Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

O Recheio

Art by Benjamin Cortis

Por Ivani Medina

O deles também é mais um amor inventado, como comumente acontece e a maioria não se dá conta. Mas não se pode negar outros fatores presentes aí. Uma simpatia qualquer, atração física, olha daqui, olha dali e lá está a se formar o recheio do sanduíche existencial que há de aliviar aquele apetite afetivo e sexual que a natureza nos provoca. Pronto! Começa-se a pensar naquela pessoa, de vez em quando, como mais um lanchinho. Pode parecer debochado, e é mesmo, porque ninguém reconhece prontamente um grande amor. Há quem jure o contrário, mas na verdade é somente carência em excesso. Mas nem sempre é tão simples assim.

Um grande amor precisa de tempo para crescer, e crescer como amor é difícil. Muitas vezes crescem a admiração, a necessidade da pessoa, as inseguranças, as ansiedades, as críticas, as desconfianças, os aborrecimentos… Crescem juntamente com aquelas aderências que acompanham cada um, sem que consciência se tenha delas. Por quê? Porque somos assim mesmo. Porém, como pouco se sabe sobre a mente humana, os caminhos do amor continuam pra lá de misteriosos.

As tais aderências são companhias de uma vida inteira que não deviam ser convidadas para a festa da chegada do novo amor. “De perto ninguém é normal”, disse Caetano Veloso. O pior é que se faz de tudo para enganá-las, mas na hora “h”, lá estão elas infalivelmente. Quem justamente vai perceber tais presenças indesejáveis é quem menos deveria ─ o novo amor. Fica de orelha em pé, mas não quer causar constrangimentos iniciais. Por educação disfarça pensando se em dar mais uma chance.

Afetivamente, vive-se mais de tentativas do que de conquistas realmente amorosas. Esta é a maior frustração universal, sem dúvida alguma. Geralmente, o futuro amor não tem futuro algum quando é encardo assim. Todo mundo, goste ou não, tem mesmo é cara de lanchinho. Por causa disso, pelo sim ou pelo não, muita gente “precavida” acaba passando a vida inteira com um quibe sem refresco, e olhe lá!

Ah, como é gostoso o recheio do pão nosso dos nossos dias… Lembra-se da multiplicação dos pães? Pois então, o futuro grande amor é mesmo assim, um verdadeiro milagre.

Ela não percebia muito bem o censo de humor dele. Levava a sério demais as suas brincadeiras. Havia uma diferença cultural que respondia por isso. A percepção europeia é uma, a tropical é outra. Certa vez, de brincadeira, ele disse a ela no meio de uma conversa:

─ Você vai me odiar…

─ Está louco, como poderia eu odiar-te?

De tão acostumados com a própria linguagem, ao utilizarmos a mesma língua em outro contexto cultural, não nos passa pela cabeça o quanto de estranheza certas expressões e construções podem causar a quem não está habituado a ela. Por exemplo, “zerar” volver ao zero ou reiniciar uma situação como um novo romance etc. é uma expressão bem brasileira que povos de língua portuguesa apreciam, mas nem todos a conhecem.  Certas diferenças funcionam como verdadeiras especiarias.

Chegada de Portugal por outros caminhos, Maria Eduarda veio ao Brasil quando ainda estava casada com um patrício dela, estabelecido em Angola. O processo de estabilidade democrática daquele jovem país os ricocheteou para cá por um curto período, depois de terem passado maus pedaços por lá. Demétrio conheceu-a por intermédio do próprio marido, a quem ele tentava ajudar quando na chegada dele ao Brasil. O restante da família veio depois. Acabaram retornando a Portugal, onde se divorciaram. Ela mudou-se para Paris, onde reconstruiu sua vida com o filho pequeno. Casou-se com um francês, mas não durou muito tempo. Passados alguns anos, Demétrio e Maria Eduarda voltaram a se encontrar já no centro da cidade do Rio de Janeiro.

A surpresa foi tão grande quanto o pronto reconhecimento. Incrível, mas Maria Eduarda era uma mulher difícil de ser confundida ou esquecida. Tudo nela era só dela. De gosto e atitudes refinadas, com inclinação para a música, tocava violoncelo, era a própria invulgaridade. Sua elegância e graça, também ao instrumento, o havia encantado naquela época, quando ele teve que fazer um grande esforço para afastá-la do pensamento. E ali estava Maria Eduarda novamente na sua frente, solteira novamente, o que era o melhor. Eduarda trabalhava para uma multinacional francesa e fora transferida para o Rio. Sentaram-se num café para atualizarem aquele hiato da vida e comemorarem a feliz coincidência.

Ela comentou rapidamente sobre o ex-marido, menos ainda sobre o mais recente e mais sobre o filho. Lembrou-se de que o menino, agora um rapazinho, gostava muito de Demétrio. Desde a primeira visita o miúdo vivia a perguntar quando Demétrio estaria de volta a casa deles. Sabiam ambos que aquela lembrança tinha um significado especial. Na ocasião, a atração física foi recíproca, mas as circunstâncias desfavoráveis. Não fosse essa coincidência ou provocação valorizar algo esquecido lá no fundo da gaveta, nenhum dos dois lembraria se quer um do outro. No entanto, por um motivo qualquer, aquela simples recordação serviu para dizer que a afeição do menino pelo amigo ocasional da família, depois de tanto tempo ainda servia como meio caminho andado para o coração de Maria Eduarda, como mãe e mulher.

Nuno, nome que ela deu ao filho em homenagem ao próprio pai, ainda está em Paris aos cuidados de uma tia a espera da conclusão do período escolar.  Houve um progresso afetivo rápido e o novo casal goza as delícias das descobertas e se encontra em fase de adaptação. Quem diria? É de se esperar que cada experiência venha favorecer a seguinte, pois não? O paladar educado fez desse recheio descoberto por eles presença obrigatória no cardápio de suas vidas.

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11 thoughts on “O Recheio

  1. Pingback: Ver! | Blog | O Recheio

  2. Olha aí, Ivani, um belissimo texto!
    Concordo quando você diz que a “afetivamente, vive-se mais de tentativas do que de conquistas realmente amorosas” – as conquistas são no princípio, depois ficam as tentativas. Que bom quando elas (as tentativas) dão certo.
    Abraços.

    Sandra F

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Parabéns, Ivani Medina.
    Sua caneta é muito bem guiada por sua cabeça e coração.
    Se todos descobrissem que a companheira não é apenas uma forma de “tapar os buracos” de nossos caminhos, certamente valorizaríamos mais a importância do outro e daríamos mais significado aos mandatos para que fomos eleitos, como bons prefeitos de nossas vidas.

  4. Sandra
    rsrsrs Gostei do seu comentário. Obrigado.
    Abraços.

  5. Sergio
    Muito obrigado. Bonita apreciação a sua.
    Forte abraço.

  6. As paixões vão e vêm bem mais depressa do que imaginamos.
    Concordo com a Sandra: são as tentativas que nos dão a ilusão de continuidade.
    Belo conto, Ivani.

  7. Ivani

    Mais uma vez, um belo texto sobre os amores e as tentativas de amar, sensibilidade em texto como sempre correto.
    Um forte abraço

  8. Letitia
    Acatamento teu me deixa feliz. Obrigado.

  9. Caro Antonio
    Mais uma vez, muitíssimo obrigado e um forte abraço.

  10. Sou uma eterna romântica. E sou um bom garfo, assim, pelo reencontro quando já não mais se esperava, pelos sanduiches e recheio, fico também eu feliz e satisfeita com seu texto! Estar disponível para encontrar o amor, é como tentar descobrir a receita para a melhor massa…a gente tem de tentar, experimentar e ser persistente. Colocar uma bela mesa, criar o clima, talvez um bom vinho… Abraço a você, Ivani.

  11. É isso aí, Vera. Esta é uma das partes mais importantes da vida, pelo leque de oportunidades que oferece. O paladar também se refina com tempo.
    Grande abraço.

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