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O Doce de Batata-doce

Doce de batata doce

Por Ivani Medina

A espontaneidade de Lívia ganhou contornos estranhos quando chegou a hora das mudanças de menina para moça. Na medida em que ao seu corpo se acrescentavam as belezas de mulher, ela ia se tornando incontrolável. Geralmente as mocinhas sentem um pouco de vergonha com essas transformações, mas com Lívia foi exatamente o contrário. Chegou a tirar o vestido e deu um show nua de cima do muro. Seus pais ficavam de cabelo em pé sem saber o que fazer. Parecia que provocava os homens só para se divertir. Mas ai daquele que ousasse tocá-la. Transformava-se numa fera difícil de conter. Certa vez foi preciso três homens fortes para domá-la num surto.

O tratamento psiquiátrico não alcançava o sucesso esperado e Lívia prosseguia sua vida oscilando entre a jovem inteligentíssima nos estudos, que não precisava estudar como os demais. As aulas lhe bastavam, uma lidinha ou outra nos livros e vinham as notas máximas. A primeira aluna da turma, ás vezes, era a última em comportamento. No fundo, Lívia tinha um temperamento tranquilo, não implicava com ninguém, não debochava das pessoas, nem tratava mal a ninguém. A despeito das dificuldades psiquiátricas era impossível não se gostar dela.

Por sorte, um dia seus pais resolveram que ela precisava mudar de médico. Aí mudou tudo. Uma vida mais sossegada socorreu aquela família. Ela estava com vinte anos quando decidiu fazer um concurso público. Foi um sucesso nas provas, aprovada nos exames médicos e fez uma ótima entrevista. Lívia tornou-se a mais jovem fiscal de rendas do estado. Logo se mostrou também organizada e habilidosa com a renda pessoal. Aquele passado difícil havia ficado para trás. Fez muitas amizades entre os colegas de trabalho e nas primeiras férias, juntamente com outras duas colegas, recebeu um convite da sua chefe para passar um final de semana na fazenda de uma tia dela, no interior de Minas Gerais. Elas formavam um time forte que sempre recebia elogios dos superiores.

O lugar era um sonho. Tudo o que se pode desejar para um agradável, divertido e repousante fim de semana, lá, havia de sobra. Dona Norminha, a anfitriã, era simpatia e boa de conversa como todo mineiro é. Cozinheira e quituteira de mão cheia gozava de prestígio pelos seus dotes culinário naquela região. Só tinha um probleminha: dona Norminha exagerava no agrado às visitas. No início era engraçado, mas com a continuidade passou a incomodar. Na hora do almoço a grande mesa do salão estava linda, ornamentada com flores como em foto de revista. O mobiliário tradicional de fazendas, em impecável estado sobre um chão lustroso, compunha uma decoração primorosa.

A atenção especial da dona da casa para com Lívia, a estava constrangendo e mexendo perigosamente com seus diabinhos adormecidos. Não se contendo foi conversar com a chefe sobre o delicado incômodo.

─ Olha, desculpe-me, mas, por favor, diga a sua tia que estou muito bem e feliz com a recepção carinhosa dela. Só que ela não precisa se preocupar tanto conosco.  Já somos grandinhas… né?

Complementou a queixa com um sorriso burlesco, mas respeitoso.

─ Hahaha. Você está certa, Lívia. Titia peca pelo exagero em tudo. Essa mania dela ao invés de trazer as pessoas para junto pode acabar por afastar. Peço desculpas por ela e por mim também. Tenho uma amiga que desistiu de voltar aqui por causa disso. Creio que o saldo positivo compense essa dificuldade contornável, não é mesmo? Fique tranquila que eu vou conversar com ela com jeitinho. Foi bom você ter falado.

Com seus botões, Lívia, disse a si mesma:

─ Ah, meu Deus, espero que sim.

Ocasionalmente se lembrava das estripulias da doença, as quais queria esquecer, mas era impossível. As colegas de trabalho sabiam que ela teve dificuldades com uma “doença nervosa” na adolescência, porém desconheciam os detalhes. Era uma pessoa absolutamente normal com as manias normais de todo mundo.

As travessas de comida sobre o aparador estavam mais do que convidativas e deliciosamente aromáticas, repletas de iguarias da afamada cozinha mineira. Dona Norminha toda orgulhosa, não parava de sorrir e explicar do que consistia cada prato. Uma verdadeira aula gourmet. O almoço foi um sucesso total e elas tagarelavam sem parar satisfeitas da vida e agradecidas pela oportunidade. A anfitriã, como a grande doceira que era, ofereceu sobremesas variadas antes do tradicional licor e do cafezinho. Sem falsa modéstia falou do seu carro chefe na arte doceira da região, quiçá em toda Minas Gerais: o doce de batata-doce. Segundo ela, este era especialíssimo, embora muito comum ninguém fazia igual ao dela.

Lívia ficou apreensiva, pois detestava doce de batata-doce. Pouco lhe importava que a dona Norminha achasse que o dela era diferente. Não o provaria de jeito nenhum. Quando a doceira orgulhosa colocou a sua frente uma tigelinha daquele detestável doce, ela só conseguiu retribuir com um sorriso amarelo.

─ Perdão querida, não quero ser indelicada, mas eu não gosto deste doce. Sou assim desde criança, sei lá.

─ Ah, Lívia querida, perdão peço eu. Você pode estar traumatizada por alguma receita infeliz. Certas lembranças da infância são para sempre ou até que um fato novo as substitua.

Disse sorrindo amistosamente a simpática dona Norminha. Com o olhar petrificado na tigelinha, Lívia não disse nada. Alguma coisa subia-lhe ao animo com aquela insistência.

─ Eu lhe garanto, Lívia. Pode provar que você vai me dar razão.

As atenções se voltaram para ela porque não havia em seu semblante nada que justificasse a inconveniência da dona da casa.

─ Ora, vamos lá. Uma colherinha só.

De cabeça inclinada na direção da tigelinha, Lívia levantou os olhos na direção da dona Norminha, meteu a colher no doce enchendo-a bem, e com sucessivos e rápidos movimentos esvaziou a tigela atirando doce nas paredes em toda direção, repetindo enfurecida:

─ Eu já disse que não gosto deste doce! Eu já disse que não gosto deste doce! Eu já disse que não gosto deste doce!

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15 thoughts on “O Doce de Batata-doce

  1. Pingback: Ver! | Blog | O Doce de Batata-doce

  2. Ivani, maravilhado com o toque “Rodriguiano” na sua narrativa impecável !
    Abraços

  3. Ahahaha, paciência tem hora e tem limite… mas, apesar disso, algo me diz que se a moça experimentasse o tal doce, ela gostaria rs.

  4. Tirou a garota do serio ,agora aguente…adorei….fuiiiiii

  5. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Parabéns, Ivani Medina.
    Aprendemos tanto a dizer “SIM” para tudo, que nos escudamos e vivemos a fantasia de agradar para sermos agradados, sem o perigo de nos entregarmos aos riscos do amor.
    Quem sabe, um pouco de descontrole emocional não nos deixasse mais soltos e aptos a dizer o “NÃO” bem grande, que, na verdade fosse o “SIM”, para os desafios de amar?
    Talvez dona Norminha nunca dissesse um “NÃO”, mas confiasse sua vida à perfeição dos seus doces, sem imaginar que apareceria Lívia, solta e sem noção de medos, e a surpreendesse ao buscar mais a franqueza desse amor do que a troca de agrados, mesmo que esse viesse do doce mais doce.

  6. Antonio, obrigado pelo “Rodriguiano” e por tudo.
    Forte abraço.

  7. Sanfran

    Sei não…rsrsrsrs. Obrigado pela simpatia.
    Forte abraço.

  8. Moreijo
    Obrigado mais uma vez plea sua presença espirituosa.
    Forte abraço.

  9. Sergio
    Obrigado pelo comentário penetrante de sempre.
    Forte abraço.

  10. Olá Ivani, boa tarde. Já me vou habituando às suas excepcionais personagens e narrativas. Um sincero abraço.

  11. Retada! A moça apelou feio demais! hahahahaha
    Eu teria dado um treco de tanto rir, se assistisse esta cena. Mineira como sou, conheço o jeito de ser das doceiras de plantão. Legal, gostei!

  12. Caro José
    Muito obrigado pela tua amabilidade.
    Forte abraço.

  13. Olá Valéria
    Teu comentário mineiro tem para mim um valor muito especial.
    Muito obrigado.

  14. O espírito dos cozinheiros é desesperadamente sensível! rsrs

  15. Obrigado Letitia, tens toda razão.

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