Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Gélido

Photo by Anna Berkoz

Por Jorge Bogalheiro

Saí de casa algures no tempo. Olhei o céu, ele desprezou-me. Sorri e segui o meu caminho. Atravessei uma esquina, ninguém. Atravessei outra, duas gaiatas a falarem dos novos namorados. Outra, um moribundo a injectar-se. Outra, meia dúzia de miúdos cheios de futuro para a futebolada (em miúdos, temos imenso talento para tudo). A última, um rapazito a chorar sentado nos degraus de umas escadas normalíssimas. Aproximei-me.
– O que é que se passa, chavalo?
Ele olhou-me como quem olha o Diabo. Eu sorri imediatamente. Conhecia aquele olhar. Aquele olhar era o meu… Ele levantou-se penosamente e tentou prever-me os pensamentos.
– Achas que me podes ajudar? Ninguém pode. Nem Deus, esse filho da puta!
– Deus? Um velho conhecido meu.
E ri-me que nem um perdido. Acendi um cigarro.
– O que é que se passa afinal? Sabes que falar faz bem, nem que seja com o maior filho da mãe que existe. Mesmo sendo isso tudo, ele irá ouvir-te e mesmo que não te entenda, duvido que alguma vez to diga. Fala rapaz, fala como se eu fosse alguém, ou como se fosse ninguém. Faz como preferires.
– Ela deixou-me…
Previsível. Era tudo uma questão de saias, ou falta delas. Aproximei-me e coloquei-lhe a mão no ombro. O olhar dele tremeu, e afogou-se em melancolia.
– Deixou? Quem?
– A pessoa que eu mais amo, a pessoa que dava sentido aos meus dias…
Tive vontade de me rir, mas não.
– Ai foi?
– Sim…
– Só isso?
– Achas pouco, foda-se? EU AMAVA-A!
– Todos amamos alguém.
– Mas eu perdi-a…
– Também todos nós perdemos alguém.
– Mas eu preciso dela…
– Não, não precisas.
Olhei-o fixamente, olhos nos olhos, e senti-o sufocar.
– Mas…
– É assim o Amor. Nada se ganha, tudo se perde. Num dia tudo parece perfeito, no outro tudo acaba e julgas a tua vida uma merda. Partes tudo o que te aparece à frente dos cornos, desejas não morrer, mas desnascer.
– Mas eu não quero morrer, eu quero lutar por ela…
– E ela? Quer que tu lutes?
Ele não respondeu, mas eu sabia a resposta.
– Fode-te.
E virei costas. Chocado, ele chorou como se não existisse amanhã. Fui o maior filho da puta que pode existir, mas não havia mais nada que pudesse fazer. Não há cura para o Amor. Podia ser cínico e dizer-lhe que ele ia ultrapassar a dor que estava a sentir, que ia ficar tudo bem, mas estaria a mentir. Não vai ultrapassar. Vai doer hoje. Vai doer amanhã. Vai doer para sempre. Cada vez mais. E mais. E mais. E mais. Desculpa, não te posso ajudar. Nem a mim me consigo ajudar…

EPÍLOGO
Passaram talvez dois, três anos, ou talvez tenha passado uma vida inteira. Saí de casa. Atravessei uma esquina, ninguém. Atravessei outra, duas mulheres a falarem dos maridos que as traíam. Outra, um velhote a pedir comida. Outra, meia dúzia de empresários a disputarem uma partida amigável de futebol. A última, um vulto caído nos degraus de umas escadas normalíssimas. Aproximei-me. Ele estava morto. Sobre o peito dele, uma carta…

«Amor, eu não te consigo esquecer. Pensa em mim, por favor. Pensa em mim, eu preciso da tua atenção. A minha vida não faz sentido. Eu estou a cair. Eu estou a cair, amor. Foda-se, eu estou a cair. Eu estou a cair. Caio cada vez mais fundo. Imploro-te, volta para mim. Não me deixes. Fica comigo. Eu não aguento. Amor…»

Sorri. Deixei cair o papel sobre o defunto. Já escrevi esta carta tantas vezes, pensei. E segui o meu caminho.

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8 thoughts on “Gélido

  1. Pingback: Ver! | Blog | Gélido

  2. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    OS GÉLIDOS DE AMOR NÃO ENXERGAM AO PRÓXIMO, MAS AO DIABO EM CARNE E OSSO…
    O morto de paixão, as velhas gaiatas e o drogado pedinte, sempre mendigos do amor que nunca tiveram a si próprios.
    Os sem amor também envelhecem…
    É assim o amor, dá-se-o todo, quando se tem, mas não adianta pedir o que apenas se troca.

  3. Belíssimo conto ! o amor é efêmero e fugaz, quase sempre não correspondido, mas sempre o tentamos novamente, ainda que descrentes da possibilidade.
    Li de um só folego, reli com mais vagar, belíssimo conto !

  4. Sem dúvida um belo conto, a verdade nua e crua dilacera o coração, mas o dia sempre nasce e oportunidades podem surgir, só que um coração entristecido nunca as observa, às vezes leva tempo enquanto de outras o tempo passa e a vida acaba desperdiçada. Que pena! Bom para refletir e descobrir que o amor próprio, este sim, jamais poderá morrer…

  5. Ah, o amor, com ele sempre se tem a aprender. Quase nada a ensinar.

  6. Parabéns, Jorge.

  7. Van on said:

    Que belo conto!

    Mas , se me permite, penso que não é amor que faz doer, que mata, é o relacionamento, ou a falta dele, é o desejo quando muda de casa, deixa-se e passa a morar no outro, isso nada tem de amor mas das doentias formas do ser humano relacionar consigo mesmo e os seus desejos. Relacionamentos matam, amor não.

    Parabéns pelo texto tão bom, Jorge!

    Beijos Luisa

  8. Muito grato por todas as opiniões.

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