Só Contos

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Era Verdade

Foto by Anna Berkoz

Por Ivani Medina

Cansado da chatice da lógica e do bom senso, que já amargou a boca de muita gente ajuizada, apostou na sorte por distração. Era-lhe como um passatempo. Botou na cabeça que um dia desses tiraria a sorte grande. Não que tivesse planos para concretizar antigos anseios secretos, nada disso, apenas para conhecer uma vida sem os contornos estreitos da limitação financeira, comum à maioria dos mortais. Chegou aos detalhes da ocasião da premiação: os números estavam escolhidos e naquele dia de sorte ele jogaria por jogar, sem a expectativa de um provável ganhador. Era decepcionante e cansativo lutar contra sorte. O melhor seria deixá-la à vontade com os seus caprichos.

Levando a vida presente atento às oportunidades, ia vencendo os dias e fazendo deles o melhor possível. Carpe diem. Assim só tinha a ganhar e ninguém precisava saber do que se passava na sua cabeça. Havia reparado que com ele acontecia algo curioso: quando o dinheiro era curto surgiam desejos banais apenas pela consciência das ridículas limitações. Quando o dinheiro chegava àqueles desejos desapareciam como por encanto. Não tinha mais desejo algum a realizar, como se seus desejos fossem movidos pela impossibilidade. Não haveria de ser diferente com o grande e esperado acontecimento. Será que se tornaria budista?

Sempre comedido nas mesmas apostas tornou-se conhecido pela sua cautela na lotérica. Só apostava quando havia prêmios grandes. Dizia à atendente que a sorte desconhece a crença nas possibilidades, que estimula a gastança compulsiva dos aflitos. A diferença entre o veneno e o remédio está na dosagem, já diziam os antigos gregos. Era assim que ele encarava o ato e a sua probabilidade. Num dia qualquer da semana fez jogo habitual e logo o celular tocou. Uma parenta sua o convidava para um almoço comentado há algum tempo. Pensou na distancia entre suas residências e na longa viagem que, afinal, não era tão má assim. Preferiu espantar tal pensamento e o convite estava aceito.

No dia marcado, enquanto o ônibus subia o Alto da Boa Vista, em direção à Barra da Tijuca, ele ia pensando nos desejos que lhe faltavam, enquanto contemplava a paisagem querida. Esta estava ligada a ele desde a infância e aquele percurso evocava vida e boas realizações. Sua prima estava para realizar um antigo sonho: conhecer Paris. Seria esse o tema da conversa durante o almoço. Tem desejo que dura a vida inteira e acontece de teimoso. O desejo dela era um bom exemplo.

Dias depois foi conferir o resultado do seu jogo. Tinha para si que no dia que ganhasse não gastaria um único centavo. Manteria em segredo a sorte grande por todos os motivos. Passaria, pelo menos, trinta dias pensando no que iria fazer. Decidiu que: primeiro, um planejamento financeiro para toda vida; segundo, cuidar da saúde; terceiro, ele não tinha a menor ideia.

Pensando que mais uma vez que o premio havia acumulado, foi conferir. Dava para ver de longe que não, no cartaz da lotérica. Quando chegou perto viu seus números lá. Sentiu-se estranho como se atingido por algo ruim. Foi para o bar ao lado e deixou-se cair numa banqueta junto ao balcão.

─ O que vai ser?

Perguntou o chinês. Ele pediu uma garrafinha de água mineral. Havia um vazio em sua mente que só lhe permitiu dizer baixinho:

─ Então era verdade.

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13 thoughts on “Era Verdade

  1. Pingback: Ver! | Blog | Era Verdade

  2. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Legal, Ivani Medina.
    A vida não mudaria por um acidente de sorte, principalmente para ele que só admitiria a sorte grande, mas a distração descuidada foi saudável, já que a lógica, apenas ela, obedece apenas à história do homem e, realmente é muito chata, pois a vida não passa da aleatoridade do caos organizado.

  3. Rsss ah quisera eu chegar até lotérica e ver meus números lá… só falta-me jogar rsss…
    O nosso rapaz era uma pessoa insatisfeita, não é mesmo? Desejava obter coisas somente quando o dinheiro era curto e, quando o dinheiro chegava em suas mãos,
    perdia o interesse. Nem ele sabia o que queria de fato, uma pessoa vazia. Penso que ele não vivia, apenas sobrevivia dia após dia.
    Abraços.

    Sandra

  4. Sergio
    No princípio era o caos e continua sendo. Felizmente, algum entendimento foi possível tirara disso. A sorte existe.
    Forte abraço.

  5. Sanfran
    A insatisfação não é exceção, é a regra entre nós mortais. Nem todas as satisfações o dinheiro supre. Não foi feito para isso. Obrigado pelo comentário.
    Abraços.

    • Sem dúvida! A insatisfação faz parte de todos nós. E, sem dúvida, nem tudo o dinheiro supre! Mas, não me referi somente a dinheiro, talvez eu não tenha me explicado bem: me parece que no caso do rapaz do conto, qualquer coisa deixa de ter valor. Pode desejar aquela mulher que está nos braços de outro, “amá-la” durante anos e, quando ela terminar o relacionamento e resolver lhe dar bola, ele perderá o interesse por ela. Ou poderá desejar fazer uma viagem dos sonhos e, ao fazê-la, perceberá que o lugar não tem aquele mesmo encanto que ele imaginava. Passa-me a ideia de alguém cujos desejos deixam de ter valor caso ele os consiga realizar, aí fica o vazio, um grande vazio. É como se sempre faltasse alguma coisa.
      Desculpe-me se a ideia não é essa, de repente o moço apenas não encontrou aquilo que realmente tenha peso em sua vida, mas foi assim que eu o imaginei.

      Sandra

  6. Sandra
    A interpretação é a viagem de quem lê e o conto de quem o escreve rsrsrs Isso é um grande barato. Agradeço que tenha estendido o assunto.
    Acho que este conto está é mal escrito mesmo! Porque essa impressão lhe ficou forte, portanto o erro é meu. O rapaz do conto reconhece (reconheceria expressamente, se estivesse bem escrito) o valor das coisas como mais um do universo delas, não como o valor que ele busca. Existem necessidades que não são supridas por pessoas ou tudo que o dinheiro pode comprar. Aliás, a grande compensação de se ter muito dinheiro é poder viver sem pensar nele. Nossa vida gira em torno de ganhar dinheiro para atender as necessidades óbvias e incontornáveis. Quanto de vida perdemos assim? Ah, viver é isso? Eu penso que não. Tentamos viver a pesar disso. O personagem teve finalmente a sua chance.

    • Mal escrito? De modo algum!
      Alguns textos são óbvios e a interpretação é uma só, o que também não significa que estejam mal escritos. Já outros, creio que este seu é o caso, tem uma complexidade que leva à diferentes interpretações, já que a leitura partilha elementos comuns e distintos e não tem fronteiras.
      Às vezes, algumas informações que lemos não constam apenas num texto, mas elas se interam com as informações já existentes em nossa memória, daí lembramos de algo ou alguém e acabamos fazendo nossa interpretação. O erro neste caso é do leitor!
      Ou… talvez… tenha sido o cálice de vinho que bebi minutos antes de ler o conto rss. Mas, fique tranquilo! Este é mais um excelente conto teu. Você, ao escrevê-lo, pensou em certas particularidades e eu, ao lê-lo, pensei noutras.
      Boa noite!

      Sandra

      • Sandra
        Pode até não parecer, no entanto, a minha frustração não irei ocultar com desculpas esfarrapadas. Quando não consigo transmitir o que eu estava pensando (tenho o defeito de imaginar que o que está óbvio pra mim está para todos) é porque escrevi mal. Nem se preocupe em me consolar, agora não tem mais jeito! rsrsrsrs A sua ultima frase resume bem tudo: pra mim é obrigação de quem conta zelar pelo que quer dizer, e não dividir essa responsabilidade com o leitor. A interpretação é livre, a escrita não.
        Obrigado e adorei esse papo.

  7. nossa! adorei o texto que com simplicidade e inteligência soube abordar um contexto muito comum entre as pessoas que vivem na mesmice do dia-a-dia….abçs…estou compartilhando com twitter, facebook e g+

  8. Ana Lucia

    Muito obrigado pelo seu simpático comentário.
    Abraços.

  9. Olá Ivani, como estás? Ouve momentos na minha vida em que persegui, forcei, usurpei um objectivo. A minha juventude teve destas coisas. Noutras alturas, como que por uma estranha articulação no caos, algo se materializou à minha frente. Algo que, por vezes, não sabia que procurava e sequer imaginava que pudesse existir. A minha obtusidade teve destas coisas. Adorei o conto. Um abraço.

  10. José

    Tua presença é sempre apreciada pelos teus comentários penetrantes. As interpretações dos símbolos pessoais nunca abrem mão do tempo. Muito obrigado e um forte abraço.

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