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Sem Reclamações

Sem Reclamações

Por Ivani Medina

O sonho dele era ser engenheiro. Era um desses casos felizes de quem já nasce com um sonho pronto e não tem que passar a vida tentando inventar um. Mas a verdade é que o destino nem sempre colabora, esse é campeão na derrubada de sonhos.

Ele e o irmão mais velho não podiam entrar em casa no final do dia sem que as vacas e as cabras estivessem todas recolhidas. Naquele tempo, felicidade era coisa de quem sabia ler e conhecia alguma dessas histórias que falavam nela. Ser criança no início do século XX, naquelas condições, nada tinha a ver com ser criança nos dias de hoje.

A sorte dos dois, que só conheceram sapatos depois dos doze anos de idade, mudou com a chegada da nova mulher do pai, que havia se separado da mãe deles por motivo não esclarecido. Ficou estabelecido que ela tivesse ficado louca, coisa que ninguém da família confirmava. O mais velho ainda teve contato com ela por algum tempo, porém o mais novo a rejeitou por completo. Para este ela tinha morrido quando saiu de casa.

Marcelina era o nome da mãe substituta que prontamente conquistou a ambos. Muitas mudanças na casa, sob a nova direção, não tardaram aparecer. Ela logo soube identificar o potencial de cada um dos meninos e aliou-se a eles. Alfabetizados eles eram, o que facilitava muito. O mais velho era hábil em desenho e outro adorava cálculos. Mesmo sob os protestos do marido pela contenção das despesas, seus enteados foram por ela encaminhados: um ao estudo de artes e o outro ao melhor colégio possível no estudo das ciências exatas. Dona Marcelina organizou as finanças familiares com esse objetivo e cada um seguiu seu rumo.

Tudo ia muito bem, os dois meninos haviam ganhado mais um irmão e duas irmãs por parte de pai, quando dona Marcelina morreu de parto. O pai deles não podia suportar o custo do estudo na faculdade de engenharia, mesmo durante a gestão doméstica de dona Marcelina. As necessidades de um rapaz precisavam ser satisfeitas, ainda mais de dois, e ele, sabendo de tudo isso, não queria se sentir um peso para o pai quando o irmão já ganhava uns trocados.

Os recursos da família sobreviam dos pequenos negócios familiares e do salário do seu Manolo, de funcionário civil da Marinha de Guerra. Embora bem preparado pela visão de futuro da madrasta, a engenharia civil teria que esperar por outra oportunidade por aquele rapaz, pois a vida de oficial da Marinha Mercante estava mais a mão. Carreira militar ele não queria.

Quando Fernando apareceu fardado pela primeira vez, houve um alvoroço entre as moças da vizinhança. Não havia para elas uma expectativa de bons casamentos naquele local. A maioria dos rapazes seguia a profissão dos pais, de pescador, ou, os mais afortunados, obtinham uma função pública. Naquele pequeno mundo, oficiais de marinha eram verdadeiras preciosidades para os corações femininos e juvenis.

Liana morava na casa enfrente e seu pai era amigo do seu Manolo. Como amiga das irmãs de Fernando sempre tinha um bom motivo para andar por lá. O cobiçava havia algum tempo, mas o coração dele pertencia à outra, por coincidência com o mesmo nome dela. Numa viagem de guarda-marinha, o autoritário Fernando proibiu a namorada de ir a bailes de carnaval na sua ausência. Mas ela foi com os pais. Por causa disso ele terminou o namoro com aquela que mais amava. Pagou caro pelo tolo orgulho.

Com terreno livre, a Liana vizinha investiu na possibilidade que resultou numa gravidez. Seu Manolo e seu Oscar conversaram seriamente. Ficou decido que se a criança apresentasse as características da família de Manolo eles se casariam. Não deu outra e eles se casaram. O menino era todinho o jeito e a aparência deles. Fernando decidiu que seu filho recém-nascido seria engenheiro. Depois veio o segundo filho, para o qual não havia destinação profissional, coisa que ele não se lamentaria. Satisfeito com o primogênito, pois se mostrava muito falante e esperto, Fernando deixou o outro para a decisão de Liana.

Benito, irmão mais velho de Fernando, que se tornara pintor, foi escolhido para padrinho do segundo. Cedo, percebeu no menino a mesma vocação para o desenho e a modelagem. A criança fazia seus próprios brinquedos com o barro do quintal. Brincava de rabiscar a projeção das folhas das árvores no chão, só para ver que desenho abstrato ia formar. Fernando estava desgostoso com aquilo, pois se o irmão não conseguira grandes coisas na vida com aquele festejado talento, o que o filho haveria de conseguir? Era mais uma contrariedade do destino.

Fernando e Liana nunca se deram bem. O ciúme dele parecia um mal congênito, pois seu Manolo era do mesmo modo. Suspeitava-se que a antecessora de dona Marcelina tinha pavio curto para essas coisas e acabou com a fama de louca por ter virado a mesa. Foi assim que eles foram ensinados pelo pai: sempre suspeitar da mulher. Uma herança maldita, pois as consequências danosas não pouparam os filhos de Fernando e nem os de Benito. Existem manifestações que há muito se perderam definitivamente das causas.

Fernando tentou uma vez abandonar a profissão de marujo. Conseguiu um emprego de corretor de imóveis ainda na esperança de estudar engenharia. A vida no mar distante da família era tudo o que ele não queria. Talento para vendas era coisa que ele não tinha mesmo. As despesas com o crescimento dos filhos só faziam aumentar, mas ele não havia esquecido a valiosa lição de dona Marcelina de investir no estudo deles. Com o coração partido teve que voltar ao mar.

A vida seguiu adiante, os filhos cresceram, casaram-se e lhe deram netos. O engenheiro pouco ligava para o pai e a mãe, enquanto o outro estava sempre por perto. Certa vez, meio sem graça, Fernando pediu ao filho presente que lhe fizesse um favor relacionado a documentos numa repartição pública.

─ Ah, eu ia pedir ao seu irmão, mas ele diz que está sempre ocupado. Eu não sei se está mesmo ou se não quer me atender.

Fernando havia ensinado ao filho ser importante demais. Sonhava que um dia aquele filho pudesse ser presidente da república. Sonhos não custam nada para serem sonhados, mas podem ter um custo elevado na vida de um sonhador. Não poderia imaginar que, mesmo não sendo no palácio presidencial, nem para uma simples comemoração do amado filho ele seria convidado. Parecia que o engenheiro tinha vergonha dos pais, porque talvez fossem pessoas comuns demais.

 Já velho, Fernando, se separou de Liana e se envolveu com uma mulher mais nova e com filhos pequenos. Um desastre total. Não foi por aventura, mais uma das peças do destino ou por causa das próprias vulnerabilidades emocionais. A história deu pano pra manga e ele acabou de volta ao antigo lar. Liana temia ver a pensão deixada por ele dividida com outra. E tinha razão, depois de uma vida daquela ter que passar uma velhice de privações seria demais. A juventude estava perdida, mas alguma coisa ainda podia ser salva.

O fato é que a questão necessitou da interferência de advogado e alguém precisava tomar a frente daquilo. O filho mais novo estava com a mulher grávida e de mudança, tendo que desmontar e montar seu atelier para atender compromissos em curso. Então pediu ao irmão mais velho que atendesse ao pai enquanto ele se desvencilhava daquela situação, para em seguida agirem juntos. Ficou sem voz quando ouviu do irmão a resposta curta e grossa:

─ Eu não quero saber de merda de velho maluco.

Mas o irmão havia aprendido com o pai a ser também um juiz durão. Não que isso o justificasse, apenas explicava a sua atitude humanamente imbecil. Fernando morreu em casa lentamente, tragado por um enfisema pulmonar. Com o filho artista, por ele pouco valorizado, ao seu lado a ministrar-lhe medicamentos e a botar-lhe a máscara de oxigênio que já adiantava nada. Este filho chorou de revolta com aquela situação por não ter meios de acudir o pai. Mas se conteve ao lembrar que a despeito de tudo, Fernando nunca reclamara da vida e nem se queixara da morte.

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8 thoughts on “Sem Reclamações

  1. Pingback: Ver! | Blog | Sem Reclamações

  2. Família, cada uma com seus problemas, frustrações e sonhos. Um conto muito bem escrito e que nos mostra fatos que ocorrem no cotidiano, tais como morte de mãe, filhos que desejam mais atenção, profissões escolhidas que desagradam aos genitores, filhos que não querem mais saber de seus “velhos”, ciúmes, partos problemáticos etc.
    Em suma, muitas dessas coisas ocorrem por uma razão específica, isto é, existe a lei do retorno, colhemos e plantamos. Entretanto, há situações em que ficamos à mercê de um destino pungente.
    Abraços! E parabéns pelo conto!

    Sandra

  3. Belo conto Ivani. Sabes, em todas as famílias há uma “velha casa” que conta histórias. Algumas são até tão secretas que morrem com as paredes.

  4. Sanfran
    Se além do entretenimento nossas estórias tiverem boas serventias, ótimo. Essa é uma esperança que fica na gente. Obrigado e um abraço.

  5. Luísa

    Há um comentário exagerado a respeito de família que é o seguinte: “Só fica bonita no retrato e só o endereço é que muda”. rsrsrs
    Obrigado e um abraço.

  6. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Sensacional, Ivani Medina.
    Os Manolos e Fernandos projetam nos futuros de seus filhos suas frustrações e esquecem que aqueles não são apenas “seus” filhos, mas também seres livres, capazes de criar asas, com ou sem recursos, pois isso se resolve com vontade, além de confiança, respeito e amor de quem os cria e forma.
    Por fim, no leito de morte, resta ao pai de tantos sonhos caros, o mais barato dos filhos, capaz de mostrar-lhe, antes do fim, que o amor vence todos os descasos, inclusive aqueles engolidos por toda uma vida escravizada pela falta de autoestima.
    Triste por ser real, mas lindo por acontecer.

  7. Olá Ivani, boa tarde. Os meus sinceros parabéns. Só me ocorre o seguinte: Ao ler
    este seu texto as “manifestações que há muito se perderam definitivamente das causas” desfilam à nossa frente. Impressionante. Sem qualquer reclamação. Muito obrigado por isto. Forte abraço.

  8. rsrsrsrs Tens toda razão, meu caro José. Toda mesmo.
    Obrigado e um forte abraço.

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