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A Casa e os Sonhos

A Casa

Por Ivani Medina

Fim de casamento é sempre triste porque ninguém se casa para separar. Por mais piadas que se façam disso, leva-se um bom tempo até se achar, com muita boa vontade, graça naquilo que teve graça nenhuma. Havia se iniciado dezembro quando tudo apertou demais. Esses apertos vinham acontecendo havia algum tempo por diversos motivos. Acabaram por se tornarem insuportáveis e voltar para casa passou a ser um problema. Ele desejava menos do que ela que terminassem assim, no entanto, tomou a dianteira para não sofrer mais.

O Natal estava próximo e eles sempre gostaram daquela festa. Para eles não havia nela o sentido religioso de alguns, predominando o sentimento de família e amizade como um ótimo pretexto para um dia especialmente feliz. Era como se a felicidade completa tivesse um dia certo no calendário, pois assim havia sido na vida de cada um deles antes de se reencontrarem. Naquele ano a festa não seria nada boa para ninguém. Ela arrumou as malas e as coisas do filho, acomodaram-se no automóvel e ele os conduziu a uma cidade próxima, onde moravam os pais dela. De lá ele nunca deveria tê-la tirado.

Ao retornar a casa, telefonou para o pai para dar a notícia. Seu Abílio o convidou para que passasse o Natal com eles, seus pais. Agradeceu dizendo-se sem motivação para festas. Preferia ficar um pouco só e o pai entendeu. Alguns amigos mais próximos renovaram o convite e obtiveram a mesma resposta. Decidiu também que naquele final de ano não consumiria bebida alcoólica como de costume, pois queria olhar nos olhos daquela dor. Aliás, nunca mais se serviu delas, o que foi ótimo, já que o álcool nunca lhe fez bem.

Sentia-se como um fantasma naquela casa grande e vazia. Passar pela porta do quarto do menino, ainda com alguns brinquedos sobre a cama, era muito doloroso. Só conseguiu chorar três meses depois. Aquele tempo todo estivera emocionalmente de luto. Havia considerado a possibilidade da separação diversas vezes, até que juntou coragem suficiente. Era o mínimo que exigia de si mesmo.

Deitado sobre um dos bancos de pedra do jardim contemplava o céu limpo e estrelado daquela noite de dezembro. O vazio silencioso do cosmos se prolongara para dentro dele. O sonho de constituir uma família terminava assim: de frete para o infinito. Estava “colado” na imensa esfera observando a realidade surda e muda da escuridão profunda pontilhada de luzes. Tomando o próprio corpo como referencia, ao olhar para baixo, para cima, para um lado e para outro só havia escuridão e estrelas. De costas para o mundo, as realidades do planetinha se amesquinharam como a própria dor naquele momento. Estava vazio e pontilhado interiormente de pequenas luzes também.

Antes daquela união estava sem revê-la havia oito anos, em pleno desfrute da solteirice, quando reavivou nele o desejo de formar uma família. Já havia passado dos trinta anos de idade e parecia que era aquilo o que estava lhe faltando na vida. Curiosamente, ela havia se evaporado das suas lembranças até que certa noite sonhou com ela. No sonho, estava bonita como sempre e dizendo que às vezes se perguntava por ele, e não sabia por que não haviam se encontrado mais. Disse também que gostava muito da sua companhia deixando-o bastante feliz, porque havia reciprocidade de sentimento. Despertou eufórico por causa daquele sonho. Oito meses depois se reencontraram e em três meses estavam morando juntos.

O segundo sonho foi que ele se viu subindo uma montanha, acompanhado de algumas pessoas enfileiradas num caminho estreito e pedregoso, e alguém lhe disse que se mantivesse atento aos próprios passos e em nada mais. Detiveram-se na entrada de uma caverna e lhe disseram que ficaria ali, na caverna, com os outros que lá estavam ocupados em alguma atividade. Quando ele estivesse pronto, alguém que lhe gostava muito viria buscá-lo. Não havia um sentimento predominante porque em sonho tudo parece muito natural.

Quando ele alugou aquela casa lembrou-se do sonho da caverna que não parecia a de Platão. O terreno do novo endereço tinha três níveis: a casa principal ficava ao nível da rua. No segundo nível havia duas casas pequenas, numa delas havia montado seu atelier e havia também a saída de uma mina d’água. No terceiro nível se iniciava a mata atlântica quase no cume da montanha. Depois ele veio saber que pouco abaixo do topo da montanha, que oferecia uma vista encantadora, havia uma caverna. Pensou em visitá-la, mas como o acesso pareceu-lhe demasiadamente perigoso preferiu não arriscar.

Depois da separação ainda permaneceu naquela imensidão de espaço verde por algum tempo. Nada estava bom para ele ali, evidentemente. A mudança de ambiente podia ajudar, mas a mudança fundamental tinha que ser nele. O problema era que aparentemente nada acontecia. Havia a sensação de que algo o prendia àquele lugar, algo inacabado, digamos assim. Um dia ele conseguiu sair de lá. A vida continuou, o filho cresceu, mudou de cidade finalmente, fez novas amizades, criou outros interesses etc. Algumas amizades locais reclamavam a sua visita, mas ele não se animou. Não por elas, sim pelas lembranças que ficaram naquela cidade.

Porém, volta e meia, aquela casa ainda aparece nos seus sonhos. Não que tenha vontade de rever ou reviver o passado, ele não é assim. Pelo contrário, é o desconforto persistente da mesma sensação desagradável de alma penada vagando naquele grande quintal. Por algum motivo, ele ainda permanecia lá ou o lá permanecia nele como se o tempo tivesse passado sem passar. Outras pessoas que não moravam no terreno aparecem naqueles sonhos recorrentes. Ele ainda continua perambulando por lá, em meio àquela gente estranha e intrusa.

 Com a ex sonhou nunca mais.

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6 thoughts on “A Casa e os Sonhos

  1. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Depois que o tempo passa, o que ficou se fecha, encapsulado em lembranças, apenas lembranças às quais tentamos dar sentido, nesse novo momento, em um novo cenário.
    O que passou foi o que quisemos que passasse, nessa busca insana e metamórfica do nada, para lugar algum.
    Sonhemos pois, em outras camas, já que as do passado, nunca mais.

  2. Obrigado Sérgio. Tens razão, camas passadas não são mais ninhos.

  3. bernadete lopes marino on said:

    Olá é muito diferente,fica a casa dos sonhos mas vida continua o importante é ter
    coragem de separar enquanto é tempo.eu tive esta coragem.

  4. É isso aí, Bernadete. Obrigado pela leitura e comentário.
    Abraços.

  5. Enfim, o fim! Eu me confesso uma pessoa saudosista e acho que por mais que as transformações aconteçam e, devem acontecer, sempre ficam as marcas. Talvez o tempo ajude a lidar com elas… ou não! E me refiro a tudo, sinto saudades das pessoas que se foram, das situações engraçadas que vivi, das risadas com os amigos, grandes amigos que às vezes nos decepcionam. Outro dia vi uma foto do meu pai, era de uns 15 anos atrás, eu o vejo todos os dias e sei que o tempo passou, só que quando me deparei com a foto e vi o rosto mais liso, os cabelos mais escuros, algo bateu diferente e me deu uma vontade de chorar e chorei. Sinto saudades até das coisas que imagino, esse é um defeito que tenho e preciso me policiar. Já estive separada do meu esposo e, por um bom tempo, sentia um nó na garganta quando olhava pra mesa, no cantinho em que ela gostava de se sentar, também o sofá que ele mais gostava ou o guarda-roupa que passou a ser todo meu. Felizmente, o ser humano tem uma capacidade de adaptação muito grande e me acostumei, até que um dia, quando eu só me lembrava de coisas engraçadas entre nós enão mais sentia nós na garganta – voltamos! Essa é a vida como ela é. Bem, falei demais, o texto está bem escrito e expressa muito bem uma falta, uma perda e o passar do tempo. Mudar é preciso, devemos buscar por melhorias sempre e seguir em frente. Parabéns!

  6. Sanfran
    Depois de escrito o texto não nos pertence mais. Vejo a criatura humana como uma cebola, feita de camadas. A superficial é o veiculo, mas assim como as mais profundas, passageiras. Obrigado pela leitura e o seu bonito comentário.

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