Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Apolinário

Homem com guarda chuva

Por António Macedo

O Ministério já tinha se mudado para Brasília, no Rio de Janeiro, o que restara dele havia virado secretaria, Apolinário não quis ir, ficou na secretaria. Figura insólita o Apolinário, sempre vestido com um terno preto, acompanhado de seu inseparável guarda-chuva, daqueles pequenos, retráteis, qualquer que fosse o clima ou a estação. Saía pela manhã de seu apartamento de quarto e sala em Copacabana, e ia para o ponto pegar um ônibus para a “repartição”, como ainda chamava o seu local de trabalho. Para se ter uma ideia de quem era o Apolinário, quando houve uma reforma na secretaria e uma consequente mudança de mobiliário, ele pediu para ficar com a sua grande e velha mesa de madeira escura, por cima dela muitos papéis nas caixas de despacho além de um suporte repleto de carimbos de diversos formatos e tamanhos, que exibia orgulhosamente. Era nesta mesa que Apolinário pacientemente costurava com barbante, grossos processos encapados em cartolina, com a sua letra miúda e certa acrescentava informações que considerava serem a razão de sua existência, finalizando com uma carimbada de “cumpra-se”, seu número de matrícula e rubrica, momento que saboreava com um sorriso quase que imperceptível em seus lábios.

Na repartição diziam que ele tinha plaqueta de ativo fixo, que era considerado móveis & utensílios, a essas brincadeiras respondia com o mesmo sorriso silencioso e tímido. Certa vez um rapaz que trabalhava no centro de processamento de dados, as voltas com uma perda de arquivos, resultado de uma manutenção desastrada no sistema, foi orientado pela chefia para que procurasse Apolinário, e dele obter as informações que tinham sido corrompidas, pois ainda deveriam existir os originais, e neste caso só ele poderia ajudar.

– Está na caixa arquivo 1.001.317 – A, é o terceiro volume da esquerda para a direita, no armário 37.

Disse com zelosa satisfação para o estupefato rapaz.

Era solteiro, tinha por volta de 65 anos, não tinha se casado, muito menos tivera filhos, no passado algumas colegas linguarudas chegaram a colocar a sua masculinidade ou a falta dela, em dúvida.

– Esse Apolinário, sei não ! Mais de quarenta anos e ainda não se casou. Você não acha ele meio efeminado  ?

Mas não era, as primícias de seus amores não vingaram, ele desistiu após algumas tentativas infrutíferas, não era para ele, talvez o seu destino fosse o de não deixar sementes. Vivia fora de seu tempo, via as modernidades com desconfiança, vivia recluso, não tinha amigos, mas não fazia mal sequer a uma mosca. Na própria repartição quase nenhum colega o notava, e quando o faziam era para brincar com o jeito esquisito dele, alguns falavam que ele tinha se aposentado a muitos anos, mas que as chefias foram sendo trocadas sem terem tido tempo de perceber a sua infinita permanência. Outros mais maldosos, diziam que ele já tinha morrido há muitos anos atrás, e voltava diariamente com a mesma roupa ao trabalho, o chamavam de “O fantasma do ministério”

– Menina, olhe como o Apolinário está pálido ! Ai meu Deus !

Chegava em casa após o trabalho, guardava a sua pasta e o seu guarda-chuva no roupeiro, na cozinha fazia um lanche frugal e sentava-se para assistir o tele-jornal da 8 horas da noite, quando este acabava, apagava as luzes e sentava-se em uma cadeira colocada próxima a janela de seu quarto, e ali protegido pela penumbra, olhava para os apartamentos do prédio em frente ao seu. Na senhora viúva do 603, que assistia a novela na televisão, reconhecia a sua amada esposa. Para as duas moças do 401, que vieram do interior para fazer faculdade no Rio, e que agora estudavam, lançava olhares amorosos de  pai. No velho casal de portugueses aposentados, moradores do 302, que viviam a escutar música e a dançar entre goles de vinho e gargalhadas, via o casal amigo de muitas noites alegres. Tudo aquilo que a vida não lhe tinha permitido era concretizado nestes momentos, como, se escritor de uma peça teatral, tivesse o poder de decidir os diálogos e de criar as cenas com as tonalidades que lhe haviam sido negadas. Quando as últimas luzes se apagassem, Apolinário desejaria boa noite a todos, daria um beijo em sua esposa imaginária, agradecido pela amorosa convivência, e se recolheria a sua cama, quando então sozinho em seu mundo de sonhos, agora plenamente vividos, dormiria, aguardando  um novo amanhecer.

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13 thoughts on “Apolinário

  1. Pingback: Ver! | Blog | Apolinário

  2. Espetacular, António! Fez-me lembrar a minha primeira chefe, Dona Helena, esta viúva desde jovem, sem filhos, uma excelente pessoa, mas cheia de manias que uma garota de 18 anos não compreendia!

  3. Ivani Medina on said:

    Mais uma beleza do mestre. A solidão conformada, habituada, fantasiada é o comum na existência humana. Às vezes, por mais gente que se tenha a volta. Parabéns pelo singelo retrato.

  4. Antonio, boa tarde. Diria o seguinte: ainda não me tinha sido possível esquecer este teu texto. Não será de admirar, pois a forma como desenvolves este tema, o encasulamento pelo encasulamento, o medo que a lagarta tem da borboleta, pois esta significará sempre a sua morte, criou-me, já na altura, um sentimento algures entre a ternura e a tristeza que revivi agora. Obrigado pelo teu talento. Um abraço.

    • Boa tarde José
      Este pequeno conto foi baseado em pessoas reais que eu tive a oportunidade de observar quando morava em Copacabana, eles e as suas vidas misteriosas e solitárias, me instigavam, fiz amizade com vários, eu era apenas um garoto, mas confesso, ficava maravilhado com aqueles relatos de vida. De resto, só agradecimentos pelas suas palavras encorajadoras e bondosas.

  5. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Parabéns, Antônio.
    Acredito que sejamos todos Apolinários, em relação aos nossos universos particulares.
    A vida regada a testosterona e progesterona fresca, muita vez, impede que os jovens priorizem o olhar para o universo dos mais vividos e, a injustiça já está feita com o outro, enquanto a grande oportunidade e riqueza do convívio se lhes escapa.
    Assim, os mais tímidos, assim como os mais esquizofrênicos passam a achar mais graça nos astros do seu universo interior ou nas vozes que os aplaudem, conquistam e os levam para além da multidão, numa vida solitária ou de pura fantasia.

  6. Puxa, que triste! Eu me sensibilizei com os sonhos que ele não conseguiu realizar e com a frieza dos colegas de trabalho. Ele não tem um único amigo sequer… apesar de que conheço gente rodeada de pessoas e frustradas com suas vidas solitárias e infelizes. Assim como conheço quem seja só e de bem com a vida. Belo texto!

  7. letitiamorgan on said:

    Se eu fosse o Apolinário, ria-me de todos, aliás, a narrativa faz-me imaginar que era o que ele fazia intimamente, pois afinal era um cavalheiro.

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