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A Volta, um Poema Urbano

De mãos dadas

Por António Macedo

Esperava o ônibus que a levaria para São Paulo, estava quente na rodoviária do Rio. Seria um recomeço, mais uma tentativa, viera do Maranhão em busca de oportunidades e dias melhores, uma vida com menos sofrimento, pensava, começando a sentir saudades doloridas de seus pais e de seus irmãos, prometera mandar ajuda financeira para eles,mas não tinha conseguido com o seu emprego em casa de família em Ipanema, com o que ganhava, mal conseguia pagar o aluguel da casa simples na favela da rocinha. Chegou na rodoviária do Tietê em São Paulo as 5 horas da manhã, sentia muito frio, também ficou assustada com o tamanho daquele terminal, começou a sentir medo e a questionar a sua decisão, passava para quem notasse, um infinito abandono e uma palpável fragilidade.

– A moça bonita vai para onde ?

Foi dançar e vender o corpo em um daqueles inferninhos da “boca do lixo”, no poste, envergonhada de sua nudez, transportava o pensamento e o foco de seu olhar para muito distante, exercício que fazia para poder encarar aquela realidade, era a mesma estratégia que utilizava para fazer sexo com os seus clientes invariavelmente bêbados e nem sempre delicados. Quando pela manhã saía da boate, reparava em um rapaz moreno, magrinho, que sempre buscava se proteger das frias madrugadas paulistanas, encolhido em um casaco barato, era o vigia noturno da rua, pago pelos mesmos homens que exploravam as mulheres. Assim, por mais de um ano, havia aquele encontro esperado, até que certo dia, o rapaz, de forma pouco eloquente, como se estivesse juntando forças para falar, se aproximou dela e perguntou:

– Você também é maranhense ?

Esperando para embarcarem para o Maranhão, Pedro e Raimunda, abraçados, de mãos dadas apertadas, olhavam em silêncio para o ônibus que acabava de encostar na plataforma, e que os levaria de volta, tentariam mais uma vez, o olhar trocado entre eles era o de cumplicidade, e de fome pela vida interrompida.

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7 thoughts on “A Volta, um Poema Urbano

  1. Pingback: Ver! | Blog | A Volta, um Poema Urbano

  2. A oportunidade de um recomeço, no pesadelo de uma vida nova, acaba sendo o sonho de tantos. Parabéns, Antonio.

  3. Uma ficção que se espelha na realidade de tantas vidas sofridas.
    Sempre grato pela presença Ivani

  4. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Precisamente, Antonio.
    Como um raio, as origens batem explosivamente, sempre falam mais alto e trazem mais um tanto de esperança ao sofrido retirante, sempre aventureiro e sonhador com dias melhores para si e para os seus.
    É o sonho de não ser apenas mais um, sem saber que a cidade grande o explorará e o cuspirá à beira de mais uma rodoviária de esperanças.

  5. Van on said:

    Emocionante, Antonio!

    Quem dera todas as vidas fossem salvas pelo amor.

    Abraços

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