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O atropelamento

o Atropelamento

Por Ivani Medina

Sexta-feira, 18h30min horário de verão, dia claro e lindo, chegar a casa e tomar um belo banho para depois ver se o paraíso lhe queria. É o normal nos fins de semana dos solteiros. Quando o paraíso os quer, aparece o que fazer de muito bom. Quando não, fica-se entregue às baratas pensando como poderia ter sido. Nada de muito imaginativo surgia na mente dele quando percebeu que o semáforo ia fechar. Consultou o retrovisor da moto para conferir o óbvio. Os automóveis aceleraram para não perderem a oportunidade. Foi obrigado a fazer o mesmo para não ser atropelado pelo que vinha logo atrás.

Arriscando a vida, ainda tentou desviar-se dela, mas a manete esquerda acertou-lhe o ombro. A velha rodou e caiu ali mesmo. Ele e a moto caíram mais adiante sob um “Oh!” em coro dos passantes. A vítima foi afoita demais ou pensou que o semáforo estava livre para ela.

─ Ai meu Deus!

Gritou uma mulher do gênero mais dramático, na expectativa de miolos espalhados pelo asfalto ou coisas do tipo. Não foi dessa vez. Apenas arranhões no rosto da senhora e cotovelo ralado no motociclista. Um acidente que nem merecia ser contado em casa. Levantando-se e ao mesmo tempo tirando o capacete envolvente que esconde e protege bem o rosto, correu a acudir à velha. Frentistas do posto de combustível que assistiram a tudo foram ágeis na solidariedade, e conduziram a moto e o capacete dele para o posto. Apavorado com aquela situação traumatizante, nunca havia atropelado ou causado ferimentos a ninguém, ajudou a velha a se levantar indagando sobre o estado dela com aflição.

─ A senhora está bem? Bateu com a cabeça? Poxa, seu rosto está sangrando um pouquinho, está doendo muito?

─ Estou bem felizmente, meu filho. Aquele desgraçado quase me matou. Ele não deve ter mãe não, uma praga dessas nasce não sei de quê!

─ Por favor, senhora, acalme-se. Vou cuidar de tudo direitinho, nem se preocupe.

─ Ainda bem que existe gente boa como você, meu filho. Ah, mas aquele desgraçado me paga! Ah, se paga!

Pediu licença ao gerente do posto para deixar a moto lá, enquanto conduziria a atropelada, de taxi, á sua casa. Prontamente o homem concordou e até providenciou o táxi. A solidariedade é algo bonito de se ver, especialmente porque ser algo instintivo. Embarcaram no táxi e ela informou ao motorista o bairro e a rua de destino. A mulher, já calma e agradecida, quis saber dele se tinha presenciado tudo. Ele balançou a cabeça afirmativamente enquanto ela nem sonhava em interromper seu discurso sobre a violência no trânsito e a brutalidade dos condutores de automotores. Sentindo-se melindrado, o motorista do táxi quis entrar na conversa para defender a categoria.

─ Mas o que houve com a senhora? Está zangada mesmo…

─ O senhor também estaria se fosse atropelado por desses playboys de moto.

─ Ah, eu também não gosto nada dessa raça! Fez sua média com a velha.

─ Sorte, pois a senhora parece bem.

─ Graças ao meu São Jorge.

─ Tinha polícia por perto?

─ Pra felicidade do desgraçado não. Mas alguém deve ter anotado a placa da moto. Depois meu filho vem se assuntar naquele posto. Ele que se cuide!

─ Ah, chegamos. Pode parar na entrada daquela vila ali.

Dona Antonieta, era o nome dela. Quando a atropelada e o atropelador chegaram à frente de uma brejeira casa amarela, uma mulher de meia idade sentada na mureta da varanda a alisar um gato, dirigiu-se a eles.

─ Mamãe, por onde a senhora andava? E quem é esse moço que lhe acompanha?

─ Boa-noite. Meu nome é Luis Eduardo. A sua mãe sofreu um acidente e eu vim acompanhá-la até aqui.

─ Ah, muito obrigado, Luis Eduardo. Entre por favor.

Depois de quase tudo explicado, dona Antonieta ganhou uma bronca da filha, do filho, da neta e da nora. Encheram os ouvidos da velha. A família não queria que ela andasse só, porque havia se tornado um perigo para si mesma. Catarata, desatenção e teimosia de idosos combinados nunca dão certo. A consciência do motociclista se viu livre de um peso imaginário, porque em momento algum ele havia falhado como condutor ou como cidadão. O café e o bolo inglês estavam ótimos e a neta da velha cada vez mais simpática, quando Luís Eduardo resolveu abrir o jogo para a sua vítima, a única que ainda não havia percebido o que se passava:

─ Dona Antonieta, família, já escureceu e eu preciso ir embora. Antes disso preciso também esclarecer uma coisa:

─ Dona Antonieta, aquele desgraçado que atropelou a senhora sou eu.

─ Ah, essa não. Está falando sério?

─ Sim, estou.

Confusa, a idosa ficou sem saber o que dizer. Abanou a cabeça e retirou-se para o interior da casa resmungando algo incompreensível que a família devia conhecer muito bem, pois todos desabaram em gargalhadas.

Luis Eduardo deixou um cartão com a senhora que alisava o gato e se dispôs assumir as despesas médicas, pedindo, por favor, que lhe dessem notícias da idosa acidentada. Mais do que solícita, a neta de dela se ofereceu para acompanhá-lo até a entrada da vila. Antes de ele tentar um bote naquele pedaço de netinha de mau caminho, talvez entusiasmada com a honestidade natural do rapaz, a moça sorriu maliciosa ao se despedir.

─ Então, vou ganhar um cartão também ou vou ter que pedir a minha avó pra dar mais uma voltinha por lá?

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8 thoughts on “O atropelamento

  1. Pingback: Ver! | Blog | O atropelamento

  2. Outro texto impecável, daqueles que nos prende a atenção, e nos faz torcer por um final feliz, principalmente para o Luiz Eduardo e a netinha simpática.
    Um forte abraço

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    É verdade, nem só de Facebook vive o networking humano.
    As avós também, sempre foram bons cupidos de suas netas…

  4. RodriguesBomfim on said:

    Muito bom o texto. Uma vez atropelei uma dona desatenta, atravessou a ciclovia repentinamente, o guidon da minha bicicleta chocou-se com o braço da véia que me xingou tudo que é nome impublicável, minhas mil desculpas não adiantaram de nada. Este Luis Eduardo teve mais sorte que eu, teve uma netinha dando mole pra ele.

    Abraços.

  5. Cecilia on said:

    Dona Antonieta não difere da maioria de vovós que são atropeladas em todas as áreas e nem percebem por quem..Ainda teve sorte de ser socorrida pelo mesmo e acompanhada até sua casa com devidos cuidados…ainda que desatenta..mas uma coisa é certa , o motociclista é bem atento não é verdade? rsrsrs…e a netinha da vovó também…

    Belo conto Ivani…Bjs

    Beijos Luisa

  6. Antonio, Sergio, Rodrigues e Cecília
    Muito obrigado pelo carinho de vocês com o nosso trabalho.
    Abraços.

  7. Hahahahaha!
    Lembra-me o inicio do filme O Ensaio sobre a Cegueira…
    Tem conexão?! Sei lá…
    Uma cena cosmopolitana e carioca. rsrsrs
    Muito bom, como tudo que leio por aqui.
    Beijão para as duas.
    Fui!

  8. Ivani Medina on said:

    Obrigado pelo seu comentário Beth. Não tem conexão com o filme e eu sou o Ivani e não “a” Ivani. Carrego este nome com contrariedade. Fazer o quê, senão esclarecer aos outros disto?
    Abraço.

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