Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

O Vestido Negro

Fotografia de Jean-Loup Sieff

Por Luísa L.

O despertador tocou. Marta levantou-se, e, enquanto o seu cérebro se adaptava à realidade, passou pelos quartos dos filhos acordando-os, sem sobressaltos, docemente. A sua filha resmungou um “só mais um bocadinho” e os rapazes nem se mexeram. Então, ligou o rádio no quarto da rapariga, beijou-a e destapou-lhe os braços para ela não voltar a adormecer. Abriu a janela do quarto dos rapazes, ligou o rádio, disse “Bom dia aos homens mais bonitos do mundo! Toca a acordar”.

Entrou na casa de banho e tomou um duche rápido. Vestiu o roupão à pressa e correu para a cozinha onde pôs tudo a jeito para o pequeno-almoço. Voltou ao quarto dos filhos e destapou completamente o mais velho, que protestou. Começou a vestir o mais novo, que, ainda ensonado, chorou porque não queria usar a camisola interior; ela acalmou-o e de seguida foram os dois para a casa de banho, onde Marta o ajudou a lavar a cara e os dentes. Voltou a destapar o filho mais velho, abanou-o e aumentou o volume do rádio; depois verificou a mochila do pequeno. Estava tudo em ordem. O rapaz mais velho levantou-se e foi para a casa de banho. Marta ouviu-o protestar:

– Que mania, porque é que fechas a porta à chave? Mãe, preciso de entrar nesta casa de banho e a Mariana tem a porta fechada à chave! Ó mãe!…

– Usa a outra, ou levanta-te mais cedo!… – Respondeu a voz abafada da irmã dentro da casa de banho.

– Preciso de uma coisa, abre lá!…

– Azar, bebé…

Marta ignorou-os, levou o pequeno para a cozinha e preparou o pequeno-almoço para os dois. Entretanto os filhos mais velhos já prontos para saírem, discutiam um com o outro. Enquanto as crianças acabavam de comer, Marta foi ao seu quarto e vestiu-se. Saíram e enquanto ela fechava a porta de casa, a filha carregou no botão do elevador, para não haver perdas de tempo.

Entram no carro e Marta contou até dez muito baixinho. Teria que enfrentar uma longa e desesperante fila de trânsito até chegar à escola do André. Os filhos mais velhos divertiam-se a arreliar o garoto mais novo com observações e histórias sem sentido, como faziam todos os dias. A criança começou a chorar e entre soluços exclamou:

– Mãe, eles estão outra vez a dizer que fui achado no caixote do lixo!…

– Já sabes que isso é patetice, fofinho. Nasceste da minha barriga, como os manos. – Respondeu Marta olhando ameaçadoramente os filhos mais velhos, pelo espelho retrovisor.

Finalmente chegaram. Marta ajudou a criança a pôr a mochila às costas e levou-a até ao portão da escola. Esperou que ela descesse as escadas e voltou a correr para o carro. Conduziu rapidamente até à escola dos filhos mais velhos. Eles despediram-se e saíram; Marta aguardou que determinada viatura chegasse ao estacionamento da escola, e depois saiu também. Dirigiu-se a uma mulher mais ou menos da sua idade e cumprimenta-a. Era a directora de turma da filha Mariana. Marta andava cismada com o comportamento demasiado aéreo da filha e precisava saber se estava tudo bem na escola.

– Fique descansada, para já a adolescência não está a interferir no desempenho da Mariana.

Marta agradeceu, respirou fundo e entrou apressadamente no carro. Parou em frente ao pequeno centro comercial do seu bairro e entrou.

Olhou-se na montra de uma boutique e não gostou da imagem devolvida. Dirige-se ao cabeleireiro e pediu à menina Tininha “um tratamento de choque”. A cabeleireira pôs as empregadas em alvoroço, ela sabia que a D. Marta raramente mudava o seu visual, mas quando o fazia era para parecer outra pessoa: cabelo, mãos, pés e pernas. Marta escolheu um loiro arrojado para os seus cabelos castanhos. Fez extensões nas unhas e pintou-as de vermelho escuro. Quando a cabeleireira terminou, olhou-se no espelho e sorriu agradada. Pagou apressadamente e saiu quase a correr. Agora não tinha um minuto a perder.

Entrou em casa e dirigiu-se ao guarda fato. Iria vestir aquele vestido preto, igualzinho a um modelo Pierre Cardin, o qual a sua modista tinha copiado na perfeição. Tinha até um chapéu de cor crua e preto, a condizer, para ocasiões especiais. Hoje iria usá-lo. Entrou na casa de banho e começou a maquilhar-se. Quando terminou, olhou-se ao espelho e sorriu com prazer. Sentiu que a beleza entrava na sua corrente sanguínea e percorria todo o seu corpo. Era bela e poderosa, era mulher. Calçou uns elegantes sapatos de salto alto e pegou numa pequena bolsa preta; abriu-a e verificou se estava lá tudo o que precisava. Saiu de casa, meteu-se no carro e conduziu até à cidade.

Estacionou o carro num parque subterrâneo e andou a pé cerca de cem metros. Sentia admiração e desejo no olhar das pessoas que passavam. Marta saboreou a sensação e continuou a andar. Parou no nº 17. Entrou no elegante e movimentado edifício e subiu no elevador. Saiu no 8º andar. Tocou a campainha de uma porta que foi aberta por um homem de meia-idade, alto e flácido. Marta entrou, o homem olhou-a dos pés à cabeça, sentou-se e comentou:

– Já mandei vir o almoço boneca! Senta-te aqui… – e deu umas palmadinhas na própria perna indicando o lugar onde ela se deveria sentar.

Marta sorriu-lhe encantadoramente. O homem olhou-a extasiado com os olhos gulosos. Marta avançou na sua direcção lentamente, num andar bamboleante e sensual, enquanto abria a bolsa preta. Com a rapidez de um ilusionista, colocou-lhe um revolver na testa, e disparou. O barulho foi abafado pelo silenciador, ouvindo-se apenas um pequeno estalido. Nem sujou de sangue as elegantes luvas pretas. Marta dirigiu-se à casa de banho e retirou alguns toalhetes de papel, com os quais embrulhou a arma. De dentro da bolsa preta tirou um pequeno saco de papel com asas de cetim, o qual desdobrou, pondo lá dentro o tosco embrulho feito com os toalhetes.

Regressou ao parque onde tinha o carro estacionado. Perto do seu carro estava um homem jovem com óculos escuros, ele segurava na mão um saco idêntico ao seu. Sem uma palavra, trocaram os sacos e Marta entrou na sua viatura. Olhou de relance para dentro do saco repleto de notas de 100€ e 50€. Estava tudo certo, como sempre. Pôs o carro a trabalhar e pensou vagamente que já não dispunha de muito tempo, teria de voltar a casa para trocar de roupa, ir buscar o filho mais novo à escola e depois levá-lo à natação.

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15 thoughts on “O Vestido Negro

  1. Fascinante ! pensei que ela era a “bela da tarde”, mas enganei-me, era a “assassina da tarde”, saborosa leitura com final inesperado

  2. Maravilha, Luísa. Adorei. Todos são pessoas comuns e pessoas comuns, somos todos.
    Parabéns.

  3. Sissym on said:

    Luisa, voce tinha que escrever um livro deste tipo de contos ! Mas é de grandiosa maestria na arte das palavras. Nem imaginava como seria o final e adorei. Logo me veio tantas coisas na cabeça, primeiro sobre frases dos filhos, irmãos, etc… situações, mudar visual (coisa que já fiz radicalmente)… nossa, mas ela é bem do estilo que vemos em filmes de ação. Acho que vc assistiu muito 007, Missao Impossivel, e muito outros do genero!

    Boazinha ela, não é mesmo?! rssss … há trabalho de tudo que tipo!

    Beijos

  4. Lu, se quiseres continuar, dá um romance, amei! Bjks

  5. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Seu vestido à la Pierre Cardin agradou-me, até pelos detalhes, mas ainda pendo para aquelas que matam de prazer e não por prazer…

  6. Oi Luisa,

    Lindo texto! Você conseguiu transformar o cotidiano em um belo passeio em um destaque da figura feminina contemporânea.

    Parabéns!

    http://lucianasantarita.blogspot.com/

  7. Uau Luíza, cheguei aqui e me deparei exatamente com aquilo que gosto: um bom suspense com fatos do cotidiano das pessoas. Amei e voltarei sempre que eu tiver um tempinho.
    Você está de parabéns, escreveu com tamanha habilidade, maestria e simplicidade que deu ao conto nada além do que a perfeição!
    Beijos.

    • Sandra, fiquei tão feliz por te ver por aqui! Há quanto tempo!…
      Vá, lá, desencanta-me um conto aterrador, dos teus! rsrs
      Grande beijinho e muito obrigada por vires até aqui.

  8. Pingback: O Vestido Negro | Contos e Crónicas | Scoop.it

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