Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Acidente da Razão

Cirurgia

Por Ivani Medina

Para ele a existência humana nada tinha a ver com o surgimento da vida no planeta, como muitos costumam relacionar. Proto-humanos já existiam. Tal surgimento teria sido muito posterior, mas muito mesmo. Fruto de um acidente da razão de quem respondesse por este surgimento. Entendia que, na falta de melhores, as histórias sumerianas eram as que mais sentido faziam diante da realidade contemporânea. E, na sua visão particular, fariam cada vez mais. O avanço científico e tecnológico era para ele uma evidencia poderosa.

O tanto de mentiras que sempre se inventou para dar sentido à vida, corroborava com a ideia de que na história da origem da espécie humana haveria nada de bonito que pudesse servir de exemplo e estímulo a sua própria continuidade. Entenda-se a religião como o melhor exemplo dessa tentativa, pensava ele. Seria um engano entende-la apenas como forma de domínio, justamente pela resposta que encontra nas profundezas humanas. Tudo tão evidente e aberrante como uma multidão “escondida” atrás de um poste. O entendimento prevalecente propõe que se todos se sentem melhor enganados, que se os engane ainda mais.

Eram os pensamentos que lhe passavam olhando o crucifixo na parede do quarto do hospital Santa Tereza, em Petrópolis. Nunca tinha quebrado um braço, perna ou coisa alguma. A única vez que se viu naquela expectativa foi na adolescência, para extrair um furúnculo ou algo parecido na perna direita pouco acima do joelho. A pequena cirurgia foi feita a sangue frio porque anestesia não pegava, de tão inflamado que o local se encontrava. Mas dessa vez se estava tranquilo, sabia que não ia doer e nada havia a temer.

A façanha de carregar uma mochila muito pesada deu-lhe de presente uma hérnia inguinal. Percebeu-a durante o banho. Na semana seguinte, ao examiná-lo, o médico disse apenas:

─ Vamos operar isto.

Daí, lá estava ele aguardando o enfermeiro para ser depilado.  Algumas bobagens passam pelo pensamento, como se outro “eu” o estivesse a provocar para se divertir um pouco com a situação e com seus medos ocultos. “E se algo der errado?” Uma espécie de sadismo profundo a testar suas convicções intelectuais.  A freira responsável pelo andar bateu a porta e ele disse que entrasse. Com um sorriso simpático indagou:

─ Então, tudo bem com o senhor? A sua cirurgia é muito simples e amanhã mesmo terá alta. Vai jantar em casa.

─ Sim, obrigado. Ah, por mais bem tratados que sejamos hospital nunca deixa saudades.

Ela gostou da piada e se despediu pedindo licença, pois tinha outros internos a visitar antes de entregar o plantão.  Passados alguns instantes chegou o enfermeiro e a depilação começou.

A opção pela vida religiosa sempre foi um mistério para ele. O destino da generalização é o erro. Evidentemente, essa escolha estaria relacionada também a possibilidade de se viver conscientemente a parte do destino humano. Não dar continuidade a própria espécie, sem chocá-la com os verdadeiros motivos da negação, pode ser uma forma branda e admissível de algumas pessoas seguirem seus caminhos. Ele lembrou-se de um livro que havia lido que falava num tal de George Ivanovitch Gurdjieff, um líder espiritual que fez sucesso na Europa em 1923, porque queria acrescentar o espírito místico do Oriente ao espírito científico do Ocidente, achava a verdade difícil de ser digerida e criou obstáculos para quem quer que deseje descobri-la.

Havia naquilo tudo uma questão fundamental a ser respondida, pois o mal poderia fazer muito mais sentido do que o bem no comportamento humano, por alguma incompatibilidade congênita. O filósofo neoplatonico Plotino também havia dito que “O homem está colocado entre os deuses e as feras”. Séculos depois, Blaise Pascal havia observado que “O homem não é nem anjo nem monstro; e a desgraça é que deveria agir como um anjo, mas age como um monstro”.  Parece que ficou para a humanidade a tarefa de se tornar viável, quando ela tem tudo para não dar certo. Será que aquela freira sabia disso?

Era esse o seu estado de animo, a despeito das próprias provocações interiores. Ouviu o barulho da maca rodando no corredor e parou a porta do quarto. Alguém bateu e seu ingresso foi autorizado.

─ Está na hora, vamos lá?

Disse com simpatia o auxiliar de enfermagem. Estacionou a maca ao lado da cama e o paciente vestindo somente aquele avental próprio, passou para a maca com decisão e sem esforço.  Deitado de barriga para cima a contemplar as luminárias do teto que passavam rapidamente com o avanço da maca lembrou-se de filmes que assistira assim. O ruído das rodas combinadas com aquele falso piscar de luzes deve ter causado algum efeito ao cérebro que afetou seu animo. Só podia ter sido isso, claro! Assim ele se explicaria depois. Um medo irracional o invadiu de um jeito que Gurdjieff, Plotino e Pascal saíram correndo. Mas ele teve que ficar.

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13 thoughts on “Acidente da Razão

  1. Olá Ivani, bom dia. Interior, e não só, retratado cinematográficamente: o tal filme que, dizem, passa à nossa frente. Senti-me muito bem conduzido até ao final, ou mero vislumbre de final, do conto. Objectarei, apenas, por ser sexta feira, véspera de um fim de semana que se pretende e te desejo descontraído. É um prazer ler o que fazes. Obrigado e um excelente fim de semana.

    • Bom dia Ivani !
      Leio os seus contos e crônicas com a certeza de estar me envolvendo em possibilidades que não consigo descobrir o final, o que me faz ser ávido na leitura, pois sei que o resultado que se apresentará sempre será magistral.
      Magistral, Professor Ivani, magistral !

  2. Van on said:

    Olá Ivani,

    seus textos são absolutamente atraentes, leitura agradável e rica.

    No final das contas crédulos e incrédulos trilham o mesmo caminho: O do medo. A diferença é que uns se atrelam a cordas para faze-lo e outros o fazem com as mãos livres. Mas, em algum momento as luzes do teto piscarão para todos.

    Abraços

  3. Caro José,
    agradeço-te mais este apoio sincero. Muito nos honram palavras amigas de quem admiramos. Aliás, por aqui, os nossos leitores estão muito bem servidos. A diversidade de estilos é simplesmente fascinante. Excelente final de semana para ti também.
    Forte abraço.

  4. Boa tarde caro Antonio,

    Aha! Lhe chamei de mestre, devido inclusive a preciosidade da sua narrativa, e agora “revidas” com professor. Kkkkkkkkk. Sou na verdade um honrado aluno de vocês. Foi a nossa querida Luísa que me convenceu a escrever contos. Meu assunto era história e eu já me encontrava em conflito há algum tempo, quando acatei a sugestão dela para relaxar. Que maravilha de prescrição. Agradeço imensamente a vida e a vocês por essa maravilhosa oportunidade. Magistral? Menos, caro Antonio.
    Forte abraço.

  5. Boa tarde, Van
    O medo é uma das nossas preciosidades. É o instinto de sobrevivência que nos diz: “você vai morrer sim, mas fique bem longe da morte o quanto puderes.” Muito obrigado pelo seu comentário interessante.
    Forte abraço.

  6. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Novamente, parabéns, Ivani Medina.
    Moro em Petrópolis e garanto que as freiras também já sumiram dos corredores centenários do Hospital Santa Teresa, assim como o fizeram Gurdjieff, Plotino e Pascal.
    Assim, agora, ficariam ele, o enfermeiro, mais impessoal, quase brusco e o tal medo irracional, que certamente o faria pensar que um gole de uma bebida forte, apesar de sua adolescência, amenizasse aquela intervenção para a cura do furúnculo, sem anestesia, na marra.
    Acredito que sem o conforto dado pela freirinha gentil, ou as novas instalações de cores neutras e enfermeiros idem, sem os pisos hidráulicos do antigo pavilhão, que poderiam lembrá-lo de suas convicções sobre a verdade, pelo contraste do preto e do branco de seus desenhos, agora sim, uma boa anestesia o faria enfrentar melhor a verdade de suas dúvidas e medos.

  7. Pingback: Ver! | Blog | Acidente da Razão

  8. Sergio,

    Muito obrigado, mais uma vez, por mais este comentário.
    Abraço.

  9. Este e um lugar a ser visitado e divulgado estou maravilhado com este equipe de escritores de primeira…valeu Ivani….fuiiiiiiiii

  10. Moreijo,

    Caramba. Embora eu só posso falar em meu nome, estou seguro de que todos aqui se sentem muito felizes com esse seu apoio carinhoso. Muitíssimo obrigado pelas suas palavras de acatamento ao nosso trabalho.

  11. Moreijo,

    Caramba. Embora eu só posso falar em meu nome, estou seguro de que todos aqui se sentem muito felizes com esse seu apoio carinhoso. Muitíssimo obrigado pelas suas palavras de acatamento ao nosso trabalho.

    Forte abraço.

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