Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

O Representante – Curupira

Curupira

Por Eduardo Vieira

Aquele dia estava bonito, ensolarado, temperatura agradável e um vento que soprava refrescante, sempre no tempo certo… Mas, para algumas pessoas, aquele dia não estava bom, nem bem. Um jovem casal, que teve o primeiro filho. O bebê, pequenino, nasceu com um problema nas pernas.

“Vai ficar tudo bem, meu amor” repetiu e repetiu o inexperiente pai para a mãe de primeira viagem.

“Será uma cirurgia simples, de correção” disse um médico. “Em alguns dias ele poderá ir para casa”. Os pais ficaram felizes com a notícia. Receosos de algum erro, algum acidente, porém tranquilos com os pensamentos na chegada, em casa, do seu primeiro. Pensaram nele com as roupinhas, com os sapatinhos e os brinquedos; brincando com filhos de alguns amigos. Deixando de sorrir somente quando estivesse dormindo.

No entanto, as boas expectativas foram substituídas por dúvidas cruéis: de dificuldades, preconceitos e conflitos. Aconteceu quando o médico disse: “Houveram alguns erros na cirurgia”. A mãe não esperou um segundo para cair em desespero. Entre ameaças de polícia e processos, exigiram saber quais erros. “O filho de vocês foi levado para a sala errada” explicou o médico. “A sala onde haveria um transplante de pés… o transplante foi feito e, infelizmente, foi feito errado, deixando os pés do seu filho para trás”.

Os pais perguntaram sobre a possibilidade de nova cirurgia, para deixar os pés como todos os pés deveriam ser: para frente. Não houve solução. Os pais entraram com processo por erro médico contra o hospital. Sabiam que era melhor ter o filho vivo com pés errados, do que morto com pés certos, era o único pensamento de conforto naquele instante. Até que levaram o bebê para casa e começaram as alegrias.

O bebê era normal e ganhou peso e tamanho como os bebês normais. Com seus pés virados, não aprendeu a andar como os bebês normais, porém aprendeu e andou e depois correu. Tornando-se bicho ágil, tão ou mais ágil que seus amigos de mesma idade. Tão esperto também. “Não fez diferença” falou o pai para mãe algum dia, muito tempo depois de levarem o bebê para casa, não sabendo que os pés representariam uma dificuldade extra para o convívio com algumas pessoas. O bebê, quando foi virando menino sagaz, começou a perceber os olhares para seus pés: de estranheza, de medo, de repulsa e de coisas que ele ainda não sabia.

Um dia o menino se aproximou sorrateiramente de uma moça e perguntou: “O que tem com meus pés?”. Queria saber o porquê dos olhares fixos e estranhos. A moça estremeceu, pois o menino colocou seus pés bem próximos aos pés dela. “Seus pés são errados” respondeu a moça dando alguns passos para trás. O menino retrucou com vontade, argumentou que seus pés o deixavam em pé, andavam, corriam e até pulavam, calçavam chinelo, sandália e tênis. Além disso: “Eu sou o melhor batedor de pênalti do time da minha escola”. Ainda tinham, os seus pés, o charme de ser para trás. A moça saiu sem responder. O menino, meio confuso, meio triste, totalmente aborrecido, tomou a decisão de ajudar todas as pessoas charmosas iguais a ele.

Quando o menino virou adolescente, já sabido que charmoso que nem ele, só ele mesmo, tinha na cabeça a vontade de ajudar todas as pessoas que chamava de charmosas, deficientes físicos ou intelectuais de nascença ou de qualquer causa. Porém queria mesmo era defender os que fossem vítima de erro médico, como ele, e evitar que outros escapassem de ser punidos. “Vou virar advogado” disse para si.

O jovem maior artilheiro da história de sua escola, bons nos estudos mais que no esporte, passou com folga para a faculdade de advocacia. O difícil foi se afastar da namorada, aceita numa faculdade longe de casa, em outro estado. Terminaram o relacionamento de namoro, esperando voltar um dia. Mas sem esperanças, estavam livres para seguir seus objetivos.

Quando se formou na faculdade, antes de fazer a prova da OAB, o jovem sabia das dificuldades. Entrou em diversas entidades de auxílio às pessoas charmosas e viu casos espantosos de abandono pelas famílias e abandono das famílias pelo poder público. Cada vez mais, tinha certeza do seu caminho e a esperança de se tornar um eficiente defensor.

Seus recursos, quando plenamente formado, eram muitos, tinha listas e listas de entidades acolhedoras para crianças, diversos contatos com objetivos de vida similares e fontes de informação. As fontes, talvez, fossem o mais importante, tinham a função de fazer os acontecimentos chegarem aos ouvidos e espalharem para os outros também. Formavam uma grandiosa rede. Tudo funcionou.

Ganhou fama e notoriedade, o Curupira, pois era moço com pés virados, da cidade. Deu várias entrevistas. Uma vez perguntaram por que ele aparecia tão pouco e era tão difícil de achar. “Eu trabalho muito e estou sempre vigiando” respondeu “Não sou difícil de achar, só não quero todos me encontrando”. Outra pergunta da qual gostou foi: “Como é o trabalho com as crianças?” Para qual teve uma resposta simples: “É uma fase muito importante, procuramos especificar as formas de aprendizagem e fazer as crianças terem convívio com o maior número possível de crianças, para elas saberem das capacidades uma das outras” disse, com orgulho de seu trabalho, “Serão os homens e mulheres de amanhã. Será um bom amanhã”.

Várias perguntas queriam saber de números. “Quantos médicos foram punidos?” ou “Quantos policiais foram presos?”. Outras não: “Por que aquele promotor foi afastado?” ainda “Você tem medo?” ou “O que é capaz de destruir o Curupira da Cidade?”. Se divertia com essas perguntas. Nunca contou o número de condenados pelos processos que ganhava e sabia que outros viriam. Não tinha medo em seu trabalho ou do que pudesse lhe acontecer pelo seu trabalho. E sempre pensava em suas fraquezas e guardava suas descobertas para si mesmo, não queria parecer invulnerável, porém não poderia dar armas aos adversários.

E a cidade fez assim seu Curupira.

Single Post Navigation

6 thoughts on “O Representante – Curupira

  1. Maravilha de lição neste texto maravilhoso, demonstrando que ser diferente não significa excluído da sociedade. O nosso “CURUPIRA” em questão superou tudo dando a lição que todos podem ter seu espaço e só saber ser diferente e seguir em frente…valeu…fuiiiii

  2. Pingback: Ver! | Blog | O Representante – Curupira

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Belíssimo, Eduardo Vieira.
    O preconceito existe naqueles que não olham a sua alma, nem a do outro, por covardia ou egoísmo, mas esperam sobreviver à custa de instituir padrões que lhes garantam a propícia e enganosa aceitação social. Sem o mimetismo dos “charmosos”, camuflam-se com a mesmice dos escravizados pelos padrões.
    Enquanto o Curupira da selva desarma e engana com seu rastro invertido o caçador inescrupuloso, evitando a devastação da natureza, um bacharel Curupira acolhe, com suas pegadas mais do que corretas, o diferente, e luta contra a devastação dos valores humanos.
    Assim, ele usa a lei para despertar no urbano, mas não civilizado, rastros de um caminho aparentemente invertido, mas que também é o caminho do homem.

  4. Eduardo, lendo as suas bem traçadas linhas, dei-me conta da perversidade de uma sociedade hipócrita e da necessidade de mais homens de letras como você para mostrar, e de forma magnífica, que uma sociedade é feita de diferenças.

    Um forte abraço

  5. Cecilia on said:

    Olá Eduardo…

    Ele fez da sua diferença um motivo para o seu sucesso, a superação , a vontade de vencer e de ser alguém capaz de ajudar outros e anular o preconceito que a sociedade insiste em ter, embora impossível mas ele se superou…venceu.. um conto real , tirado do mundo em que vivemos com perfeitas e reflexivas palavras…

    Beijos

    Beijos Luísa

  6. Muito obrigado pelos comentários. E pelo espaço que abre os nossos textos aos leitores.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: