Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

A Moça da Tarde

A moça da tarde

Por António Macedo

Descalça, ela caminhava parecendo flanar, a despeito de seus passos delicadamente decididos, seguia em frente subindo a avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. Seria lugar comum dizer que os raios de sol daquela tarde, iluminavam profusamente os tons levemente dourados de seus cabelos castanhos cacheados, mas era isso o que acontecia. Seu vestido leve e simples de suave estampa, balançava  de forma pudica, a cada lufada de vento. Sua pele era de um branco levemente rosado, suas pernas bem torneadas sustentavam um corpo harmoniosamente belo, como bela era a aura de magnetismo daquela jovem, que resoluta continuava na sua caminhada. Próximo ao cruzamento da rua Santa Luzia, um senhor já entrado em anos, realizou uma manobra arriscada para a sua idade, voltando-se de um só giro para melhor poder observá-la, e instintivamente passar a segui-la. Nas escadarias da biblioteca nacional, duas senhorinhas que para lá se dirigiam, estancaram para contemplar a moça descalça, e de pronto passaram a fazer parte do já pequeno cortejo, que a seguia a uma distância respeitosa. Na travessia da avenida Nilo Peçanha, o guarda de trânsito apitou para que os carros parassem e o séquito continuasse em frente, que agora além do guarda arrebanhava os rapazes e moças dos escritórios das proximidades, que esquecidos de suas tarefas e mandos iam se juntando a pequena multidão que se formava. Em dado momento alguém chamou a atenção do grupo, ao notar que os raios de sol, independentes dos obstáculos dos prédios, incidiam diretamente sobre a cabeça da jovem mulher, e todos se admiraram em exclamações de êxtase coletivo. Era uma grande aglomeração de pessoas que agora a seguia, os carros paravam na avenida e seus condutores abandonavam os veículos com as portas abertas e os motores ligados, para se juntarem ao grupo, as lojas de comércio iam ficando vazias por falta de fregueses, todos engajados que estavam naquela marcha, ninguém sabia determinar a razão, mas naquele momento lhes parecia que esta não era necessária. A bela moça descalça  atravessou a praça Pio X, e foi se encaminhando em direção as escadas da Catedral da Candelária, ao chegar no topo das escadas, parou na porta da igreja e se ajoelhou com o rosto voltado para o interior, ato reflexo toda aquela multidão de milhares de pessoas, a imitou, se ajoelhando aonde dava para fazê-lo, ordeiramente e em silêncio absoluto. Ela ficou assim por alguns minutos, findo os quais, levantou-se e olhou em direção as pessoas, que aos poucos também iam se levantando, seu rosto irradiava um halo de bondade, seus olhos denotavam alguma tristeza, acenou suavemente  para as pessoas para depois entrar na Catedral.

A noite já ia alta, quando o zelador da igreja começou a cerrar as portas e uma pequena multidão permanecia atônita e sem entender o que tinha acontecido naquela tarde, pouco a pouco, o grupo foi se desfazendo, as pessoas tomando os seus rumos interrompidos, seguindo em pequenos grupos pelas ruas centrais da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Single Post Navigation

7 thoughts on “A Moça da Tarde

  1. Pingback: Ver! | Blog | A Moça da Tarde

  2. Belo conto, parabens!

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Certíssimo, António.
    A mágica luz do sol iluminou a bela, nesse palco de ânsias por débil estrelato.
    Assim, os sem-luz, diante da opressão da cidade grande e da multidão enigmática, seguem a bela, fazem-na deusa e tudo se decanta naquelas mentes ansiosas, como santidade, para a mais cômoda idolatria dos perdidos.

  4. Olá António, boa tarde. Fazes a beleza passear pela cidade, parando-a. sabemos que isso é raro. Forte abraço.

  5. Uma bela Madona e sua procissão…
    Belíssimo Antonio.
    Um abração.
    Curtido e compartilhado.

  6. António, e assim se criam os mitos e as identidades dos lugares. Muito bom, meu amigo.
    Abraços

  7. A noite já ia alta quando passei por lá e perguntei sobre o acontecido. E compreendi porque todos queriam caminhar com ela, em sua leveza. Me lembra vagamente alguém…nunca mais vi…onde estará?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: