Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Miguel e Amália

Amor

Por António Macedo

Viera de Portugal com 14 anos, deixara para trás a família e as saudades, os tempos estavam difíceis por lá, chegara no porto do Rio de Janeiro trazendo apenas uma pequena mala, com poucas peças de roupas e muitos sonhos, o tio distante atendera um pedido de seu pai, e o receberia no Brasil, lhe daria moradia e trabalho numa padaria de sua propriedade, localizada na Praça da Bandeira, próximo ao centro da cidade do Rio de Janeiro.

No princípio havia sido muito difícil para Miguel, as saudades da mãe, da terrinha, como costumeiramente se referia ao vilarejo em Trás os Montes em que nascera, a dureza do tio, que o fazia trabalhar desde as 4 horas da manhã para preparar a primeira fornada do dia, até as 10 horas da noite, mas servira para endurecê-lo ainda mais, acrescentou a sua forte têmpera, a vivência destes tempos e a realidade da dura vida numa grande cidade do novo mundo. Para dormir o tio lhe dera uma lona para que fosse colocada sobre uma pilha de sacos de farinha, e ali o corpo de menino descansava do trabalho de homem feito.

Lembrava-se de tudo como se tivesse acontecido ontem, ali estava ele, 50 anos depois, a olhar para a mesma pilha de sacos, na mesma padaria da Praça da Bandeira, mas que agora era sua, juntamente com outras 16 padarias, que iam de Ipanema até os subúrbios da cidade. Miguel que agora beirava os seus 65 anos, estava rico, fruto único de seu trabalho incansável, de suas economias formadas por anos de privações e principalmente pela sua forma de administrar os seus negócios, sempre fora duro e justo com os seus empregados, os que faziam “corpo mole”, considerava um bando de mestiços conversadores e preguiçosos, os que como ele, trabalhavam bastante, ganhavam o seu respeito e consideração. Mas o paradigma de que “Os porcos só engordam aos olhos do dono” o  faziam correr durante todo o seu dia,  as sua padarias, a verificar os movimentos de caixa, a qualidade dos pães e confeitos, e a quantidade de farinha e de outros materiais  gastos para fazê-los.

Casara-se com Amália, ainda custava a acreditar que o tivesse conseguido mesmo passado tantos anos, os pais de Amália vieram de Lisboa para montar uma firma importadora e um atacado na Rua do Acre, seu sogro tinha assento numerado na Bolsa de mercadorias do mercado São Sebastião, e é claro que fora contra o casamento, por achar Miguel inadequado para a sua menina, que fora mandada estudar na universidade de Coimbra, era inteligente e educada, e para acrescentar era uma criatura meiga e recatada. Mas o sogro alfacinha se rendera a uma gravidez inesperada, e resignado aceitou, para os seus pares no mercado dizia que seu genro era iletrado, rude, mas muito trabalhador. Dizia isso com uma ponta de ressentimento, que carregou até a sua morte.

Desta união, nasceram Rafael e Clarisse,  moravam numa bela e confortável casa na Ilha do Governador. Rafael puxara ao pai, tanto na semelhança física quanto nos modos brutos, trabalhava em uma das padarias, e era repreendido por Amália quando seu comportamento era por ela julgado descortês, já Clarisse era a própria mãe quando jovem, bonita, tímida, inteligente e extremamente meiga ao lidar com todos, do pequeno cão de estimação da casa a toda e qualquer pessoa que viesse com ela a conviver, dos empregados da casa a visita mais ilustre. Miguel e Amália eram um casal que fazia das diferenças a plataforma sólida de um casamento estável, Miguel quase sempre voltado ao trabalho e ao trato com os problemas dos seus negócios e Amália com a sua doçura habitual a lembrar-lhe que ele já estava em casa, quando ele ainda irritado com alguma coisa que ocorrera durante o dia, fechava a porta com um estrondo ao entrar.

 – Miguel, meu querido ! você chegou, que bom !

Amália conseguia neutralizar o temperamento forte do marido, e ele sabedor deste poder que a esposa possuía, não se aborrecia, pelo contrário, ansiava por aqueles momentos de tranquilidade de convivência no recesso de seu lar.

Mas ventos de tempestade se avizinhavam da casa dos Pereiras, uma noite ao chegar, Miguel sentiu que alguma coisa diferente pairava no ar, mas não soube identificar com precisão, Amália o recebeu mais carinhosamente do que era de costume, deu-lhe um beijo mais demorado, e o conduziu até a mesa para o jantar. As crianças, como Amália insistia em chamar, Rafael de 20 anos e Clarisse de 18, já tinham jantado, dissera ela. A conversa correu amena, ela querendo saber de como tinha sido o seu dia, e ele embevecido pelo interesse carinhoso, esquecido daquela sensação inicial de desconforto, quando chegara. Miguel amava a sua mulher, sabia das diferenças, principalmente da intelectual, mas não se importava, pelo contrário, ficava feliz em vê-la nas reuniões de amigos falar com desenvoltura e obter a atenção de todos os interlocutores, em seu canto, olhava para ela a falar, os ouvintes atentos, e a sua admiração aumentava.

Findo o jantar, ela o conduziu até a sala de estar, aonde já se encontravam Rafael e Clarisse, ele de pé, encostado no arco da entrada, com um olhar assustado em direção ao pai, Clarisse sentada no sofá, com a aparência de quem havia chorado, com a cabeça baixa olhando para o nada.  Miguel, repentinamente tem a sua impressão anterior confirmada, e esquecido de que já saíra do trabalho e estava em casa, pergunta:

 – Qual é a merda que está a acontecer ?

 – Calma Miguel ! Olha a boca, tu estás em casa !

 – Mas… o que houve então ?

 – Sente-se para podermos conversar.

 – Não, vou ficar de pé, diga-me logo ó Amália.

Amália vendo que não conseguiria acalmar o seu marido  mais do que aquilo, diz, procurando dar uma entonação calma e contornos de naturalidade:

 – Clarisse está grávida !

O mundo dele parece desabar, fica tonto, cambaleia, é amparado por Rafael, mas se recupera e afasta o filho com um safanão, e grita, literalmente a cuspir as palavras:

 – Quem foi o ” filho da puta ” que fez isso com a minha menina ?

 – Temos que ter calma, eu sei que é difícil, mas vamos tentar resolver tudo isso da melhor forma possível, disse Amália.

Sentada, Clarisse permanecia com o olhar voltado ao chão, e instintivamente, após os gritos do pai, protegia com as duas mão o seu ventre, apesar de nenhum volume aparente justificasse esta ação, que não a da mãe a proteger a sua cria.

A discussão que havia iniciado em altos brados, tinha sido devidamente controlada pela mãe, neste momento um misto de decepção e mágoa permeava o ambiente, fazendo com que estes sentimentos ficassem quase palpáveis no ar.

 – Quem foi ?

– Ela não quer dizer agora. 

 – Como não quer dizer … ela vai dizer ! Fala Miguel, começando a desfivelar o cinto que lhe segurava as calças.

 De um salto, sua mulher se põe a sua frente, e com o dedo em riste apontando para o rosto do marido, fala:

 – Tu não se atreva, Senhor Miguel Pereira ! Se nela encostares a cinta, terás que fazê-lo também a mim !

Miguel parou, como que congelado pelas palavras dela, lágrimas brotaram em seus olhos, um choro convulso sacode seu corpo grande e forte, a despeito da idade ainda costumava carregar sacos de farinha nas costas, só para se lembrar dos velhos tempos. Amália abraça-o, consola-o, e ele entende os claros sinais que a esposa lhe envia, acalmando-se, senta-se ao lado da filha e abraça-a, se aconchegam, não se falam, apenas se tocam, o calor do corpo volumoso do pai aquece o corpo frágil e mirrado da filha.

 – Tudo há de se resolver. Amanhã conversamos, sua mãe está certa, agora vá dormir minha menina Clarisse.

Esta se levanta, olha furtivamente para o pai, e pede 

 – A sua benção papai.

 – Que Deus lhe abençoe, menina Clarisse.

Amália senta-se ao lado de Miguel, cúmplices na vida, o serão no sofrimento, esperarão amanhecer o dia, e junto com ele aguardarão as respostas que precisam e as decisões que deverão ser tomadas. Ficam ali abraçados, em abandono, um pouco mais envelhecidos, 

 – Como isto foi acontecer, Amália ?

 – Não sei Miguel, estou tão entristecida como tu.

E ali ficariam até se recolherem ao quarto de dormir, ao fazê-lo, Miguel repara no oratório que ficava na sala de estar, aonde tudo acabara de ocorrer, e que não tivera a oportunidade de observar anteriormente,  ali em meio as velas acesas pela católica Amália, as imagens de Nossa Senhora de Fátima e de Santo António de Pádua, silenciosamente tomavam conta daquela casa.

Do lado de fora da casa, do outro lado da rua, protegido pelas árvores e pela escuridão da noite que ia alta, Julinho chorava, por reprimir  a vontade  de estar lá dentro, junto de sua amada Clarisse, assumindo o fruto daquele amor que não escolhera o momento e que não vira as diferenças, as lágrimas que lhe correm pela face, tem um estranho e belo brilho, conferidos certamente pela incidência da luz do luar, em contraste com a sua jovem pele negra.

    

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7 thoughts on “Miguel e Amália

  1. Pingback: Ver! | Blog | Miguel e Amália

  2. Meu caro e clarividente Antonio, apenas uma palavra: bravo. Um abraço cheio de admiração pelo autor e pela pessoa.

  3. Ivani Medina on said:

    Que maravilha, Antonio. Agradeço-te também pela preciosidade na referncia aos locais que tão bem conheço e da vida que se desenvolve na minha cidade ou nossa, não sei. A origem portuguesa impregna nossas vidas desde sempre. Uma beleza, mesmo Parabéns.

  4. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Parabéns, Antônio.
    Muitas são as histórias que embalam nossas origens portuguesas.
    Meu pai era Nogueira, Pereira e também Figueiredo.
    Minha mãe é Carvalho, Silveira, Santos, Souza e também Werneck.
    Assim, vivendo há muito por aqui, talvez no passado, quem sabe numa dessas antigas fazendas de café, também não tenha havido entre tantos sobrenomes portugueses, um Julinho ou uma Sebastiana sem sobrenome, para temperar com mais humildade, carinho ingênuo e menos soberba, o endurecimento causado por uma vida honrosa de árduo trabalho?
    Afinal, qual foi o patrício que, recém chegado da terrinha, onde deixou todos os seus entes queridos, nunca sonhou com a companhia de uma bela morena sestrosa?

    • É verdade Sérgio, nossa história esta permeada de amores clandestinos, que geraram esta deliciosa mistura que se refletiu no povo brasileiro. Grato pelo comentário e pela sua participação.
      Um forte abraço

  5. Oi Antonio,
    Mais uma preciosidade que fez voltar a Praça da Bandeira, onde morei, e nas enchentes das águas de março, por vezes quase me afoguei.
    É isso!
    Portugueses que ajudaram a construir o Brasil com o suor do rosto, fruto do trabalho duro. Todo o meu respeito.
    Tenho um amor imenso por Portugal e sinto uma saudade doída, mesmo sem nunca ter estado lá…
    Obrigada pela preciosidade.
    Um abraço.
    Compartilhado.

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