram nas asas do pássaro que entrou pela janela. Seu coração encheu-se de felicidade e o sorriso apoderou-se de todo o semblante.

Mas o pássaro estava machucado, debateu-se  um pouco antes de sair em seu voo novamente silencioso e cansado. A saudade, que antes tinha sido sua companheira algoz e transformara-se há pouco em oposta alegria, logo vestiu-se com a palavra fria que não consegue descrever os sentimentos, como um abraço ou o olhar melhor fariam. E, como estátua, agora congelara e continha dentro de si o impulso da vida, pois diante do oposto que lhe foi revelado, era o que lhe cabia. Como ela podia sentir-se tão viva, se ele lhe falava da morte? Ela encontrava nele, a vida! Ele, lembrava com ela, a morte! Nada podia fazer para evitar que ele sofresse. Não tinha o poder de protegê-lo, nem ele viera para ser protegido. Encontravam-se como sempre, por algum motivo que não ficava claro além do querer bem, apesar de tudo e da distância. Quantas lágrimas ele tinha chorado outra vez e ela não pode enxugar? Era assim a vida.

Mais uma vez, ela o abraçou ternamente. Isto, às vezes, bastava. Contudo, neste período das chuvas de primavera, gostaria de tomá-lo em seus braços, curá-lo de seu ferimento, ou quem sabe, ambos se curariam do que quer que ali houvesse que os machucava de maneiras distintas. Sim, ela também queria ser tomada nos braços, mas não por um momento. Apesar de saber do caráter efêmero de tudo, o que a curaria tinha de estar vestido da certeza do que é verdadeiro, e ali se realizaria em gestos e olhar…como se fosse para sempre. Só o despojamento das vaidades e a disposição para viver o eterno, seriam capazes de curar os espíritos feridos pela morte, em suas diferentes roupagens. Era sonho. Talvez se encontrassem apenas para darem-se este abraço dos que sabem que não serão julgados.

Antes de sair, ele pediu-lhe um sorriso para lembrar-lhe de que a vida continua… e ela, ao fazê-lo pensou em como isto era difícil quando aquele que amava inconsistentemente do modo como era possível, sofria. Assim, ela aprendeu na carne, porque alguns amam e apesar de tudo, não conseguem proteger o outro. Era um desafio, mais uma vez, sorrir de encantamento, quando o que parecia realidade era oposto ao que parecia sonho. Por isto ela sabia que era impossível para o ser humano deixar de sonhar. Por isto ela permitia que sonho e realidade se confundissem, por vezes…

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11 thoughts on “Vim apenas lhe abraçar…

  1. Pingback: Ver! | Blog | Vim apenas lhe abraçar…

  2. Olá Vera, boa tarde. A condução delicada e sensível que é seu timbre e que já me
    habituei a admirar. Para mais, desta vez, somos levados para um terreno muito
    acidentado e difícil para qualquer um que escreva: as relações, os limites, as impotências entre o amor e a dor. Muito obrigado por mais este texto. Um beijo carinhoso e um bom fim de semana.

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    A paz é o perfume do amor.
    A dor é a insônia da paixão.
    O desvario é o vício do desejo.
    Quero o teu perfume, mas o desejo corroi minhas narinas e já não durmo de tanta paixão.

  4. Proteger a quem amamos, em todos os sentidos, é tão natural quanto improvável. Ao menos, como gostaríamos. Belo conto, Vera. Parabéns.

    • E já viu, Ivani, que algumas pessoas se aproximam porque um deles está fragilizado? E então, se quem se apaixona, como neste conto, quer proteger o outro do sofrimento, se vê numa enorme contradição, não é? Obrigada pelo incentivo.

  5. Bem, esta é a sina do amor, felicidade e sofrimento.

  6. O amor e a dor são um caminho só. É assim que os seres humanos são. As paixões nunca são alegres ou leves. Muito obrigada por mais este lindo conto, Vera!

    • Ora Luísa, o prazer é meu de estar aqui para falar de amor, encontros e desencontros. Quando leio meus contos colocados neste blog de tanto bom gosto, por outra pessoa, com outras fotos, é como vê-los em um livro…eu que agradeço!
      Beijos!

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