Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

O Portunhol

Portunhol

Por António Macedo

Ortega é argentino de nascimento, mas brasileiro de coração, casou-se com uma paulistana, é corintiano fanático, e adora viver em São Paulo, coisa que já o faz a mais de dezoito anos, considera a melhor cidade do mundo para se viver, tem um casal de filhos nascidos aqui, e a bem da verdade, fala um português perfeito, é claro que mantém algum sotaque, mas é leve, ocorre em alguns momentos na utilização da letra “r” e no som gutural que as vezes inflexiona nas palavras. É um apaixonado pelo Brasil, o único senão que faz é o incomodo que sente quando ao falar com alguém em português, esta lhe responde num arremedo de espanhol, o famoso portunhol. Acontecia com frequência em restaurantes, lojas e balcões de recepção de hotéis e de empresas de viagens aéreas. Por quê lhe incomodava ? porquê ele entendia português e espanhol, mas não o portunhol, as palavras que lhe eram ditas não eram de sua compreensão, ele simplesmente não sabia o que lhe estavam dizendo, reclamava com os amigos.

 – Inventam palavras que não tem significado algum, quer seja aqui ou lá.

Este era o único percalço na sua vida no Brasil. Passei um bom tempo sem ver o Ortega, quando nos encontramos novamente, após uns dois anos, decidimos almoçar juntos e colocar a conversa em dia, falamos a respeito de todos os assuntos que eram comuns aos dois, até que me lembrei do fato que lhes relatei acima , e perguntei ao mais brasileiro de todos os argentinos que conheço.

– E aí! Ortega, como é que andam as suas desavenças com o portunhol ?

 – Resolvi, caro António!

 – Como?

 – Quando começo a falar em português e a pessoa insiste em responder no que ela acredita ser o meu idioma, troco na mesma hora a próxima sentença para o “castelhano”

 – E o que acontece a partir daí ?

 – Ela para de falar e eu recomeço tudo de novo em português !

Disse isso rindo e saboreando uma legítima feijoada com todos os seus complementos, aliás o seu prato preferido pelos lados de cá.

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9 thoughts on “O Portunhol

  1. Pingback: Ver! | Blog | O Portunhol

  2. Muito boa essa, Antonio. Por aqui a solicitude chega ao ridículo, quando em outros países se não se fala o idioma local corretamente lhe viram a cara. Esses exageros brasucas incomodam a todos. Já vi misturarem italiano ao portunhol rsrsrsrs. Delícia de leitura. obrigado por mais este prazer.
    Forte abraço.

    • Ivani
      Esta crônica é real, existia o Ortega, faleceu há alguns anos, era uma cara excepcional, ele juntava a malícia portenha com jeitinho brasileiro, por isso ele figura na minha galeria de ” figuras inesquecíveis”

      Um forte abraço

  3. kkkkkkk .. realmente isto é fato …..

  4. “No puedo creder…” rssss.

    Falando sério, em muitos países, as pessoas não gostam que se fale errado a língua deles, aqui no Brasil, os estrangeiros erram a nossa e é aceito normalmente na maioria das vezes.. Por isso que eu, particularmente, embora acho ridículo o tal portunhol, não dou atenção. Mas, imagino que deve ser irritante pra quem conhece o idioma corretamente. Deve ser desagradável!
    Eu não falo espanhol, nada conheço da lingua, só italiano e inglês, mas também não falo “portunhol” ehehe.
    Engraçado o conto, eu ri! Só não gostei do Ortega ser corinthiano rs.
    Bom fim de semana!!

    Sandra

    • Joselito e Sanfran

      Vocês não tem ideia do sofrimento do Ortega, uma vez nós viajamos juntos para Salvador e a recepcionista do hotel, começou a falar um idioma que nem eu entendia, então o Ortega virou-se para mim com uma cara, que mesmo passado tantos anos jamais consegui esquecer.
      Abraços a ambos

  5. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Sábio, esse Ortega!
    O respeito à sua lingua mater acabou acontecendo por suas correções.
    Seria bom aprendizado para todos os que exploram outras línguas que em cada uma delas houvesse um Ortega para corrigi-los.

  6. É isso mesmo!
    Não existe coisa pior para que gosta do idioma espanhol, é ver alguém falando o portunhol, e ainda achar que sabe falar a língua perfeitamente. Uma esculhambação.
    Pobre Ortega…
    Tará que conviver com isso por muito tempo. Aliás, uma vida inteira.
    Falo corretamente.
    Nada a esnobar.
    Apenas o resultado das minhas andanças pelo continente americano, do sul.
    Um abraço Antonio.
    Gostei.

  7. Olá Antonio, boa tarde. Deliciosa história. Se o teu amigo, em vez de ter escolhido
    o teu país para viver, optasse pelo meu, também não seria poupado a este triste
    fenómeno. É normal, em restaurantes ou em hotéis, este tipo de acontecimento.
    Um amigo, no caso Belga, deu-se a grande trabalho e esforço para aprender esta
    nossa língua, atingiu um domínio perfeito mas nunca conseguiu esconder o
    sotaque que lhe vinha do francês. É um sotaque reconhecível em qualquer lado.
    Pois bem, ele pedia algo em português e a resposta chegava-lhe em francês.
    “Para isto não valia a pena, mas porque é que vocês fazem estas coisas? Ninguém
    mais o faz.” Obrigado por este texto, Antonio. Um abraço.

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