Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Mauro e a Piscina

Seminário Corupá

Por António Macedo

Era criança pobre, família humilde, a mãe, dona de casa esmerada, o pai, operário de indústria têxtil, aliás, a única indústria daquela pequena cidade do sul de Minas Gerais. A casa da família situava-se no alto de uma elevação, tinha uma visão privilegiada de toda a cidade, que se esparramava entre as ondulações do terreno montanhoso, mas Mauro só tinha olhos para o norte, não que ele fosse dotado de um senso magnético para percebê-lo, mais é que nesta direção ficava o seminário católico, edificado em uma construção de estilo indefinido, mas majestosa em seus tijolos vermelhos desbotados, suas altas torres e o jardim diligentemente bem cuidado, Mauro olhava inebriadamente para aquela construção, mas precisamente para a piscina que ficava no pátio interno, e que ele no verão via cheia de alunos em alvoroço em suas brincadeiras infantis, parecia em certos momentos, apesar da distância que os separava, ouvir o barulho das águas sendo agitadas.

– Mamãe, quero ser padre !

Dona Elvira quase deixou a louça que lavava cair de suas mãos, primeiramente pelo susto do súbito desejo do filho, e recobrada deste, maravilhada pela possibilidade de ter um filho entregue a Deus, seu próprio filho, pensou, ainda com uma leve taquicardia. Lógico que seu Carmindo deu o contra, mas eram os anos 50, existia uma dinâmica clara nos casamentos, o homem trabalhava e trazia o pão, a mulher administrava o lar e o futuro dos seus, ele acabou concordando.

Mauro começou a frequentar assiduamente as missas na Catedral, não que ele anteriormente não o fizesse, mas fazia-o agora verdadeiramente, de corpo como antes, mas com a alma de criança atenta ao ritual e a tudo que se passava no altar. Virou coroinha, ficou compenetrado, andava com o botão do colarinho fechado, não ficava mais de molecagem pelas ruas com as outras crianças, passava o dia recitando as ladainhas em latim e brincando de padre, diante de uma mãe extasiada. Não foi difícil para o pároco da catedral conseguir uma bolsa de estudos para o menino mauro Mauro.

Enxoval pronto nas malas, o sofrimento da mãe não era maior do que a alegria que ela sentia, pois falava insistentemente para todos que vinham se despedir:

– Não estou perdendo um filho, o estou entregando para Deus !

Ao ser encaminhado para o dormitório, passando pelo pátio interno, lançou um olhar comprido para a piscina, nunca em sua vida tinha estado tão perto.

Ao final do primeiro semestre de seminário, a par de uma disciplina rigorosa, muitas horas de estudo secular e religioso, agravado pela saudade que sentia da mãe, começava internamente a se questionar, percebendo assustado uma ansiedade e uma dúvida quanto ao futuro que ele mesmo tinha escolhido, mas quando chegava aos sábados tudo se renovava ao ´permanecer até quase o anoitecer, dentro da piscina. Entrava na água vagarosamente, gostava da intimidade carinhosa e sem pressa que molhava o seu corpo, sentia-se tomado por tremores, não de frio, mas de uma satisfação difícil de explicar, quando finalmente mergulhava até ao fundo, a nadar como um peixe, e aí começava a se esquecer das angústias  que o assolaram durante a semana, não tinha mais medo do futuro, incerteza quanto a sua vocação ou do que lhe aguardaria pela frente, e começava uma nova semana, quando novamente pensamentos de dúvida vinham permear a sua mente.

Dom Mauro Capistrano, acordou com um leve sobressalto, tinha dormitado na poltrona, possivelmente como resultado do lauto almoço de sábado servido minutos antes e pela sua digestão difícil, coisas da idade, pensou, ao mesmo tempo que ajeitava o solidéu carmim sobre a sua calva, pensava também com os seus botões, que não tinha se arrependido de sua escolha de menino, e saiu em busca do Cardeal D’Ambrosio, que por ser romano, saberia indicar próximo ao Vaticano, uma piscina para que ele pudesse nadar um pouquinho, ele estava a precisar.

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11 thoughts on “Mauro e a Piscina

  1. Ótimo. Foi nas águas de um simples desejo e deu certo.

  2. António, fiquei com a impressão que a fé pode nascer de desejos pouco divinos…🙂

  3. Antonio, tua descritiva do sitio onde o menino Mauro morava com a família, é tão perfeita e ricas em detalhes que consigo imaginar, cada curva, cada cor, devia de ser um lugar de muita paz…

    O que chamou-me atenção na história de vida do Mauro, é que mais uma vez afirma-se aquilo que cita o povo de que todos os caminhos levam a Deus, muitos religiosos discordam disso, mas eu creio que como somos seres singulares, nossos caminhos escolhidos para trilhar também o são, pois não importa exactamente o do porque, importa de como foi feito, como lá chegou no decorrer das passadas, o amadurecimento, o sentimento de que fez o que era por dever e direito fazer para ser feliz, que é isso que importa tratar de ser feliz com simplicidade, e sem o egoísmo dos atropelos.

    Outro facto foi quem muitas pessoas lamentam não terem realizados seus sonhos por motivo do lugar, do nível social, das condições financeiras, aqui nas entrelinhas vejo essa mensagem com clareza que: Que quando realmente desejamos algo, fazer ou ser, não importa as dificuldades, se acreditamos em nós mesmos e em nossos sonhos, conseguimos mais cedo ou mais tarde o alcançando, pois quando temos a absoluta certeza de que é isso, então, tudo colabora directa ou indirectamente para que possamos vencer, é certo que no trajecto há muitas dificuldades, mas como está escrito: “sem lutas, não há vitórias”.

    Muito bonito o registro do Menino Mauro que dar uma verdadeira lição de vida.

    Apreciei muito meditar em tua escrita e de estar aqui estreando-me no wordpress (risos)

    Um abraço fraterno em Ti, na nossa querida Amiga Luísa que tão generosamente compartilhou connosco tua obra no diHITT e outro na Ivani.

    • Sofia, minha querida, ficas desde já convidada a participares no Só Contos, sempre que queiras. Será um enorme prazer ter-te aqui como autora!

      Olha, eu gosto muito do wordpress, tem poucos bugs e é de fácil utilização (o que para mim é óptimo, pois está quase tudo feito… rsrs).

      Muito obrigada pela tua participação e um grande beijinho!

  4. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Água benta, a dessa piscina.
    Satisfaz desejos de sonhos infantis e desfaz as dúvidas do celibato e de todos os outros votos, todos difíceis de serem cumpridos, principalmente no silêncio de um rosário, rezado com fervor e dúvidas.

  5. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Quiçá, no Vaticano, dagora em diante, um cardinalato ou até o papado…
    Toda a força da fé, conseguida entre duros sacrifícios eclesiásticos e sucessivos batismos nas santas águas das piscinas da Santa Madre Igreja.

  6. Parabéns pelo Blog, gostei muito.Convido a participar de nosso agregador de conteúdo,começe a enviar seus links agora mesmo, te espero lá, abraço até + http://www.linksdahora.com

  7. Olá Antonio! Até apesar de duras provações para uma meta espiritual, e sob rígida disciplina, há que se considerar que somos corpo, e neste momento algo que não podemos deixar de levar em conta..rs… e o corpo, tem seus desejos de felicidade.. se realizados, chega-se mais fácil a santidade…rs…..
    Gostei muito .
    Abraço,Vera.

  8. ssrodrigues on said:

    Ora se essa não é uma ótima surpresa, Antônio! Estou seguindo esse blog a pouco tempo, tem contos maravilhosos e agora você está contribuindo também mais uma razão para visitar sempre.

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