Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Sons no Passeio

Art by Vladimir Kush

Por Luísa L.

Os saltos das minhas botas ecoavam na calçada, ao voltar para casa. Mas só eu os ouvia. Num passo lento e bem marcado, caminhava ligeira, no meio dos outros seres que iam e vinham. Observei-os atentamente. Estavam próximos de mim, mas soavam longínquos e fantasmagóricos. Cada um mergulhado no seu próprio mundo de lua negra. Lábios que sorriam para o nada. Sobrolhos franzidos. Rostos ansiosos. Orgulhosos. Impenetráveis. Libidinosos. Tristonhos. Alienados. Dedos ágeis que escreviam sms’s e aguardavam a resposta com urgência. Olhos baços, que refletiam lágrimas na garganta. Rostos expressivos, que cantavam canções surdas, ao ritmo privado duns phones.

– A senhora está triste? – perguntei a uma mulher de olhos resplandecentes de alegria falsa.

– Por acaso estou…estou muito triste. Mas como é que sabe? Os meus olhos estão risonhos!…

– Tenho uma varinha…

– De condão?

– Sem condão, mas é uma varinha muito bonita. – Respondi. – Já está menos triste agora? – Perguntei esboçando o meu melhor sorriso para ocasiões formalmente informais.

– Nem por isso. Uma varinha não me trás felicidade. Nem conversa de chacha. Do que eu precisava era dum milagre.

– Ah… isso não tenho. – Disse eu desgostosa. – Já experimentou rezar? Dizem que quem reza, pede, e que quem pede, tem. Pode ser que resulte.

– Balelas. Já experimentei de tudo. Até acendi velas, rezei a todos os anjos e santos, e até à Nossa Senhora de Fátima. Nada.

– Pois… é natural. Se calhar também perderam o condão da varinha deles. – Respondi, só para não ficar calada.

– Adeus… – disse a mulher dos olhos brilhantes-de-alegria-falsa. – Sem condão na varinha, nem a senhora me pode valer. – E lá foi ela no seu passo pesado, arrastando aquela enorme tristeza, que lhe pesava toneladas na sola dos sapatos grossos.

– Boa tarde, o  senhor está feliz? – Perguntei a um homem com um ar sorridente e encantador.

– Não! Claro que não!… – Respondeu com um sorriso luminoso.

– Ah, pensei. – Respondi, amedrontada com a violência das suas palavras. – Como parece tão satisfeito, assim, como se tudo lhe corresse bem ao mesmo tempo…

– Sou muito reservado. Gosto da minha privacidade… mas, está a fazer algum inquérito?

– Não, é só curiosidade.

– Pois, não devia estar a fazer-me perder tempo, com… com essa curiosidade doentia. E tempo é dinheiro. E dinheiro é uma preocupação. Ainda tenho muitas preocupações marginais para viver, antes de chegar ao trabalho. Adeus. – E lá foi o homem, no seu passo largo e ritmado olhando para o mundo com um ar de sincera felicidade.

– Olá! – Arrisquei com um jovem encapuçado, que escrevia freneticamente num telemóvel.

– Tasss…

– Pareces ansioso… estás?

– Yah…

– Estás apaixonado?

– Yaaah…

– Muito?

– Yaaaaaaah…

– Vais para a escola?

– Yah…

– Nervoso com o encontro?

– Yah, Yah…

– Preocupado?

– Ná…

– Ainda bem… então, adeus!

– Tasss…

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19 thoughts on “Sons no Passeio

  1. Pingback: Ver! | Blog | Sons no Passeio

  2. Luísa
    Neste teu bem sucedido arranjo geral das impossibilidades humanas, com o teu melhor sorriso para ocasiões formalmente informais, dizes luísamente daquilo que pouco se fala.
    Parabéns.

  3. Interessante, Luisa, numa cidade grande onde vivo, é difícil passar sem ser apressadamente. As pessoas ficam num ir e vir exasperado e sequer notam uma a outra. Enquanto andam pelas ruas, estão pensando naquilo que tem que fazer ao chegar no trabalho ou em casa e já planejam os próximos passos rsss.
    Claro que, em algumas vezes, estamos mais tranquilos e aí dá pra notar os semblantes das pessoas, talvez quando estamos sentados num banco de metrô, numa fila de banco ou, quem sabe, numa praça. Já vi pessoas chorando, sorrindo, conversando e confesso que pensei como devia ser a vida delas, cada uma com seus problemas, anseios, sonhos realizados ou frustrados, perdas e vitórias e por aí a fora… Depois retomei meus passos apressados e furtivos e, minutos depois, já nem me lembrava mais delas. É a vida!
    Gostei bastante, beijos.

    Sandra

    • Como sempre colocastes na narrativa o retrato da vida urbana, como sempre, com maestria e poesia.

    • Sandra, a verdade, verdadinha, é que os problemas das pessoas anónimas, são os nossos problemas, mais coisa menos coisa. A nossa posição relativa ao observá-los é que é diferente. Fazemo-lo de fora, por isso nos esquecemos deles… como dizes, é a vida, é a nossa qualidade de seres humanos a funcionar!

      Obrigadão pelo teu comentário e um grande beijinho!

  4. Valéria on said:

    Olá minha amiga… é incrível não é, a quantidade de pessoas que tenta mostrar nos olhos o que não lhes vai na alma… e mais incrível ainda é como as escolhem gostar de ser tristes….
    Beijo no coração

    • Valéria, por incrível que pareça, eu penso que a nossa propensão, enquanto seres humanos, para a fatalidade é simplesmente… fatal! rsrs

      Às vezes pergunto-me se as sociedades já foram diferentes, ou se é esta nossa que está tão envenenada que nos deixa cada vez mais tristes e pesados. Outras vezes pergunto-me se sou eu que ando a comer saladas demais!🙂

      Grande beijinho!

  5. Isso sim é curiosidade divina … ou não …

  6. As pessoas nunca estão satisfeitas com o simples estar, elas “querem” estar felizes. O jovem, por outro lado, não quer nada, sente-se apaixonado e por isso a vida acaba dando a ele um sentido maior por estar vivo.

    Beijinhos!

    • É isso Fábio, também acho! Quanto a nossa vida tem um sentido, mesmo alienados do mundo exterior, acabamos por ser mais felizes. O choque dá-se quando o mundo exterior nos toca!

      Beijinhos!

  7. Van on said:

    Que texto lindo e poético, Luisa!

    Gostei demais do “luisamente” do Medina, exprime tanto. Seu olhar leve para cruezas descreve-nas com beleza e suavidade que nem tanto as sente quem as carrega. Belo, belo e belo!

    Beijos

  8. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Para um bom astrônomo de vidas é preciso amor e paz, além da curiosidade, para se enxergar e alcançar outro universo, além do que vivemos.
    Os outros universos também precisam dessa mesma paz infinita, sem a contumaz barreira impenetrável de asteroides do medo.

  9. Ah, Sérgio, mas os asteróides são assim uma espécie de Sol, que quando nasce é para todos, eles orbitam em todos nós. Penso que o amor e paz possam ter influência no modo como cada um de nós os finta, mas a grande maioria das vezes é preciso aprender a fintá-los para se conseguir um caminho mais harmonioso.

    Muito obrigada pela tua leitura e comentário!

  10. Luísa, tenho que rir!
    quando eu ando de salto, espero não parecer um elefante, porque todo mundo deve ouvir os meus passos – tec tec tec tec e não estou tao leve assim, entao como é o som dos passos de uma elefanta?!

    eu acho que a andarilha tagarela de saltos sonoros, esta que ousou falar de minha varinha mágica, estava fazendo alguma pegadinha com as pessoas nas ruas! de qq maneira sempre é bom conversar!

    e euzinha, acho que nasci com um cartaz na testa: INFORME-SE AQUI!

    BEIJOS

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