Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Uma Caçada à Beira Mar

À beira mar

Por Letitia Morgan

Sentados na esplanada, eu e Simon tagarelamos palavras, apenas para ouvir o seu som. É um ritual que nos mantém lúcidos, quando somos invadidos por desejos contidos, frutos suculentos que não poderemos provar. Quando nos aflora o instinto dos animais que somos, quando nos envolve o veneno doce que tudo seca por onde passa, ficamos algum tempo afastados.
– Já estamos juntos há demasiado tempo, Simon.
– Temos que acabar este trabalho, meu amor.
– Eu sei. Hoje vou caçar. Beberricar a Vida, num belo copo de cristal, fria e sem música, não me sacia.
Pagamos as bebidas e, abraçados, passeamos ao longo da praia. Os nossos ouvidos detetaram sons de gritos. Guiados por eles, corremos até quase ao fim da praia, onde tudo se passava. Escondidos atrás duns barcos de recreio, vimos um brutamontes que espancava selvaticamente uma rapariga. Caída na areia, ela tentava, com os braços, proteger a cabeça e o rosto cheio de sangue. Tinha as meias rasgadas e a curta saia ensopada em sangue. Olhei para Simon e ele ouviu o meu pensamento.
Saí de trás dos barcos e mostrei-me ao grande cabrão. Olhou-me admirado e, antes que ele se perguntasse donde tinha eu surgido, sorri-lhe e encantei-o. O idiota, não se apercebeu, de imediato, que Simon saíra do seu esconderijo e ajudava a rapariga a levantar-se. Sorriu-me, mas, apercebendo-se dos gemidos da jovem, olhou subitamente para trás.
– Essa puta é minha, já lhe paguei! – disse em alemão e avançou para Simon.
– Deixa-a… eu estou aqui… – disse-lhe eu, num alemão perfeito e coloquei-me à sua frente.
Os seus jeans estavam manchados de sangue. O fecho das calças estava semi corrido e tinha o cinto desapertado. A camisa azul, desabotoada e suja, mostrava um tronco bem musculado. Era um homem jovem e forte que se entretinha a bater em prostitutas de rua, com metade do seu peso e, provavelmente, com alcool a mais no sangue. Um merdas.
– Sim… e não pareces uma puta ordinária… – a sua voz fraquejava.
– Não… mas estou sedenta de ti… do teu corpo, da tua boca… – e acariciei-lhe o pénis duro por cima das calças, redobrando-lhe a confiança e a entrega. Entretanto Simon ajudava a jovem a levantar-se e sairam ambos da praia.
– Abre o fecho!… – Suspirou o filho da puta enquanto me beijava com a sua boca nojenta.
– Sim… eu abro, quero-o todo cá fora…. todo dentro de mim… – E beijei-lhe o pescoço sofregamente. O grande animal nem se apercebeu que estava a morrer. Drenei-o quase completamente e fiquei imóvel de prazer. Quente. Extasiada.
Quando recuperei, cumpri o mesmo ritual de sempre. Disfarcei a dentada, com golpes cirúrgicos da minha velha adaga. Depois arrastei o corpo para o meio dos barcos de recreio e saí dali. Fui para casa. Simon já lá estava.
– Levaste-a ao hospital?
– Sim, deixei-a lá. Estava francamente maltratada. Para além de ter a cara feita num bolo, o bruto deve te-la sodomizado de forma abominável. O sangue corria-lhe pelas pernas abaixo.
– Já não espancará nem violará mais ninguém… Simon, não podemos ficar aqui. A jovem viu-nos e o corpo do alemão vai ser descoberto logo pela manhã.
– Sim, tens razão. Vamos preparar as malas… Um dia ainda me vais contar porque odeias tanto os homens, bela Lov…
– Eu não odeio os homens, querido Simon. Afinal são eles, os energúmenos que maltratam as mulheres, as crianças e outros seres, apenas para satisfazerem a sua natureza sádica e doentia, que me mantêm viva. Mas, um dia contarei como tudo começou…

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21 thoughts on “Uma Caçada à Beira Mar

  1. No mínimo, indivíduos sádicos e violentos, deveriam sofrer na pele todo o mal e humilhação que provocam.

    Excelente estória, Letitia, muito obrigada por aceitares fazer parte da nossa equipa!

  2. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Muita vez, também uma palavra de mulher, principalmente se for de mãe, pode matar um ser para o resto de sua vida.
    Parabéns pelo sincero escrito.

  3. Gosto do teu estilo e da forma como abordas teus assuntos. Eis um belo exemplo. Bem-vinda sejas.

  4. Ivani e Luísa, muito obrigada pela oportunidade que me deram, de poder divulgar no Só Contos algumas das minhas estórias.
    Abs.

  5. Forte como a lâmina de um punhal, doce como a vingança !
    Belíssimo !

  6. Van on said:

    Oi Luisa,

    Conto forte, bem escrito, como é característica dos escritos excelentes da Letitia.

    Um beijo nas duas!

  7. Nossa!
    Isso é que é agregar valor!
    Que eu continue tendo discernimento e tempo para saborear coisas tão instigantes.
    Parabéns Letitia, Ivani e a você,querida Lusa.
    Beijão para as três.
    Fui!

    • letitiamorgan on said:

      A Beth tem sido uma das pessoas que mais me tem incentivado nesta minha pretensão de escrever estórias. Muito obrigada!

  8. joselitobortolotto on said:

    Que medo ….

  9. tutankamon3000@live.com on said:

    Filógino eu sou e louvo este gênero divino
    Não importa se a montanha é imponente,o seu cair é fantástico
    Alegrastes-me nesta crônica da vida real e a grácil heroina que fez de sua adaga e seus afiados dentes a justiça na incisão do misógino. e expurgou deste cão os bagos e seu instrumento da doentia perversão
    Homem que violenta uma mulher castrado deve ser,se vivente no cárcere ‘namorada’ do Tião mandioca,de beiços pintados,unhas aparadas e no molejo dos trejeitos,em todo presídio tem um avantajado,que o deflorará
    Se morrer ,felará os demônios
    Lindo,lindo-hehehehehehehe!!!!!
    Adorei
    abraços fortes

    • letitiamorgan on said:

      Olá Tutankamon, muito obrigada pelo teu comentário.
      Apesar de poder ser lido, na forma de notícia, contos ou romances, os horrores da violência sexual (especialmente em crianças) nunca se consegue descrever com a realidade do facto, por isso, apesar de ser contra a pena de morte, por vezes dou comigo a pensar se não deveria haver exceções…
      Abraços.

  10. cecília on said:

    Que se revele um dia como tudo começou Letita, rsrs, mas com certeza será um conto bem tenebroso mediante a força que ela teve em deter este monstro com sua sedução fatal….

    Beijos

  11. Escrito de forma clara e objetiva, o que não torna a leitura cansativa, instiga-nos a ler mais para descobrir o desfecho, muito bom!

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