Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Quero odiar-te, Minerva

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Por Jorge Bogalheiro

Não sei quantos mandei para o fundo da minha boca. Um a um, ansiolíticos dão sabor à minha saliva que salivava por ti. O génio. O poder. Eu. Sempre Eu a salivar por ti. Paro. Olho em redor. Estou a sós com as tuas sombras. Fazemos uma orgia. Fodo-as a todas. Atiro-as contra a parede e violo-as. Estão encharcadas de mim. Mas não me olham excitadas. Nem sequer me olham. Permanecem silenciosas.

Volto a olhar em redor. As paredes cedem. Iniciam mil metamorfoses. Parecem flutuantes. O meu coração dispara. As tuas sombras voltam e esfaqueiam-me. Atiram-me contra a parede e gritam que eu não valho nada. Tento rastejar até à porta e fugir. Terei forças? Não tenho forças. Pouco a pouco, estou cada vez mais fraco. Sinto um sono enorme. Apetece-me dormir ao lado das tuas sombras. Não quero fodê-las, mas fazer amor com elas. Imploro pelo teu nome e elas desaparecem. Deixam-me sozinho. Salivante. Sem ar. A morrer.

Quero odiar-te, Minerva. Mas só tenho forças para te amar.

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8 thoughts on “Quero odiar-te, Minerva

  1. Olá Jorge, boa tarde. Gostei imenso. Dei comigo a divagar sobre linguagem, veja bem que loucura, linguagem. A linguagem que talvez, de uma forma ou de outra, todos falemos. Muito obrigado.

  2. Palavras poucas, intensidade muita, jogas com as palavras, e o resultado é a excelência, condizente com a Deusa romana Grato pela oportunidade desta leitura contagiante.

  3. É, a Minerva dá luta, o seu espírito claro e lúcido não se compadece com sombras. Belo texto, Jorge.

  4. Pingback: Ver! | Blog | Quero odiar-te, Minerva

  5. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Minerva, como podes, ainda virgem, depois dessa noite de sonho?
    Saciei-me apenas de tua sombra, mas teus argutos pendores para a defesa, arte e sabedoria, apenas me devoraram, como teu pai o fez a Métis.
    Tu sabes como! Abre minha cabeça, com a precisão cirúrgica de Vulcano, e ponha-te dentro, a infernizar-me todas as noites, pois desejo gozar de amor, por tanto sofrer de ti.

  6. letitiamorgan on said:

    Excelente narrativa Jorge. Gosto de textos fortes e lúcidos.

  7. Uau! Rápido e forte, como fazer amor loucamente desejado …e depois, dormir.

  8. clara-mente on said:

    Belo texto, a retratar a intensidade e velocidade emocional, extasiante, com que se pode amar.

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