Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

A Armadilha

Gambá

Por Ivani Medina

Volta e meia a criançada batia a porta pedindo para pegar frutas no quintal. De início ele não se importava até que resolveu seguir o conselho de um vizinho mais experimentado:

─ Quando eles vierem pedir para pegar frutas no seu quintal não deixe não. Eles começam com as frutas. Depois vêm os maiores sabendo os detalhes da casa e das posses do morador. Bandido também aparece por aqui. Cuidado.

As duas lâmpadas da frente da casa estavam acesas, mas a dos fundos havia queimado naquele dia e ele teve preguiça de trocá-la. A escuridão na parte de cima do terreno seria mais intimidadora não fosse um tanto de claridade do lampião que vinha lá de baixo, da rua. No quintal arborizado e silencioso, um ruído estranho chamou-lhe atenção naquela noite em que todos já dormiam. O cão estava internado na veterinária devido uma cirurgia. Todos os sons noturnos daquele lugar estavam catalogados na sua memória havia anos. Permaneceu deitado e imóvel na expectativa de mais algum. O sussurro distante de vozes confirmou a suspeita e um calafrio arrepiou-lhe a nuca.

Levantou-se com cuidado, pegou o trinta e oito e destrancou a porta sem ruído algum. Em seguida ouviu o baque surdo de alguém pulando para o quintal. Rapidamente despiu a camiseta branca e, com ela, tentou abafar o “click” do cão da arma sendo engatilhada. Seguidamente atirou a camiseta para dentro da casa e subiu o terreno com agilidade. Depois que a visão se acostuma, percebe-se que a escuridão nunca é absoluta. De roupa clara ele seria um alvo fácil para outro atirador a curta distância. O elemento surpresa é fundamental. Presume-se que quem invade uma residência está preparado para isso. Quem errar morre.

Viu o anuncio da arma numa revista da qual era assinante, anos antes da lei do desarmamento. Um grande magazine vendia a falsa segurança que ele não quis abrir mão. Em caso de necessidade, optou por ter que se lamentar por ter tido uma arma a mão, do que o contrário. Afinal, a família precisava ser protegida e histórias atemorizantes ele conhecia muitas. Comprou uma caixa com cinquenta munições e foi treinar num stand de tiro de um clube. Depois das primeiras instruções vieram as primeiras congratulações do instrutor. Ele havia conseguido fazer grupamentos, isto é, perfurações no alvo próximas umas das outras. Isso elimina aquela possibilidade de sorte de iniciante. Tinha jeito para o tiro. Havia se testado também naquele quintal, com alvos pequenos a trinta metros, e obteve resultados satisfatórios. Mas, treino é treino, jogo é jogo. Ainda mais quando envolve a própria vida e a de terceiros.

Mesmo com a adrenalina lá encima ele conseguia pensar sem dificuldade. Vozes significava que se tratava de invasores. Lembrou-se então que por motivo de segurança ou para evitar acidentes, havia retirado os projéteis de duas das seis munições da arma e os substituiu por buchas de papelão, para tiros de advertência. A sorte estava lançada.

Contornou a lateral da casa de ferramentas, no fundo do terreno, até o muro e ainda ouviu murmúrios sem identificar o tipo de voz. Fez o primeiro disparo. Os invasores foram pegos de surpresa e pela confusão na fuga estabanada percebeu que eram jovens. O pânico deles foi tamanho que ao invés de descerem a servidão íngreme que ladeava o muro, subiram-na. O atirador manteve a posição no mais absoluto silêncio. Esperou pacientemente até que percebeu passos cautelosos do outro lado do muro.

─ Será que ele já foi?

Algum deles perguntou baixinho com a voz medrosa. Sorrateiramente, passavam abaixados em direção à rua. Quando ele percebeu que eles estavam pouco além da direção da casa, disparou o último festim. Os moleques se atropelaram desesperados e não pararam de correr mesmo depois que atingirem a rua. Só depois ele ficou sabendo que armadilha para pegar gambá, ali, eles não pensam botar mais.

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13 thoughts on “A Armadilha

  1. Pingback: Ver! | Blog | A Armadilha

  2. joselitobortolotto on said:

    O pensamento voa …..

  3. Gostei muito do conto. Cria uma atmosfera de suspense bem bacana. Parabéns.
    Se puder, visite meu blog para dar opiniões.
    Abraços,
    Camila Capps
    http://apinturadaspalavras.wordpress.com/

  4. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    A arma é como o extintor de incêncio; preferível não ter que usá-la.
    A cada dia, aquele que ainda conserva um terreno com pomar de frutas está mais fadado a se encarcerar em um apartamento feito em seu terreno por uma incorporadora, pois lá se vai bem longe a época dos ladrões de galinha e de frutas.
    Nesses tempos de novos vícios, acho até que gambás e perus já não são embebedados com uma simples cachacinha…

    Como sempre, seus escritos atraem e surpreendem, parabéns.

  5. Ivani, o teu excelente conto fez-me lembrar o dono dum pomar que era meu inimigo de estimação, aliás inimigo de todas as crianças apreciadoras de laranjas e tangerinas alheias! Mas esse usava um serra da estrela (é um cão) rsrsrsr

  6. Olá Pessoal!
    Eu adoro contos de mistério rurais, ainda por cima com essa confusão que as pessoas fazem por causa do medo, esse eterno vilão que confunde nossa cabeça e faz a gente viajar ao longe, fazendo a gente confundir coelhos com lobos..
    abração!

  7. Joselito

    Muitíssimo obrigado por mais esta participação.
    Forte abraço

  8. Camila

    Obrigado pela sua visita e acatamento. Apareça sempre.
    Forte abraço.

  9. Sergio

    Muito obrigado por nos prestigiar assiduamente. Seus comentários estão se tornando uma atração a parte aqui no Só Contos.
    Forte abraço.

  10. Luísa

    Obrigado pelo excelente, inclusive. Serra da Estrela é também a terra do bom queijinho. E, entre as delícias portuguesas, as tuas aventuras da infância são iguarias raras. Já as pedi, lembras?

    Forte abraço.

  11. Frank

    Que bom tê-lo aqui. Obrigado pelo seu comentário. É verdade que às vezes as projeções são mais assustadoras do que os “perigos” circundantes.

    Forte abraço.

  12. letitiamorgan on said:

    Penso que o sentir rondar, o sentirmo-nos de algum modo observados, cria em nós paixões e angústias de uma maneira geral exageradas. Felizmente esta história não acabou mal! rs

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