Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Numa Festa de São João

Fogueira de S. João

Por Ivani Medina

Estavam na primeira metade da década dos vinte anos de idade, bem antes de virarem a curva para os trinta. Os hormônios explodiam como fogos de festa junina no maravilhoso céu estrelado da juventude. Foi tudo como naquela música de Noel Rosa:

“Nosso amor que eu não esqueço/ e que teve o seu começo/ numa festa de São João”.

Amor que demorou a se apagar, como a fogueira daquela festa numa daquelas noites frias de meio de ano, no Clube dos Professores, em Jacarepaguá. Eram concorridas as festas do tipo em clubes campestres naquela época. Mas eles não se conheceram lá.

Moravam na zona Norte, no mesmo prédio e ele tinha um tesão abissal por ela, que namorava um cara de um bairro da zona Sul da cidade. Ela era amiga das suas irmãs e estava sempre em sua casa para a sua felicidade absoluta. Uma amizade cheia de segundas intenções, certamente, os unia numa cumplicidade surda e muda. Ele sempre cantando e tentando alguma ação libidinosa e ela fingindo reagir numa falsidade deliciosa. Ethel gostava do amigo e da brincadeira, mas parecia e se dizia apaixonada pelo namorado porque nunca cedia.

Um dia, Firmino veio saber que o namoro da amiga havia acabado. Deu saltos de alegria, mas teve que se conter, pois ela estava mesmo triste. Ao invés de bancar o consolador, preferiu evitar as antigas brincadeiras na esperança de ela mesma reclamasse por elas de alguma maneira. Nada acontecia, até que no mês seguinte um dos amigos da turma surgiu com a notícia da festa caipira em Jacarepaguá. Foram todos em três automóveis, ela foi no dele.

Aos olhos e ao coração de Firmino, Ethel estava maravilhosamente encantadora. Descontraídos por alguma bebida lá estavam os dois sacanas de sempre rindo de se esbaldarem. Até que num daqueles momentos de trégua, se olharam sérios e ele abriu o jogo.

─ Quero você de verdade.

─ Ah, mas somos bons amigos. Será que não vamos botar em risco algo tão bom para nós?

─ Só dá pra saber fazendo.

─ Ah, tentação!

Disse ela fingindo dúvida como de hábito. Veio um silencio e depois o beijo demorado com anos de atraso. Assim começou o namoro deles numa festa de São João. Um era o fogo e o outro a gasolina. Aquele céu iluminado pelo folguedo hormonal durou por dois anos intensos. A mãe de Ethel gostava mais do antigo namorado da filha e passou a convidá-lo para almoçar lá, num acintoso desprestígio a Firmino. Queria que a filha reatasse o namoro provocando assim uma perigosa divisão no sentimento da moça. Firmino morria de ódio, mas tinha que se conter nas críticas. Estava loucamente apaixonado por Ethel e naquele instante o quadro se invertia.

A Ethel acabou engravidando sem saber de quem. A mãe dela chamou Firmino para uma conversa melodramática dizendo que ele havia destruído as melhores esperanças da sua vida. Ele se defendeu à altura e com argumentos que ela não esperava. Acabou arrependida daquela conversa idiota. A família dele tinha boa situação financeira e ela pretendia, no mínimo, o dinheiro do aborto, mas não conseguiu nada. O namoro estava rompido pelas circunstâncias e não pelos dois.

O ex-namorado tornou-se solícito e frequente na casa delas. Meses depois, Firmino e ela se cruzaram no corredor do edifício e não resistiram. Voltaram a se encontrar escondidos. Ethel passou a sair também com o chefe do trabalho. Estava com os três. Certo dia, Firmino soube que ela ia se casar com o ex-namorado da história confusa. Para Firmino e Ethel aquela festa de São João terminava ali, quatro anos depois. Não se sabe por que, mas a mãe dela estava muito feliz.

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13 thoughts on “Numa Festa de São João

  1. Pingback: Ver! | Blog | Numa Festa de São João

  2. Mais uma vez seus contos nos levam a uma viagem ao passado, muito obrigado caro amigo !
    Ps: Lembrei-me das festas de São João no Retiro dos artistas, lá mesmo em Jacarepaguá

  3. Cecilia on said:

    Ei Luisa e Ivani

    Bom dia

    O que poderia ser um grande e verdadeiro romance foi interrompido pelo controle de uma mãe que desconhecia quem realmente era a própria filha…A felicidade da Mãe no final inspira dever cumprido..

    Beijos

  4. Obrigado Antonio. Nossa memória é o nosso patrimônio.
    Forte abraço.

  5. Cecília

    Essa mãe representa a satisfação com a própria ignorância, a felicidade de barro.
    Forte abraço e muito obrigado.

  6. No São João todos os namorados saltavam as fogueiras e eram abençoados pelo santo. Inexplicavelmente no caso desse casalinho não resultou! O pobre do santo não teve estaleca para uma mãe daquelas! rsrsrsrs

  7. Perdão, digo: Luísa.

  8. Eu me lembro na época em que era criança de uns 12 anos, meus pais e os vizinhos se reuniam e faziam fogueiras nas noites frias de São João, cada um levava um prato diferente: pipoca, bolo de milho, quentão, vinho-quente, entre outras delícias regionais. Ai que saudade dessa época!! Depois, com o passar do tempo, fui a uma ou outra quermesse, mas sem aquele encanto de outrora…
    Bem, quanto ao conto, o casal viveu intensamente a paixão que acabou porque tinha que acabar, se estivesse no destino deles estarem juntos, nem a mãe de Ethel os separaria rs. Por outro lado, penso que pra Firmino foi melhor assim, certamente ele encontraria outra pessoa melhor, pois a moça não sabia quem era o pai da criança e ainda se envolveu com três ao mesmo tempo? Rsss aff, não merecia seu amor.

    Sandra F.

  9. Sanfran

    Tão bom quanto escrever é ler os comentários.Este seu está ótimo rsrsrsrs

    Muito obrigado e um forte abraço.

  10. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Há paixões e amores.
    As paixões são como a fogueira de São João, que, a uma determinada hora vira braseiro, depois fumaça e acaba fria no sereno.
    Se nesse início de romance aparece a personagem mãe ambiciosa, mais cafetina do que mãe, a fogueira vira poça d’água, naquela noite em que todas as estrelas caem em forma de chuva, sobre um desejo sincero, quiçá, num futuro amor. Ou a mãe vira imediatamente sogra…

  11. Sergio,
    muito bom o seu comentário rsrsrsrs. Foi mesmo uma fogueira que ardeu entre os dois. As belezas possíveis em algum momento da vida chegam a parecer irreais.
    Muito obrigado e um forte abraço.

  12. C. C. RIBEIRO on said:

    NA LITERATURA BRASILEIRA, AS FESTAS JUNINAS, MORMENTE SÃO JOÃO, SÃO TEMAS FREQUENTES E SEMPRE RENDEM ÓTIMAS HISTÓRIAS, COMO ESSA QUE ACABAMOS DE LER. O PROFESSOR BERNARDO ÉLIS, DE GOIÁS, AUTOR DE UM MONUMENTAL ROMANCE CHAMADO “O TRONCO” TAMBÉM DESENVOLVEU ESSE TEMA DE FORMA MAGISTRAL. SERIA ÓTIMO EXERCÍCIO DE LITERATURA COMPARADA LER OS DOIS CONTOS. O PRIMEIRO VERSANDO SOBRE O SÃO JOÃO NO SERTÃO DE ANTIGAMENTE, ESTE TRATANDO DO TEMA NA CIDADE, MODERNAMENTE. LEIAM E ME DIGAM O QUE ACHAM.

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