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O Bom Malandro

Malandro

Por António Macedo

Morava em Oswaldo Cruz, subúrbio do Rio de Janeiro, ele, a esposa Esmeralda, cabocla rija e sacudida e seus quatro filhos. Durante o dia era vendedor, de paletó e gravata pois eram os anos 50, tipo de traje costumeiro, independente da profissão ou da classe social.Trabalhava duro para dar conta do sustento da casa, de sua esposa e das quatro bocas famintas que sempre o aguardavam. De bonde em bonde, ia visitando toda a sua clientela, que diga-se de passagem, o adorava. Ele não vendia, os clientes compravam, muitos pelo simples prazer de sua presença sorridente e agradável. Foram incontáveis as vezes em que o cliente o recebia com um suspiro de alívio, abraçava-o e começava a desfiar um corolário de problemas pessoais, pedindo conselhos, que a propósito, ele não dava, era bom ouvinte, sincero na escuta dos dramas existenciais, se condoía de forma legítima com o sofrimento alheio, e depois de tudo ouvir atentamente, fazia comentários encorajadores e esperançosos, dando a seus interlocutores, agora mais leves, a certeza de que tudo se resolveria para melhor.

 – Liga não, tudo vai dar certo, você merece !

E era uma mensagem verdadeira, não fazia o mal e não o desejava para ninguém, nem mesmo para aqueles poucos que dele não gostavam.

Chegava em casa no último bonde, beijava sua cabocla e era atacado pelos seus filhos, que buscavam sentar em lugar privilegiado no seu colo. Ainda engravatado, apesar do cansaço da lida, mantinha seu sorriso, querendo saber de cada um deles como tinha sido o dia, acariciava-os como o animal que lambe as crias . Só muito depois, se lavaria e se sentaria com sua mulher para jantar, e mais uma vez ouviria os relatos do dia, agora por Esmeralda, satisfeita de esperar durante todo o dia por este momento.

Sábado era o seu dia, ia cedo com as crianças para o mercadão de Madureira, fazia as compras da semana, divertia-se com os seus filhos, lambuzava-se de sorvete, comia paçoca de amendoim, corria com elas pelas rampas do mercado, até que completamente exausto chegava em casa sob a cara falsamente zangada pela demora, de sua mulher. No final da tarde se iniciava o ritual, a mulher passava o terno de linho branco e sua camisa de seda, enquanto ele dava brilho em seu sapato bicolor e escovava seu chapéu Panamá, depois submetia-se aos cuidados de Esmeralda, que lhe fazia as unhas, pintando-as com esmalte incolor brilhoso e ajeitava o seu cabelo.

Ao acenar do bonde para a mulher e os filhos que ficavam empoleirados no portão de casa, seus olhos começavam a apresentar um outro brilho, em direção ao bairro boêmio da Lapa. Lá ele era o Rei da noite, respeitado, não pela valentia, virtude que ele tinha de sobra, diriam alguns queixos doloridos, não levava desaforo para casa, mas sim, porque era considerado uma figura querida por todos, um bom malandro, respeitava as regras que não existiam, ele as criava, se divertia, era imbatível no bilhar e todas queriam  dançar com ele. Sabia aproveitar a vida sem dela nada estragar, se dava com todos e a todos se dava.

Chegou em casa no primeiro bonde, dentro de pouco tempo o sol começaria a se mostrar, abriu a porta cuidadosamente para não acordar as crianças, foi recebido com um  beijo que cheirava a pasta de dente , Esmeralda agora despreocupada sorria e trazia nas mãos uma caneca de café quente, os perigos da madrugada não tinham vencido o seu marido, ele voltara. Tomou um banho e se meteu na cama.

Esmeralda na cozinha, ultimava a preparação de uma rabada com agrião e polenta, refeição sagrada daquele lar nos domingos. Assustou-se quando foi acordar o marido para o almoço, e ele não acordou, apesar do sorriso insistente que teimava em seus lábios sem vida.

Nunca se viu tanta gente em um velório, ficou cheio, gente de todo o tipo, policiais e ladrões, médicos e prostitutas, comerciantes e motorneiros de bonde, que outrora diferentes, pareciam agora ser igual a todos, exatamente como ele em vida os via.

Na alameda do cemitério, o cortejo seguia rumo a derradeira  morada, logo após o caixão seguia Esmeralda, com a face molhada de lágrimas e um olhar que não olhava para nada, nas mãos trazia um chapéu Panamá, amparada de um lado pelo Dr. Amarante, delegado do bairro, e de outro por Marilene, dançarina de um cabaret da Lapa. Atrás vinha o séquito de outros desvalidos pela agora definitiva ausência dele.

–  Não se fazem mais malandros como antigamente !

–  Nem esposas como a Esmeralda !

–  É, os tempos são outros !

Dialogavam dois bêbados, que chegando ao cemitério mais cedo tinham decidido homenagear o falecido em um botequim, e agora distanciados, olhavam para aquela turba, que como eles tinha ficado órfãos do último bom malandro. De um cortiço nas proximidades chegava o som de uma canção de Lupicínio Rodrigues, ” Eu agradeço estas homenagens que vocês me fazem…”

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6 thoughts on “O Bom Malandro

  1. Pingback: Ver! | Blog | O Bom Malandro

  2. António, que delícia! sabes, esta história fez-me lembrar a primeira novela que vi na minha vida (quando eu era garota, em Portugal não se faziam novelas, importavam-se quase totalmente do Brasil): Gabriela Cravo e Canela. Não que a história tenha alguma semelhança, mas todo o ambiente me fez lembrar personagens que não esqueci!

    Grande abraço.

  3. Antonio

    Hoje uma Lapa tão diferente insiste no brilho da lenda de uma cidade. Seus personagens antigos persistem pelos arcos e vielas. Bem lembrado, Antonio.
    Parabéns.

  4. Esse é um conto muito gostoso de se ler, muito bom!

  5. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Ótimo, Antonio Macedo. Gosto muito dos seus escritos.
    Lembrei-me da excepcional letra de Chico Buarque e peço licença para transcrevê-la:

    Eu fui fazer um samba em homenagem
    À nata da malandragem
    Que conheço de outros carnavais

    Eu fui à Lapa e perdi a viagem
    Que aquela tal malandragem
    Não existe mais

    Agora já não é normal
    O que dá de malandro regular, profissional
    Malandro com aparato de malandro oficial
    Malandro candidato a malandro federal
    Malandro com retrato na coluna social
    Malandro com contrato, com gravata e capital
    Que nunca se dá mal

    Mas o malandro pra valer
    – não espalha
    Aposentou a navalha
    Tem mulher e filho e tralha e tal

    Dizem as más línguas que ele até trabalha
    Mora lá longe e chacoalha
    Num trem da Central

  6. Antonio, boa tarde. Que personagem esta que tu crias. Não me irei esquecer
    facilmente dela. Lisboa também tem os seus malandros, há mesmo um livro:
    “Crónica dos bons malandros” de um autor que eu aprecio, Mário Zambujal.
    Que os retrata muito bem. Tomo a liberdade de to referir porque me parece
    que tu e o Mário, por entre as páginas de um livro, se dariam muito bem.
    Forte abraço.

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