Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

O Sorriso

O sorriso

Por Letitia Morgan

Ela falava e sorria num pequeno grupo de raparigas e rapazes, que, sentados à sombra de um grande carvalho, aguardavam o toque da próxima aula. Inclinou-se e levantou a cabeça para responder a uma colega, que estava um pouco afastada. Então viu-o. Ele estava do lado de fora do gradeamento que vedava o jardim da escola, e olhava para ela. O seu coração parou, inchou de medo até não lhe caber no peito. Pensou que ia sufocar e deu consigo a desejar que a morte não doesse muito. Momentos depois a campainha tocou e a impressão de sufoco foi desaparecendo. Todos se levantaram e, entre protestos, palavrões e insinuações jocosas ao professor, lá foram para mais noventa minutos de aula.

O Sol já se tinha ido, mas a noite ainda não tinha chegado. Ela e o irmão, de nove anos, estavam na cozinha a preparar o jantar. A mãe chegou e deitou-se. Cansada do duro trabalho na fábrica, exausta da sobrevivência, costumava entregava-se a longas conversas e mexericos com as amigas, passava horas no café ou nalgum bar, e, quando estava em casa, via telenovelas ou dormia. Aos poucos foi deixando os filhos entregues a eles mesmos, tornou-se ausente e completamente indiferente aos seus problemas e limitações. As crianças faziam todo o trabalho que uma casa exige e, recentemente, tinham passado também a fazer as compras, pois a mãe considerou que a filha, de quinze anos, já estava suficientemente crescida para gerir a casa.

– Com mais um ano do que tu, já estava prenha de ti. – Costumava dizer. – Tiraste-me a juventude. – E a rapariga às vezes chorava sozinha a sua culpa, outras vezes revoltava-se sozinha e odiava a mãe.

A porta da rua abriu-se dando passagem a um homem pequeno e magro. Os seus olhos, cinzentos e frios, eram pequenos e redondos, dando-lhe ao rosto comprido um semblante cruel. Abriu a porta da cozinha. Ficou encostado à ombreira da porta a observar os filhos. Eles cumprimentaram o pai e continuaram as suas tarefas. O pai continuou a observá-los e dirigiu-se à rapariga.

– Hoje passei na tua escola.

– Ah…

– Não me viste?

– Não pai.

– Pareceu-me…

– Se te tivesse visto tinha-te falado.

– Pois… Não voltas a vestir nem as calças nem a camisola que vestiste hoje.

– Pai, mas são uns jeans normalíssimos…

– Têm a cintura descaída e não quero que pareças uma puta, como todas as outras, com a barriga à mostra.

– A minha irmã não é puta! – O grito saltou do rapazinho com uma ferocidade maior do que ele.

Em dois passos o homem chegou ao lado da criança, pegou-lhe no braço magro e encostou-o violentamente à bancada do lava loiça.

– Tu, tu, meu cabrãzinho, só falas quando alguém te perguntar alguma coisa. Ouviste? Eu não chamei puta à tua irmã, mas se eu quiser, chamo-lhe puta quantas vezes me apetecer. As mulheres são todas putas. Todas! Estamos entendidos?

– Tu tás sempre a chamar nomes à gente. E tu és bêbado e chulo, gostaste?

O homem olhou para a criança com ódio e começou a tirar o cinto das calças. A rapariga puxou o irmão e colocou-se à sua frente.

– Não lhe batas pai. Olha, a professora dele já andou por aí a perguntar coisas… porque é que ele anda sempre inchado e com nódoas negras… ainda vamos ter problemas… não lhe batas… desculpa-o, ele não volta a dizer, prometo…

– A professora que venha cá para o meu lado!… Leva também uma dose e ainda a fodo toda. Sai da frente, caralho! Sou eu que educo os meus filhos como achar melhor, não é uma badameca qualquer, nem uma putinha como tu, que me vão ensinar. Sai da frente ou vai tudo a eito. Estou a avisar!

E não avisou mais vez nenhuma. O cinto silvava no ar e deixava vergões vermelhos na sua pele, a cada grito de dor. A adolescente conseguiu acocorar-se a um canto, com o irmão todo encolhido à sua frente. O garoto soluçava e pedia desculpas à irmã de cada vez que ouvia o cinto cair no seu corpo.

– Desculpa mana… desculpa mana.

Ela queria gritar bem alto, para que a mãe e os vizinhos ouvissem, mas já só tinha forças para gemer. Ninguém lhe iria acudir. Desta vez morreria ali naquele canto. O cinto rugiu mais uma vez no ar, mas caiu na sua cabeça sem força, flácido, um simples bocado de cabedal que lhe afagou a nuca. Fez-se um silêncio aterrador, apenas cortado pelo barulho surdo de algo pesado a cair no chão. Por alguns segundos ela ficou naquela posição agarrada ao corpo franzino do irmão, que tremia convulsivamente. Depois virou o rosto a medo, e o seu olhar deparou-se com o corpo grande e bem torneado da mãe, que tinha na mão um cano de ferro. O pai estava enrolado aos seus pés, com a cabeça ensopada em sangue e os olhos cinzentos arregalados. Mortos e admirados. Uns olhos espantados com a petulância da sua puta.

De um momento para o outro a casa ficou cheia de gente. Ouviu sirenes na rua. Atrás dela uma voz calma pedia-lhe para largar o irmão e levantar-se. Outra pessoa tomou-lhe o pulso, depois, devagar, ajudou-a a levantar-se. Um polícia tentava acalmar o irmão e a mãe… a mãe continuava de pé a olhar para o pai morto. Sorria. Um sorriso largo, feliz.

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14 thoughts on “O Sorriso

  1. Olá Leticia, boa tarde. Penso que retrata muito bem o abandono que se propaga de geração em geração, e a que comportamentos patológicos isso nos pode levar. Parabéns e muito obrigado.

    • letitiamorgan on said:

      José, muito obrigada por comentar e pelo incentivo. Na verdade, se excluirmos os comportamentos excessivos, a violência doméstica é um facto tão comum em todos os estratos sociais, que chega a assustar.

  2. Letitia, simplesmente espetacular ! a leitura foi feita como se um punhal com a sua lâmina e fria penetrasse na minha emoção. Perdoe-me a repetição, espetacular !

    • letitiamorgan on said:

      António, muito obrigada por ler sempre os meus textos e por me animar a continuar a contar histórias.

  3. Pingback: Ver! | Blog | O Sorriso

  4. Letitia, não há como não sentir raiva, mas muita raiva mesmo com este conto.
    Parabéns.

  5. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Cena desumana, mais comum do que imaginamos, mas muito bem elaborada e retratada.
    Talvez o golpe dado pela mãe tenha sido uma forma dela própria redimir-se do que viveu em sua casa paterna, encolhida em um canto, lanhada pelos açoites que a acompanharam vida afora.
    Quem sabe, quantos golpes de canos pesados ainda serão necessários para sua total redenção, quantos cálices de sangue, até a rendição ao amor?
    Parabéns, Letitia.

    • letitiamorgan on said:

      Sérgio, sem dúvida que situações similares (excluindo o dramatismo da parte final que não é comum) são de uma banalidade confrangedora. As pessoas muitas vezes não se apercebem, mas a violência doméstica é um tipo de crime calado, em que o agressor, seja pela dependência económica do agredidos, seja pela dependência afetiva, aliada à sua fragilidade física ou psicológica, se sente seguro e se torna cada vez mais agressivo.
      Muito obrigada por ler e comentar.

  6. O sorriso da liberdade…
    Forte e emocionante e cruel – a realidade, tão bem retratada por você.
    À primeira leitura, o impacto!
    Mesmo impactada, devo dizer-lhe: Maravilha de conto.
    Parabéns Letitia.
    Indicado, compartilhado e espalhado.
    Beijão.

  7. Cara que texto Mais demais Beth Muniz!!!
    Parabens!!😀
    http://www.libertandoogenio.com.br

  8. Essa é uma realidade que não pode ser calada.

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