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O Terceiro Lugar

Terceiro Lugar

Por Ivani Medina

Não é verdade de que o fato de não se possuir alguma habilidade específica seja um problema, senão a ausência de um senso de observação aguçado. Alguns se queixam dizendo que não sabem fazer nada, como um sinal de pouca sorte na vida. A maioria das pessoas não possui dom algum, daí o valor concedido pelo dom, a distinguir o “agraciado” da totalidade dos mortais. Será mesmo uma sorte ou uma visão romântica de quem está de fora?

Dons, especialmente os artísticos, não significam necessariamente fama e fortuna como se imagina. A maioria destes “contemplados” viveu e vive sem conhecer nada disso. Além de tudo, foram os descendentes dos mais projetados os maiores favorecidos com os seus dons artísticos, como no caso dos famosos pintores, cujas obras só atingiram cifras fabulosas depois das suas mortes. Parece cruel, mas é assim mesmo. Alguns chegam a dizer que dom é uma sina, porque se é obrigado a tentar viver ou morrer dele. E quando se tem dons demais? Cheque mate.

Desde menino, Evandro era do tipo que não fazia planos. Seus colegas da escola queriam ser isso ou aquilo, enquanto ele não queria ser nada. Não possuía uma aspiração especial a ser desenvolvida tendo em vista uma profissão ou posição social futura. Interessava-se por muitas coisas e escolher uma entre elas seria um grande problema. Era melhor não pensar naquilo. Na sua simplicidade, Evandro era “alguém” e sabia que queria continuar sendo esse alguém. Quem quer ser, não é.

No ensino primário houve um concurso em sua escola que envolvia um dos seus dons. Ficou em primeiro lugar e na sequencia viu-se levado a disputar com alunos de outras escolas do município. Dessa vez ficou em terceiro lugar. Foi acompanhado do padrinho, pois o pai se encontrava ausente, para receber o premio junto com outras duas crianças, numa cerimônia pomposa, das mãos do próprio prefeito, num dos palácios do governo da sua cidade. Depois, muito sem jeito, se viu obrigado pela sua professora a relatar a solenidade da premiação a toda classe.

Mais tarde, no colegial, sua irmã, a mais velha das moças, que era também habilidosa, começou a fazer umas bolsinhas artesanais. Evandro deu uns palpites e começou ajudá-la na produção. As meninas do colégio começaram a desfilar com as bolsinhas dela por todo lado, até que uma das sócias de uma butique que se projetava no bairro se interessou pelas bolsas e entrou em contato com ela. Depois dos afazeres do colégio a “fábrica” entrava em produção até que a mãe deles viesse fechá-la.

O contato com os jovens empreendedores daquela butique o levou a outros voos por iniciativa deles. Incumbiu-se Evandro de um upgrade semanal na aparência da loja. Com certa relutância íntima aceitou o desfio. Á noite recebeu as chaves da loja mais pincéis e tinas, sem saber absolutamente o que fazer. O pânico não chegou a se instalar, pois na sua imaginação viu as paredes pintadas e ele só foi cobrindo. No dia seguinte estava com receio da reação dos clientes, pois não havia um projeto com previa aprovação que o tranquilizasse.

Voltou do colégio um bagaço por ter dormido pouco naquela noite. Almoçou e foi dormir, mas logo sua mãe o despertou dizendo que um dos esposos das moças da butique estava ao telefone. Lá vem bronca, chegou a pensar com inquietação:

─ Evandro, o que você fez na nossa loja?!

As pernas bambearam.

─ Está sensacional, sensacional! Todos nós adoramos e você ainda estava com medo, né? Pensa que eu não notei? Hahahaha.

Divertiu-se com ele o sujeito. No mês seguinte seus contratantes iam inaugurar uma nova loja num shopping em outro bairro, e Evandro passaria a cuidar das duas, como servidor autônomo. O shopping era recém-inaugurado, com lojas por terminar e imediatamente outros convites apareceram e ele os aceitou. Tudo dava certo e pareceu-lhe que a vida seria toda assim. Poucos rapazes da sua idade ganhavam o que ele começou a ganhar. Era uma grande diversão bem remunerada, e para Evandro não passava daquilo. Alguma coisa mais forte ao seu íntimo estava faltando naquela brincadeira.

Para os que o acompanhavam e se admiravam com as suas habilidades, o grande problema de Evandro era a falta de foco. Em tudo que ele se metia, fazia bem feito. Se alguma característica profissional definida ele possuía, era essa.

─ Acho que isso eu posso fazer.

Fazia e pronto. Por penetrar com facilidade em diversas áreas enfrentava a animosidade de alguns veteranos com resultados bem mais modestos do que os seus de iniciante. Ele sabia que havia iniciado bem, mas apenas isto. Era como se Evandro estragasse sem querer a brincadeira dos outros, simplesmente por ser quem era e fazer o que podia fazer, pelo simples prazer de fazer. Não havia outro motivo no seu propósito. Outras vezes, também se enciumavam dele apenas pela sua incompreensível maneira de ser, sem ambições futuras diante da própria sorte.

Certa vez, acabou fazendo amizade com a dona de uma livraria que frequentava. Algumas mulheres aparentadas daquela senhora começaram a olhar com maldade as suas visitas, absolutamente livres de segundas intenções. Lá estava apenas pelos livros e pelo prazer de uma boa conversa. Conheceu o marido dela e se deram muito bem, esvaziando assim as intrigas daquelas que ardiam em desejos ocultos.

Foi por estímulo de dona Anunciata, a livreira, que Evandro acabou se inscrevendo num concurso de pintura promovido pela Secretaria de Cultura de uma cidade serrana. Dona Anunciata adorava pintar e a sua livraria era uma espécie de point de pintores. Evandro ficava muito impressionado com o assunto por ali. Todos sabiam de tudo inclusive da vida dos famosos artistas de todas as épocas. Discutiam técnicas e coisas assim. Pensou até em desistir da inscrição do concurso, imaginando-se sem qualquer chance naquele meio artístico.

Sessenta obras foram inscritas e na primeira peneirada trinta foram selecionadas. Na segunda, quinze e finalmente o júri escolheu os finalistas. Dona Anunciata ficou muito magoada quando recebeu um telefonema avisando que poderia retirar a sua obra e que aceitasse os agradecimentos e os cumprimentos do secretário de cultura pela sua honrosa participação. Ela nem ficou entre os trinta, como nenhum dos bem falantes de arte da sua livraria. Assim como naquele momento Evandro estava sem telefone, nem quis procurar saber de mais nada. Até que num final de semana, por intermédio de alguém ligado a Secretaria de Cultura daquela cidade, veio saber extraoficialmente que o seu trabalho havia sido premiado. Um telegrama confirmou a notícia. A obra dele ficou em terceiro lugar e ganhou um prêmio em dinheiro.

Anos depois, passou a fazer maquetes para um famoso arquiteto e se deu bem aí, isto é, até onde aguentou. Continuava o de sempre, sem conseguir se fixar em atividade alguma. Muitos dons podem trazer também muitos problemas por causa da dispersão. Apreensões passaram a visitá-lo com alguma frequência enquanto a cabeça agrisalhava. Jamais teve um plano de metas ou um projeto futuro porque só conhecia o presente. Não se mostrou inteligente o bastante para construir um merecido patrimônio quando os bons ventos o favoreciam.

Evandro trabalhou pela madrugada em muitos finais de semana, festas de fim de ano, carnavais etc. porque nada significavam para ele diante das necessidades do trabalho. Porém metia a mão no bolso com muita facilidade, e é como se diz: “dinheiro não aceita desaforo”. Parecia que faltava em sua mente o espaço reservado para o lado prático e precavido da vida, necessário ao amadurecimento. Ainda assim, diante da dureza inequívoca da realidade, uma irresponsabilidade teimosamente leal mantinha viva nele uma estranha certeza descompromissada da lógica. Coisa de doido. Mas esses tipos são mesmo assim.

Em compensação, num momento da vida que a muitos parece que tudo já está consumado, não se tem muito que esperar, lá está Evandro novamente às voltas com mais um dos seus dons hibernados nele por algum motivo. Parece que o seu destino sempre tem uma carta na manga. Conheceu Eduarda que o estimulou na arte da música. Ele comprou um violão sem saber tocar e depois de lutar alguns meses com o instrumento, compôs uma linda canção para ela. O entusiasmo com o potencial do amigo trouxe um novo e lisonjeiro brilho a vida daquela mulher que vinha de dois casamentos. Havia uma troca oportuna entre os dois, com aquela qualidade que só a maturidade sabe e pode oferecer. Evandro vinha de um único casamento, mas não se importou nem um pouquinho com mais aquele terceiro lugar.

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11 thoughts on “O Terceiro Lugar

  1. Pingback: Ver! | Blog | O Terceiro Lugar

  2. Bom dia, Ivani Medina.

    Conheço muita gente assim, que tinha tudo pra obter grande êxito mas parava no meio do caminho, isso é falta de planejamento. É preciso usar de estratégias, estipular metas para se alcançar o objetivo – só que é necessário saber qual o objetivo! Não dá pra atirar pra todos os lados, tem que ter um foco.
    Evandro é na verdade um grande sonhador como muitos que existem por aí.
    Ainda bem que ele insistia rs e era feliz do seu modo, com seu terceiro lugar, acredito que no fim das contas, isso basta..
    Enfim, mais um belo conto!

    Sandra

  3. rsrsrsrs Obrigado, Sandra, mais uma vez com este simpático comentário. Os padrões também se diferenciam de forma pouco ou nada lógica. Por isso, muitas vezes, dons são considerados sinas.

  4. Valéria on said:

    Olá Luisa, como ele se parece com as pessoas normais que levam a vida? Quantos são assim?!
    Mas ao menos ele viveu a vida sendo o que sempre quis ser… livre para experimentar!
    Beijo no coração

  5. Olá Ivani, boa noite. Confesso que este teu Evandro me fez sentir algo novo
    em relação a uma personagem, algo que tu até fazes alusão, algo feio: a inveja.
    Nota que não a inveja dos dons, mas a do desprendimento. Vejo este teu
    Evandro como um alquimista, que poderá até não a ter procurado tanto como
    os outros, mas terá encontrado a tal pedra. Está uma delícia, o conto. Obrigado e um abraço.

  6. Ivani, o teu Evandro fez-me lembrar eu mesma no que respeita ao foco e ao desprendimento de planos. rsrs

    Também não me importo com 3º ou 30º lugares, porque o que faço, faço com prazer. Mas a coisa, às vezes, não é nada fácil na sociedade onde vivemos… ai não é não!

    Adorei o teu conto!

  7. Valéria, perfeitamente. Evandro é absolutamente comum. A única diferença é que ele quis ser quem sempre foi, livre para experimentar.
    Obrigado pelo comentário simpático.

  8. Olá, José
    Obrigado pelo teu encorajador comentário. Fico feliz que este tenha te tocado.
    Forte abraço.

  9. Luísa, ah, tu também? rsrsrsrs Adorei que tenhas adorado. Quando adoras, douras meu ânimo. Que não é fácil, não é mesmo.
    Abraço apertado.

  10. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    A DIFERENÇA ENTRE A SANIDADE E A LOUCURA É O SUCESSO…
    Evandro, avis rara para uma sociedade de sobreviventes, mas um homem perfeitamente maduro; tão maduro que se arriscava a viver como um menino e tão adulto que se aceitava e gostava do que via, confiante e corajoso, independentemente das imprevisíveis circunstâncias da vida de todos nós.
    Parabéns, Ivani Medina, por nos apresentar um personagem distante do lugar comum e da mediocridade de uma sociedade apreensiva com um futuro que ninguém sabe qual será.

  11. Obrigado Sérgio pela sua visão lúcida de uma simples existência. Salve o simples!

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