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Os Equadores

Linha do equador em S. Tomé e Príncipe

Por José Sousa

Um destes dias, um bom amigo, ex-oficial do exército, contava-me que quando esteve destacado em São Tomé, presumivelmente em meados do século dezoito – espero que ele me perdoe e, no caso, a esperança tem base de apoio, o que simplesmente confirma a regra – se deu ao trabalho de ir a um pequeno ilhéu que distaria um pouco da ilha principal com um objectivo muito claro: ver uma linha imaginária.

Passo a explicar: nesse ilhéu existia um marco cravado na terra, um marco que assinalava a linha do equador. O planeta dividido em duas metades.

Observou o marco quase á lupa. Rodeou-o diversas vezes para o apreender de todos os ângulos.

E, depois, num impulso perfeitamente explicável, começou aos saltos por cima dele.

“Agora estou no hemisfério norte!”

“Eis-me no hemisfério sul!”

“Viva! Cá estou eu de novo! Sentiram a minha falta?”

Uma bata de cientista aos pulos porque um extra terrestre lhe caíra no laboratório.

Um uniforme de tenente do exército imperial de suas majestades fidelíssimas a dizer ao garbo “O senhor não é bem vindo. Saia já de minha casa!” para poder assinalar convenientemente uma aparente impossibilidade: a realidade de uma linha imaginária.

Que delicia.

Apesar da inveja ser uma coisa muito feia, um dia gostaria de ir a São Tomé. E, nos momentos em que, de todo, esse sonho não seja possível, ir agradecendo mais alguma fatia de bolo de noz a quem faz o especial favor de me brindar com as suas artes culinárias.

 

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15 thoughts on “Os Equadores

  1. Pingback: Ver! | Blog | Os Equadores

  2. Li, pensando ver uma pintura de Dali, então prestei atenção ao nome do escritor, entendi ! ele remeteu para o conto a delicadeza de sua narrativas quase sempre poéticas. Muti obrigado caro José, por compartilhares este teu escrito

    • Antonio, meu querido amigo. Hoje, mais do que quando escrevi este texto, encontro-me em posição privilegiada para entender quão gratificantes humanamente podem ser uns pulos por cima de um qualquer equador.
      Muito obrigado por tudo.

  3. Olá José, boa noite!
    Sabes, eu gosto particularmente desta tua estória. Faz-me sempre pensar na ténue linha entre a realidade e a loucura. Lindo, mesmo.
    Beijos e obrigada por teres aceite colaborar conosco!

    • Luísa, olá e bom dia. Antes de tudo: obrigado, mas obrigado mesmo, pela surpresa. Depois: o convite para aqui estar foi e é motivo de alegria, sinto-me entre amigos. Por fim: ténues linhas, como tu muito bem lhes chamas, são excepcionalmente úteis para a difícil, mas muito bem remunerada, arte do equilibrismo. Um beijo, minha querida e, mais uma vez, os meus agradecimentos pelo convite.

  4. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Não é preciso ser louco, mas, de quando em vez, despertar o menino que somos e, então, desmagnetizados e encantados pela anulação das forças de polos opostos de uma linha imaginária, sentirmo-nos livres, menos duros e coerentes.
    Nesse instante, ávida e infantilmente, vamos saborear a surpresa que nos vem aos dedos, ao enfiá-los na cobertura de um bolo de nozes.
    Quiçá, nessa dedada, trazer junto, um pouco de recheio de baba de moça…

    • Olá Sérgio, bom dia e obrigado pela opinião e presença. Apreciei muito este seu comentário. Recordou-me as ligações intimas e não perigosas entre baba e loucura. Foi uma interessante reflexão, feita com um sorriso cúmplice, motivada pelas linhas que aqui deixou. Os meus agradecimentos. Um abraço e bom fim de semana.

  5. letitiamorgan on said:

    Muito interessante e reflexivo o seu texto! Concordo com o Sérgio.

    • Olá Letitia, como está? Muito obrigado pelas suas palavras para com o texto. Vindas de si, cujo trabalho sigo com atenção, assumem um significado especial.
      Tem toda a razão, o comentário do Sérgio foi de enorme qualidade. Um abraço para si.

  6. Uma linha imaginária ….. que divide o sul do norte …..as vezes nem tão imaginária.

    • Olá Joselito, boa tarde. Julgo perceber o que quer dizer. Felizmente, e só para dar
      o exemplo do próprio texto, já não há militares portugueses em ilhas equatoriais.
      Felizmente, também, nos é permitido, a mim e a si, falarmos e comunicarmos por
      este meio, fenómeno muito recente que não estava ao alcance dos nossos pais. O
      mundo está hoje mais pequeno e tenho a convicção que o estará cada vez mais. É sem me esquecer da nada, porque convém não esquecermos para não repetirmos, que me parece que se quisermos derrubar linhas, imaginárias ou não, dificilmente encontraremos melhor arma para o começarmos a fazer que esta: comunicação.

  7. Olá!
    Meu querido amigo Sousa, com “s”, já que a maioria por aqui se grafa com “s”. rsrsrs
    Confesso que me vi dentro de um conto machadiano…
    Bom, muito bom!
    Beijão

    • Minha querida Beth! Que alegria ter-te aqui. Machado de Assis irá perdoar-te, com certeza. Tens sempre olhos tão benevolentes para com o que faço. Muito obrigado por isso e por todo o resto. Um brande beijo.

  8. Quão reais podem ser estas linhas, que dividem ou separam em graus de distância , o que numa brincadeira, “uns meninos” saltitantes podem unir? São como minhas pontes( que adoro fotografar e imaginar) e nas quais podemos nos encontrar, quando queremos diminuir as impossibilidades. Que bom ter reservado momentos para estas leituras hoje – de seus textos e também dos comentários. Adorei vê-los brincar, ainda mais hoje, que estou a revisar meus contos infantis! Não é sempre que podemos ver armaduras postas de lado e o riso solto da alma. Até eu ousei saltitar aqui e experimentar um naco desta traquinagem de aparecer de surpresa, num lugar ou outro….rs….

    • Olá Vera, bom dia. Não a sabia autora de literatura infantil, que agradável surpresa.
      Como é bom poder contar, para além da delicadeza e sensibilidade, também com a sua assertividade. Sempre gostei muito da palavra traquinice, traquinice como ponte, lá está, para o mundo das paixões e depois, com muita sorte e talvez algum talento, para o universo dos afectos. É verdadeiramente um privilégio conhecê-la,
      Vera. Um grande beijo e bom domingo.

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