Só Contos

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Os Mistérios da Velha Anta

A velha anta

Por Luísa L.

Nota: Antas ou dolmens são monumentos megalíticos. A sua função, 
aparentemente, estava ligada a cultos religiosos e fúnebres.

“Não se pode pisar aí…”. Eu olhei para eles com aquele ar interrogativo-displicente de quem se está marimbando para o que se pode ou não, porque eu ia lá entrar de qualquer maneira. “Há espíritos vingadores debaixo dessa terra.” Ahhh… isso era outra coisa, assim a gente já se entendia. A minha imaginação de imediato se encarregou de pintar um quadro estranhamente belo e hediondo. Da terra forrada de musgo fofinho emergia lentamente um espírito idêntico ao do génio da lâmpada de Aladino, só que este era mau. Afastámo-nos cabisbaixos, envergonhados pela impotência de enfrentar tão vil criatura; apressamos o passo até à corrida, até porque o chamamento materno já se fazia ouvir para o almoço.

“Mãe, há espíritos vingadores na velha anta?” A minha mãe continuou a servir a sopa enquanto respondia. “Não.” disse, “Claro que não… Estiveste a falar com a Ti Eugénia da várzea?” Perguntou. “Nem a vi, foi a Zézinha e o Chico que me contaram.” Confessei, considerando que uma conversa com a Ti Gena, se calhar era muito interessante. “Não te quero a brincar tão longe de casa e muito menos debaixo da anta. É um perigo… se aquelas pedras caem…”

“Pai, há espíritos vingadores na velha anta?” O meu pai aspirou o fumo do cigarro e atirou a beata para a sementeira de alhos. “Os espíritos não existem. E mesmo se existissem, com certeza não seriam vingadores!” Pronto. Afinal era tudo mentira. Mal podia esperar pelo dia seguinte para contar ao Chico e à Zézinha. Podíamos brincar dentro da anta sem qualquer perigo. “Mas… é melhor brincarem noutro sítio. Sabes que as antas são monumentos?” Olhei para o meu pai com mal dissimulada incredulidade, tentando encontrar paralelos entre uma anta e um castelo. Certamente castelo era o único conceito de monumento que eu tinha na altura. De qualquer modo, tinha a certeza que o meu pai estava redondamente enganado. “É verdade… há muitos milhares de anos, quando os homens ainda viviam em cavernas ou em casas feitas de troncos e palha, levantavam aquelas pedras para os deuses, ou para enterrar os mortos… não se sabe ao certo. Então…”

E a história continuou, não sei por quanto tempo, até porque na minha cabeça já se delineava o dia seguinte: sair de bicicleta com os meus amigos e ir até à velha anta; entraríamos lá dentro, mesmo que fosse só por uns momentos, isto porque não convinha perturbar os mortos nem sermos apanhados por uma pedra a cair.

“E não se afastem muito” disse a mãe do Chico, “nem vão brincar para as antas, é perigoso…”, advertiu. “Está bem!”, respondemos em coro. E assim se cumpriu o dia seguinte em frente às velhas pedras proibidas. Primeiro no cerimonial próprio de quem não quer entrar é porque é mariquinhas. Mas, depois de pisado o solo sagrado debaixo da enorme pedra, e passada a fase de adaptação ao estatuto de heróis vencedores de espíritos tenebrosos, entrávamos e saíamos da anta – sempre num segredo só nosso – com a deferência dum ritual antigo.  Inventámos pequenos espaços onde nos era permitido pisar e nunca, por nunca, tocávamos nas pedras.

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27 thoughts on “Os Mistérios da Velha Anta

  1. Sabe Luisa, tudo o que é proibido atrai, não é mesmo? Os pais precisam ter sabedoria para conversar com os filhos, de modo que eles aceitem a justificativa do perigo, do errado ou seja lá do que for. E jamais proibir, pois isso instiga as crianças, principalmente os adolescentes a fazerem o que não devem.
    Vejo pelo meu filho que tem 6 anos, está pra completar 7 em breve, e preciso usar de estratégias com ele rsss.
    Eu não sabia o que era uma anta, a não ser aquele mamífero rs.
    Seu conto é bem interessante, ele me reporta a minha infância, às descobertas, aos mistérios. Eu e meus primos sempre queríamos brincar onde não nos era permitido rss. Divertido!
    Beijos.

    Sandra

    • Sandra, este conto já tinha sido editado noutro blog, por isso eu sabia que a grande maioria dos brasileiros pensam que uma anta é o tal mamífero, daí ter colocado a nota, pois nós também chamamos “antas” aos dolmens.

      No tempo em que eu brincava em “antas”, deveria ter a idade do teu filho, mas isso foi há 40 anos… e nesse tempo podíamos brincar enfrentando apenas os perigos da natureza, sem grandes problemas. Hoje é diferente.

      Beijos!

  2. Luíza
    Que bom que nas nossas adolescências, tivéssemos o espírito aventureiro, dispostos a quebrar regras, melhor ainda se conseguimos trazê-los aos dias de hoje.
    Sem querer cair no lugar comum, mais um belo conto de sua autoria !

    Como escreves bem, ó menina !

    • António, muito obrigada pela tua gentileza de sempre.

      Penso que na minha infância era mais fácil ter espírito aventureiro, pelo menos no que respeita à acção, do que é agora, pois a sociedade é diferente. Acreditas que os meus filhos nunca brincaram nessas antas? Pois, simplesmente porque elas foram consideradas património nacional, vedadas e protegidas. Só as podemos ver aí a uns 5/6 metros de distância, nem lhes podemos tocar!

      Abraços!

  3. Pingback: Ver! | Blog | Os Mistérios da Velha Anta

  4. Valéria on said:

    Nossa que delicia de texto Luiza… também me fez lembrar da minha infância que foi cheia de muitas travessuras e segredos de crianças….
    Também só conhecia anta como um animal….hehehehe
    Sabe que desde a infância eu tinha fascínio por pedras e suas cavernas….. adorei!
    Eu tenho um menino de 10 anos e me entristece não poder deixá-lo brincar ao ar livre e em liberdade como foi a minha infância…. mas os perigos de hoje em dia são mais assustadores que os da nossa infância… é uma pena!
    Beijo no coração

    • Valéria, era mesmo muito diferente… agora lembrei-me que naquele tempo nem havia rodinhas auxiliares para a primeira bicicleta, ou então se existiam deveriam ser artigo de luxo, pois eu nunca tive nenhumas… tantas quedas e joelhos esfolados! rsrsrsrs

      A minha filha mais nova, de 9 anos, tem a sorte de ainda poder passar algum tempo das férias com os meus pais, no campo. Mas ela é tão urbana que nem tem sensibilidade para usufruir da liberdade que a natureza lhe dá! Mas adora lá estar!

      Beijinho enorme!

  5. Luísa,
    Ah a infância, as aventuras imaginárias e os desafios. Sou um fã dessas tuas lembranças infantis. Adorei. Poderias contemplar o Só Contos com mais algumas delas, aquela da aposta da viagem é ótima. Estimaria reler a delícia.
    Abraço e obrigado.

    • Ivani, sou em que agradeço.

      Tenho de contar essa história. Eu era tão atrevida, fazia tantos disparates, que tenho mil histórias para contar! rsrsrsrsr

      Abraço!

  6. nossa cidade Carnauba dos Dantas tem uma relação muito forte com Portugal, na realidade a origem de nossa família Dantas vem D’ Antas do Norte de Portugal, o que, segundo uma explicação de um Português não tem nenhuma relação com o animal anta, mas anta é ligado aos cultos religiosos, ao ler esta postagem vi alguma relação.

    • Olá Carlos, na verdade “Dantas” é um nome de família mais ou menos conhecido por cá. É possível que a sua origem seja essa, sim. Pois muitos sobrenomes têm a sua origem em lugares ou características dos lugares. Começam por ser “o José que mora lá para as Antas”, depois passa para “o José das Antas” e finalmente aparece “Dantas”. Não sei se foi assim que se formou, mas é uma hipótese.

      Muito obrigada pelo comentário!

      • Van on said:

        Olá Luisa,

        Como os mistérios fascinam as crianças, ou melhor, fascinam os adultos também, mas são as crianças que melhor sabem fazer uso deles, como você bem descreveu, a imaginação infantil cria heróis e segredos que só ela domina. Linda história, me fez lembrar das minhas brincadeiras e imaginações infantis.

        Beijos

        • Olá Van, bom dia!
          Acreditas que ainda hoje me sinto fascinada com contos e lendas associadas aos lugares? E quando era criança, algumas dessas estórias eram contadas pela metade para “não fazer mal” à cabeça dos meninos. Eu era capaz de ficar horas a ouvir o meu avô velhinho (bisavô) a falar com o irmão (tio-bisavô) de tempos idos, de amores e desamores e brigas familiares que já ninguém se lembrava, nem eles mesmos, dos seus protagonistas… rsrsrs
          Beijos e obrigada pela visita!

  7. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Parabéns, Luísa.
    Certa vez, passando por um laranjal à beira da estrada, o filho de um amigo de infância perguntou ao pai: -“Pai, porque penduraram tantas frutas nessas árvores, por acaso será por alguma festa?”
    Ambos rimos pela ingenuidade e nos lembramos da época que íamos à cachoeira, explorávamos cavernas e pegávamos laranjas no pé, sem precisar pedir licença, nem saber quanto era a dúzia…

    • Olá Sérgio, bom dia!

      Bem, as laranjas fazem-me lembrar outras histórias de clementinas (uma espécie de tangerinas) e melancias, que noutra altura contarei. rsrs

      Muito obrigada pela participação!

  8. Muito interessantes estas recordações de infância, querida Luisa.
    As antas ou dólmenes ainda hoje me despertam imensa curiosidade e já li muito sobre esses misteriosos monumentos megalíticos. Espantoso como eles se dispersaram por áreas territorias imensas. Como essas civilizações tão remotas – acho que as antas remontam ao Neolítico – dispendiam um esforço imenso para construir tais monumentos.
    Tem-se uma ideia de como eles arrastavam e erguiam os esteios laterais e como colocavam o chapéu ou tecto, mas não há certezas de nada.
    Era necessária muita gente, muito esforço… e nalgumas delas aquelas pedras pesando toneladas e toneladas, eram arrastadas de locais longínquos.
    Tudo isto para sentar lá dentro uns defuntos, uns púcaros de barro e mais alguns cacarecos pessoais rsrsss Isto ultrapassa a minha compreensão kkkk
    Sem brincar, acho aliciante este assunto e o seu artigo muito bonito.

    Beijinhos
    Nota: O Carlos tem razão, Dantas é um apelido que tem essa origem, tal como a Luisa explicou pois já um prof meu disse isso. O estádio das Antas chama-se assim porque no local existiram antas
    Moçoila

    • Bom dia, garota!

      É isso mesmo, estás certa. Nos grandes centros urbanos, como é o caso do Porto, é possível que estes monumentos e outros do Mesolitico e Neolítico tenham desaparecido completamente, mas no interior ainda há muitos, intactos, e nestas últimas décadas, preservados. Na região onde nasci, a Sul do Tejo, entre o Sor e o Seda (são rios), há imensas antas, pois aquela era uma região muito fértil, com muita água e onde os povos dessa época gostavam de se instalar.

      Beijinhos e obrigada pela visita!

  9. Adorei seu conto. Principalmente porque explica de modo literário o significado das tais ANTAS. Nome que, conforme pesquisei, é a origem do meu sobrenome DANTAS. A confusão aqui no Brasil quanto ao termo que Forjaram brasões da família Dantas com uma anta (o animal) sobre o Escudo no Brasão da família. Até retruquei o fato de a família alegar origens ultramarinas e apresentar um animal de terras tupiniquins em seu Brasão familiar.

    • Olá Marcos, bom dia!
      Esse assunto é muito interessante. Em Portugal há “Dantas” por todo o país, na Galiza também, por isso deve ser um nome antigo. É natural que no Brasil tenham adotado para representar as famílias os tais mamíferos, antas, pois quando os povos emigram tendem a criar as suas próprias raízes nas novas terras. Por cá, que eu tenha conhecimento, só as famílias da nobreza, com títulos nobiliárquicos, usam para representar o nome um brasão.
      Muito obrigada pela participação!

  10. Van on said:

    oops que distraída, postei o comentário no lugar errado, desculpe-me, Lu!

  11. A Família Dantas, é originária de Portugal, Região do Minho, como também as Famílias Fernandes e Guerra, são uma só, estudiosos de confiança pesquisadores de longa data, pessoas de fé, falaram eu mesma pesquisei, através de setores de confiança, e é o certo.

  12. Olá Luísa, boa noite. Falando do teu conto: eu direi que apesar de nunca ter tido a
    oportunidade de estar debaixo de uma dessas enormes pedras, fiquei com uma
    vontade imensa de o fazer. Algo de semelhante ao que sinto quando tiro os
    meus filhos deste ambiente urbano em que a maior parte de nós vive e os levo
    para o campo. Eu próprio me sinto contagiado por essa liberdade que lhes leio
    nos olhos, liberdade que eu tinha por adquirida quando era da idade deles.
    Obrigado Luísa, por recriares um pouco desse sentimento. Um beijo.

    • José, eu tento levar os meus filhos para o campo sempre que é possível. A minha filha mais nova fica toda orgulhosa por ver e às vezes até tocar os animais que por cá só têm na Quinta Pedagógica. Diz ela que é diferente vê-los “ao natural”… rsrs

      Beijos e obrigada pela participação!

  13. Lindo, mesmo. Eu também passei a minha primeira infância no campo e, apesar de recordar poucas situações, sinto o que descreve.

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