Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

A Terra de Ninguém

Partilhando um cigarro

Por José Sousa

Reconheço-o.
Tenho quase um ódio de estimação pela frase “gostos não se discutem”.
A limitação é, com certeza, da minha parte, mas não consigo encaixar este grupo de palavras em muitos momentos enriquecedores da minha vida: sempre que encontrei alguém em terra de ninguém.
Durante a I guerra Mundial, os soldados borrifaram-se para as ordens dos generais, e pararam de combater. Não foi algo que tivessem organizado. O que aconteceu foi simples: um pequeno grupo começou a cantar algo que todos conheciam, aos poucos, mais vozes se foram juntando de todos os lados em conflito. Em toda a frente ocidental as armas iam-se progressivamente calando.
Homens que cantam não matam.
Quando a canção terminou instalou-se, em centenas e centenas de quilómetros de trincheiras, um profundo silêncio. Milhões de soldados franceses, ingleses e alemães começaram então a sair dos seus abrigos e a caminhar em direcção ao inimigo. Durante horas entenderam-se por gestos e risos, fumavam, bebiam e cantavam em conjunto, mostraram fotografias ou cartas da família, trocavam a fivela do cinto pelo atacador das botas.
Com grande esforço e promessas de castigo, os oficiais conseguiram pôr ordem naquele caos e fazer com que cada um fosse para a sua cova.
Nas altas esferas já havia gente roxa de suster a respiração.
A manhã seguinte recomeçou com aquilo que todos sabemos: a matança.
Era a noite de natal de 1914 e a canção chamava-se “Noite Feliz”.
Alguns dirão que terá sido intervenção divina; eu, mais simplório, mais terra a terra, gosto de pensar que haverá poucas coisas mais importantes para discutir do que os gostos de alguém.

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17 thoughts on “A Terra de Ninguém

  1. Pingback: Ver! | Blog | A Terra de Ninguém

  2. José, parabéns
    Palavras certeiras a respeito de um fato que, pelo pouco que sei, rendeu apenas um filme e nada mais. Uxar a paz por conta da livre iniciativa, assim ninguém mais irá à guerra. Mau gosto não se discute, lamenta-se.
    m fato que não interessa ao capital que se avoluma a custa das vidas alheias. Nada de dei

    • Olá Ivani, boa tarde. É, mesmo, um prazer. Eu nem sequer sabia que tinha dado um
      filme. Já agora conto-lhe como soube desta história: Portugal entrou na guerra mais tarde: a jovem República necessitava de se consolidar no cenário político das monarquias europeias e de proteger o seu império africano de cobiças germânicas. E por isso um familiar meu foi passar o natal de 1917 às trincheiras da Flandres. Contava ele que, mesmo 3 anos depois, à medida que a noite em questão se aproximava, os oficiais andavam num rodopio de ordens e contra ordens no sentido de manter os homens ocupados. Nós sabemos o que isto quer dizer. Os oficiais andavam muito nervosos, dizia-me ele. E ele, Ivani, sabia do que falava.
      Concordo plenamente que muito, mesmo muito, estará por fazer.

  3. Muitos fazem o que poucos querem ….

    • Olá Joselito, boa tarde. Está tudo dito nas suas palavras. Abanar um pouco a base
      da pirâmide poderá ser um inicio, um ténue inicio, de solução. Muito obrigado pelo seu importante comentário. Um abraço.

  4. José,

    Triste, muito triste! Durante a guerra, em terra de ninguém: frio, fome e esperança.
    Fico imaginando os soldados se confraternizando e, no dia seguinte, apreensivos, terem que dar início ao… inevitável?
    Imaginar já é horrível, executar as ordens então…

  5. Olá Sandra, boa noite. Deixe-me agarrar na frase com que termina o seu comentário: “Executar as ordens então…”. Precisamente. Lembro-me
    de, quando ainda muito jovem, ouvi falar nisto, ter tido dificuldades em
    adormecer por isso: por me imaginar a ter que as cumprir. Hoje, mais
    velho, idealmente mais sábio, pergunto-me se em situações talvez menos
    dramáticas, é certo, não nos acontecerá a todos um pouco isso. Apreciei
    imenso este seu comentário. Obrigado e um abraço.

  6. Bom dia, José!
    Esta é uma história da História realmente tocante. Por todas as razões nela implícitas. Desobedecer com naturalidade porque a consciência assim o dita, voltar a obedecer sob pressão, perante a impotência de dizer não a argumentos incontestáveis (ameaças pessoais aos soldados) é, para a mente humana, no mínimo desconcertante. Matar um anónimo entrincheirado é uma coisa, matar o homem com quem se partilhou o cigarro e um pouco de vodka é outra completamente diferente. Do pouco que sei da 1ª Grande Guerra fica-me a ideia que foi a mais feroz de todas. Apetece-me praguejar um lugar comum: malditos ditadores!
    Beijos e obrigada por mais este belo texto.

    • Olá Luísa, como estás? Tenho para mim que a História está cheia de histórias tocantes, é certo que nem sempre pelas boas razões. Sei perfeitamente que sou
      suspeito nisto que afirmo, sempre tive excelentes professores que me fizeram
      adorar a disciplina. Deixa-me responder a este teu comentário desta forma
      indirecta: quando abri esta página e vi a fotografia que escolheste para
      enquadrar o texto demorei algum tempo para conseguir reerguer o queixo.
      Muito obrigado por isso. É como tu dizes, partilho um cigarro contigo e
      depois…
      E concordo contigo: a guerra, qualquer guerra, baseia-se no distanciamento em
      relação ao outro, na desumanização do outro . O cigarro partilhado torna-a
      absolutamente insuportável.
      Luísa, parabéns pela fotografia e obrigado por tudo.

  7. Durante a I guerra Mundial, os soldados borrifaram-se para as ordens dos generais, e pararam de combater. Não foi algo que tivessem organizado. O que aconteceu foi simples: um pequeno grupo começou a cantar algo que todos conheciam, aos poucos, mais vozes se foram juntando de todos os lados em conflito. Em toda a frente ocidental as armas iam-se progressivamente calando.
    Homens que cantam não matam.

    Que bela rebelião…
    Que horrível este meu trocadilho… rsrsrs

    As mais verdadeiras rebeliões são as que surgem espontaneamente. São também as mais perigosas, por serem difíceis de controlar.

    É verdade meu querido: se os homens cantassem e amassem mais, matariam menos.

    Eu não gosto de discutir o “gosto de alguém” Prefiro respeitar.
    Daí a concordar…

    Em terra de ninguém, é melhor não ter posto de comando!
    Adorei.
    Compartilhei.
    Beijo.

    • Ah Beth, conhecer-te é uma travessia festiva. Adorei o ” é melhor não ter
      posto de comando!”. Muito bem posto. Um enorme sorriso e um bom fim
      de semana para ti e para os teus. Obrigado e um beijo.

  8. Extraordinária esta lembrança, José. O seu texto é lindo demais.

  9. Gostei demais, José. E, tem razão, quando Luísa coloca uma foto, consegue encontrar uma agulha no palheiro, o melhor que parece encaixar no que escrevemos,não é? Eu aqui, não tenho vodka, mas ofereço um cafezinho a vocês e um abraço afetuoso. Boa semana!

    • Olá Vera, boa tarde. A Luísa é insuperável. E esta fotografia deve ser mesmo uma
      agulha no palheiro. Confesso a minha predilecção por café em relação ao vodka,
      e a Luísa certamente que adoraria uma xícara, acho que é assim que vocês dizem. Vou só ali buscar uns pastéis de nata que serão um complemento perfeito.
      Vera, Um abraço caloroso.

      • Vera, café aceite!rsrs
        José, eu, como boa alentejana, aceito qualquer coisa, mas a minha preferência vai para o chá de doce lima, tília ou chá preto de Ceilão! Claro que o pastel de nata jamais se recusa, nem que seja com água! rsrs

        Abraços aos dois e muito obrigada por terem gostado das ilustrações!

        • Licença, José! Pois eu também gosto de chá Luísa. Já lhe recomendei o de maçã com canela e um pouco de vinho tinto para as noites de inverno? Não experimentei estes dos quais fala. Vou procurar. Um abraço aos dois e bom final de semana!

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