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Quando a Saudade vem lhe Visitar

Saudade

Por António Macedo

Existem dias em que um sentimento indefinido começa sorrateiramente a tomar conta de seus pensamentos, há no início uma certa sensação de desconforto, para mais adiante, com a certeza da subjetividade do tal sentimento, a pessoa começar a identificar o que sente. É ela, a saudade, que não avisa com antecedência de sua chegada, e muito menos bate a porta pedindo licença para entrar, simplesmente chega e se instala, como velha amiga em visita inesperada, por se saber  desejada, e na maioria infinita das vezes, ansiosamente aguardada.

Foi assim que aconteceu com Beatriz, quase que instantaneamente percebeu o que ela se aproximava, e sem outra alternativa viável para com ela lidar, entregou-se em seus braços, para reviver os momentos que lhe eram requeridos. Poderia rebuscar nos velhos álbuns de fotografias, os registros amarelados pelo tempo, que retratavam pessoas queridas que já tinham partido, pessoas amadas e perdidas pelo tempo, viagens inesquecíveis e uma enorme quantidade de fragmentos de momentos felizes de  seu passado, ali congelados e disponíveis para novamente serem revividos, renovados pelas  cores da lembrança. Mas, não o fez.

Beatriz poderia ouvir as  velhas canções que emolduraram estes mesmos momentos e que traziam de imediato as recordações que a ajudariam a mitigar a sensação que a saudade imperiosamente reclamava. Ela não era diferente de outras pessoas que dispunham de uma trilha sonora construída pelas emoções de seus momentos. Quando ouvia uma canção que fizera parte de sua estória, sabia identificar o preciso instante de sua primeira audição e a quais eventos estava intimamente ligada, e é claro de seus significados. Mas, não o fez.

Beatriz, decidiu-se por sentar na poltrona, em pleno exercício de solidão consentida, prontificando-se a vivenciar aqueles momentos que lhe eram reclamados, sem a utilização de outros recursos que não apenas de suas lembranças, em quietude rememorou as pessoas amadas que fizeram parte integrante de sua vida, seus amores, suas amizades e as suas alegrias, desta vez não lhe era cobrada a lembrança das tristezas, a saudade chegara ordenando apenas reviver os tempos amorosos, como que, também extremamente necessitada do afago de antigos e conhecidos carinhos. Aos poucos Beatriz refez a construção do ser em que se transformara, e da importância que aquelas passagens tiveram no resultado. Lentamente, começou a surgir um esboço de sorriso em seus lábios, que se formava pela agradável certeza de que fizera o que lhe parecera o certo, até quando flagrantemente errara, e pela ousadia que havia demonstrado em diversas passagens, que agora, claramente percebia, não eram rebeldia e sim, a vontade de ser feliz.  Levantou-se, justificada e agradecida pela visita inesperada e bem-vinda de sua companheira de tantos anos. Renovada para enfrentar o que o que a vida lhe trouxesse, tudo o que tivesse direito, de bom e de nem tanto,  não importaria, estaria preparada e receptiva a vivenciar novos momentos, e quem sabe novos amores, e ficaria no aguardo, para quando a saudade viesse novamente lhe visitar.

    

 

 

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6 thoughts on “Quando a Saudade vem lhe Visitar

  1. Antonio

    Uma história delicada a retratar o sentimento de ausência de alguém ou de algo que é caro ao coração da gente. Você sublinha com esmerada leveza a realidade de que, no fundo, somos um só. Parabéns por mais este conto.
    Forte abraço.

  2. Saudade…
    Esse sentimento tão singular e próprio dos brasileiros, para expressar tantas emoções.
    E quando ela nos vier nos visitar, devemos simplesmente, deixá-la entrar…
    Belo conto.
    Um abraço Antonio.
    Luisa, parabéns pelo blog.
    Aposta acerta! rsrs

    • Olá Antonio e Luiza
      Um conto que reproduz sentimentos muito comuns e de tão fácil identificação, não há como você não fazer como Beatriz, fazer o mesmo enquanto lemos sua narrativa de emoções e sensações!
      Que bom que ele conseguiu reconciliar-se com o seu passado!
      abraços!

  3. Ah a saudade…
    É preciso saber lidar com ela, pode ser dolorosa, fazer sofrer quando ainda mantemos o elo com o passado, mas um elo que não poderia mais existir. O tempo avança e precisa seguir em frente realmente.
    Existe também aquela saudade gostosa que nos faz sorrir ou até chorar, mas de felicidade por trazer à memória lembranças de um tempo engraçado ou simplesmente bom, de pessoas legais, inesquecíveis e de coisas que fizemos, lugares onde estivemos, época em que vivemos, sei lá…
    Eu sou assim, saudosista e entendo muito bem os dois tipos de saudades rss.
    Que bom que a Beatriz soube lidar com isso muito bem…

  4. letitiamorgan on said:

    A saudade pode ser um sentimento muito bom!
    Só é mau quando sentimos saudades “do que poderia ter sido”, porque isso é sofrer por algo que não existiu ou já não existe.

  5. Antonio, raramente sinto falta de coisas que tive na vida, mas de algumas pessoas especiais, sinto sim. E às vezes a saudade vem assim mesmo, sem avisar e traz junto um certo inconformismo. Logo, contudo, se acalma e se transforma em nostalgia, como eu a chamo quando apenas se faz de lembranças do que foi bom. E assim, prefiro ficar com este último sentimento que tão bem descreveu aqui. Abraço, e bom final de semana!

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