Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Haja Paciência

Pescaria

Por Ivani Medina

Marcaram cedo no cais. Era um passeio para conhecer os lugares dos pesqueiros que o veterano Alcides os havia indicado. O barqueiro que habitualmente o servia os conduziria no ilustrativo recreio. Quase todos chegaram ao mesmo tempo, com exceção de Alberto. Imaginando o grupo completo, o barqueiro lhes perguntou se podiam partir.

─ Por favor, meu amigo, um minutinho porque o atrasado deve estar chegando.

Como eles não iam pescar, o mar tem horário, ninguém se importou muito com o atraso porque havia passado poucos minutos da hora combinada. Nem sombra do carro de Alberto no estacionamento do clube, que dava para se ver do cais.

─ Só podia ser ele mesmo.

Disse um deles sorrindo.

─ Ele é sempre assim ou será que nós estamos ansiosos demais?

Perguntou o novato no grupo.

─ Deixe-me ligar para o celular dele. Decidiu Gentil.

─ Então, meu caro imperador, já tomou seu cafezinho? Nós estamos aqui a sua espera. É? Tá bom, mas anda logo.

A resposta era esperada. Mais uma das habituais desculpas esfarrapadas. Gentil sabia que Alberto sempre se preocupava mais com as desculpas do que com os horários. Limitou-se dizer aos demais que ele estava a caminho. Alberto era assim em tudo, o próprio desmazelo ambulante.

─ É um cara meio avoado, mas é um ótimo sujeito. Os defeitos dele só prejudicam ao próprio.

Ponderou Gentil, responsável pelo convite ao Alberto, torcendo para que o amigo não embaçasse a sua imagem naquele grupo de pescadores amadores.

O sacana do primo do Alcides, Neneco, não perderia a chance de alfinetar o Gentil de modo algum. Havia um antigo ping-pong de amabilidades entre eles por causa da disputa pela atenção de uma moça, na qual Neneco saiu perdendo.

─ Gentil, esse seu amigo não é aquele que esquece tudo? Sei não, pra mim esse cara sofre de alguma disfunção neurológica.

O pior é que Neneco tinha razão. Por mais cautelosas e sugestivas que fossem as recomendações ao neurologista, da parte de parentes ou amigos próximos como o Gentil, o teimosos do Alberto se ressentia.

─ Eu não estou maluco nem com problema algum. Isso é coisa da cabeça de vocês e não da minha, ora.

Claro que o no caso dele se misturavam o medo de que o médico identificasse alguma anomalia, estupidez, falta de educação, maus hábitos, egoísmo e outras tantas coisinhas miúdas ou comumente graúdas, que numa pessoa sem aquela dificuldade especial não sobressairiam tanto.

As histórias de Alberto sempre surgiam nas rodinhas de fim de semana no clube. Os mais achegados procuravam defendê-lo na medida do possível, porque chegava uma hora que não se continham no riso. O fato era que o comentado não parava de dar motivos. De tão absurdas, mesmo as falhas mais antigas tinham um ar de primeira vez e o pau comia: se ele abria uma gaveta, não a fechava; se abria uma torneira, não a fechava direito. Fazia aquele movimento com displicência sem verificar o resultado; se derrubava algo no chão, não pegava; quando botava algo sobre uma mesa, distraído com a conversa, não verificava se os limites da mesa haviam terminado ou não. Caiu, caiu. Quando Alberto chegava à mesa no bar todos se apressavam em segurar copos e garrafas etc. Que motivo um cara desses teria para ser pontual? Nenhum.

Alberto morava numa casa tipo apartamento com um jardinzinho na frente e um muro baixo o separava da estreita calçada. Uma das suas crianças resolveu plantar de brincadeira um caroço de manga lá. A planta pegou e começou a se desenvolver. O vizinho quando percebeu o fato disse a ele que seria melhor remove-la e plantá-la em outro lugar, porque mangueiras crescem muito e rápido, as raízes se aprofundam e depois ficaria difícil removê-la. Só matando com ácido, o que seria indesejável. O aconselhamento amigo entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Nem com as reclamações dos passantes ele se importava. Alberto só foi tomar providência depois que teve que pagar uma multa imposta pela prefeitura, pois nem com a intimação ele se importou.

A cada minuto passado os comentários iam ficando mais ácidos e o Gentil já não mais fazia jus ao próprio nome, irritado que estava com o incorrigível amigo. Ás vezes ser amigo é mesmo um ato inglório, pensava ele. Então, se viu na obrigação de tomar uma atitude contra o amigo que não sabia dizer não. Mas que diferença a ciência daquilo faria para o grupo e naquelas condições?

─ Olha gente, vamos deixar esse cara pra trás porque isso já passou da conta. É falta de respeito mesmo.

Aliviados com a decisão aguardada, pois ninguém cometeu a indelicadeza de apressar a atitude do Gentil, desceram os degraus do ancoradouro que levavam ao barco. Acomodaram-se e quando o barqueiro soltou as amarras e acelerou o motor, quem surgiu correndo deixando um pequeno embrulho cair da mochila mal fechada? Alberto.

─ Ei, espera aí! Pra quê essa afobação toda? Ora porra!

O desejo de vingança era geral e uma lição ficaria para ele.

─ Esquenta não Alberto. Vamos só dar uma voltinha pra testar o motor. Espere aí que a gente já volta.

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9 thoughts on “Haja Paciência

  1. Pingback: Ver! | Blog | Haja Paciência

  2. Ahahaha muito bom! Gostei do conto, as pessoas precisam realmente sentir na pele o que causam às outras, precisam viver as situações que fazem todos passarem, talvez assim aprendam com isso. Colocar-se no lugar alheio é necessário pra entender que o direito de um termina quando começa o do outro, só assim é possível viver em sociedade; mas aí já direciono a conversa a outro assunto. Bem, parabéns!!

  3. Ivani, estou farta de rir a imaginar a cara do Alberto! Mas eu desconfio que ele da próxima vez se vai esquecer outra vez… rsrs

  4. Ivani Medina on said:

    Sanfran

    É isso mesmo. Mas o pior é que mesmo assim, algumas absolutamente impossibilitadas da alteridade, se acham no direito de reclamar rsrsr.
    Abraço e obrigado.

  5. Ivani Medina on said:

    Luísa,

    Esse cara existe e é um pouco pior rsrs. Tens toda razão, ele esquece mesmo. rsrsrsrs
    Obrigado e abraço.

  6. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    É certo que esse Alberto merece uns contras, mas será que os outros mereceriam sair sem ele?

  7. Ivani Medina on said:

    O merecimento é também uma questão de ponto de vista.
    Obrigado pelo seu comentário e leitura.

  8. letitiamorgan on said:

    Bem, foi uma lição e tanto! rsrs

  9. Então, Letitia
    só pra divertir. rsrsrs Obrigado e um abraço.

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