Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Finalmente

Finalmente!

Por Ivani Medina

Não foi de repente porque nada do tipo é assim. Envolve um processo que leva tempo, às vezes tempo demais e outras nunca mais. Podemos enganar a muita gente, e é assim que se faz normalmente. Sim, a mentira é uma norma social e também existencial. Há os hipócritas que não concordam com isto. Quando somente hipócritas, ainda conseguem um bom desempenho pessoal e social com a consciência em estado de espera. Neste caso, ainda restam esperanças. Porem outros conseguem um excelente desempenho pessoal e social com a consciência completamente desligada, pois o desejo do autoengano das outras pessoas os ajuda nisso e a autocrítica não os atrapalha. São grandes conhecedores das fraquezas humanas e hábeis manipuladores sociais.

A consciência só incomoda quando ainda restam um pouco de caráter e dignidade naquilo que o individuo se tornou. Cada um é aquilo que lhe foi possível ser. Sob diversos aspectos, uns têm mais sorte, outros não. Julgamentos puramente moralistas são mais podres do que o objeto da própria crítica. Moral significa costume e os nossos costumes ocidentais sofrem de uma ambiguidade congênita e profunda. Não por acaso os maus exemplos sempre vêm de cima.

A luz da consciência de Fabiano atingiu potencia “plena” num momento especial da sua vida: na crise dos quarenta. Diz-se que em chinês o ideograma referente à “crise” é constituído por dois sinais: um representa “perigo” e o outro “oportunidade”. Os chineses não escrevem com palavras, escrevem com ideias. Por isso o entendimento chinês da questão resumia bem aquela na qual Fabiano se via envolvido. Como muitos que haviam feito da fé profissão, Fabiano passou a fazer parte de uma pequena, mas representativa parcela daqueles que perderam a fé e abandonaram o ofício de pregador. Uma minoria crescente, para a sorte da humanidade.

Nascido numa família protestante, a careira de pastor era uma opção natural para um jovem idealista. Foi na igreja que conheceu Alexandra, com quem se casou e tiveram um casal de filhos. Do lado dela, o perfil era mesmo. Bonitona, era alvo de cobiça dos demais jovens daquele ambiente. Escolheu Fabiano pelo seu jeito simpático, atencioso e inteligente, sempre voltado aos estudos. A estreiteza mental do espaço que frequentavam há muito vinha sendo motivo de conversas particulares daquele casal.

A cobiça sorrateira de outros pastores a Alexandra, que faziam pregações exaltando a fidelidade do casal e o respeito à família; a exaltação ao tesouro do Céu, enquanto se fazia planos de metas com as doações, como qualquer executivo faz; a disputa vergonhosa pelo poder administrativo e a chave do cofre; o desejo de sobrepujar o brilho do outro para ascender rapidamente naquela santa escalada etc. represaram de vez os bons sentimentos do casal por aquele universo enganador.

Fabiano não desprezava as pessoas. Havia um elo verdadeiro de coerência entre um pouco do ele pregava com o muito que ele vivia. A despeito das críticas, a sua ausência foi sentida pela congregação. Ninguém ficou imune à sua saída. Porem as defesas institucionais são mais influentes. Ao exteriorizar a sua falta de crédito pela historicidade atribuída ao Novo Testamento, assinou a sua sentença de expurgo do meio cristão. Todas aquelas histórias santas não se confirmavam em outras fontes, senão nas cristãs. Para ele, não era admissível que um século inteiro de eventos necessitasse tanto das trapaças da teologia para se fingir de história. E o que aquilo tinha a ver com a fé?

Evidentemente aquela era uma história muito mal contada a se esconder no sentimento das pessoas da sua própria realidade. A hipocrisia daquele ambiente congregacional e a antiga hipocrisia eclesiástica se assentavam como a mão e a luva, a bater na face dos mais conscientes pedindo que lhes virassem a outra. Para Alexandra foi um grande alívio saber da decisão de Fabiano de abandonar a igreja e a crença dos seus pais.

Foi difícil sobreviver àquele período com a perda dos proventos de pastor e o afastamento dos antigos amigos e colegas de fé. A rejeição sempre incomoda. Fabiano não podia mais contar com a ação corporativa dos “irmãos” para oportunidades de trabalho. Estava mais só do que nunca, pois não podia nem mais contar Deus, apoio psicológico de uma vida inteira. Os filhos aceitaram sem problemas, ao menos, eles não passariam por aquilo, o que lhes era reconfortante. As dificuldades materiais não fizeram sombra à satisfação espiritual de Fabiano e Alexandra. Os olhos dele se encheram d’água quando ela lhe disse:

─O juízo final é sempre nosso. Somos as únicas testemunhas dos nossos desejos, pensamentos e ações. Estamos pontos para tudo.

O desprezo e repugnância de Fabiano pela teologia e seu apreço pela vida estão virando livro. Um editor, casualmente, tomou conhecimento da história deles por intermédio de um primo de Alexandra que é representante de um atacadista de papel. O profundo conteúdo humano daquela história o arrebatou de pronto. Ali estava fé, amor, companheirismo, decepções e descrença.  Novamente completando o ciclo, lá estava fé, amor, companheirismo, sucesso, e crença na vida. “A ideia de sucesso que comumente se faz, não inclui os mais importantes.” Foi a sábia observação do experimentado jornalista a frente daquela editora.

Com a boa notícia, a ameixa do pudim, os dois se entreolharam ternamente e de mãos das disseram:

─Finalmente.

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4 thoughts on “Finalmente

  1. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Finalmente, a manjedoura da soberba os acolheu nesse renascimento para o sucesso material egoísta e de ignorância do quanto seriam úteis aos outros da congregação, que, por sua vez, ingenuamente, achavam que seus sucessos individuais viriam da prática da cobiça, cinismo e ganância.
    Afinal, eles faziam jus à comunidade de onde vieram.
    Renasceram isolados e associados, no afã usurário de não dividir seus futuros e efêmeros sucessos.
    Portanto, conseguiram independência material, mas continuaram a sofrer pela falta de liberdade, que só se conquista com responsabilidade e com a humildade de se saber servir.
    Como dizem, a diferença entre a sanidade e a loucura é o sucesso.
    Assim, esse redime a qualquer “persona”, mas nunca à pessoa.

  2. Sergio

    Este conto se refere a uma realidade que não é comentada e tampouco tratada como um assunto relevante em nosso meio social. Diferentes entendimentos estão a ganhar a voz que não tinham antes. Creio que tanto as ações quanto as reações precisam ser acatadas e assimiladas no contexto próprio.
    Obrigado, mais uma vez.

  3. ssrodrigues on said:

    Achei esse conto extremamente interessante, não tanto por ser ateia, mas por ver escritos (ou descritos) nele conceitos que eu própria ainda não conseguira explicitar completamente. Não sou do tipo ateia militante e até entendo que a maioria das pessoas só consigam ‘suportar’ o viver e morrer apoiados na religião ou fé, ou o que seja. Mas bem que penso: esse poderia ser um mundo bem melhor se as pessoas aceitassem que
    “O juízo final é sempre nosso. Somos as únicas testemunhas dos nossos desejos, pensamentos e ações”

  4. SS Rodrigues, tenho para mim que a realidade dá de 10×0 na fantasia. Quando em nossas parcas criações conseguimos alguma beleza, o que se pensar daquilo que a tudo envolve diante do pouco que podemos perceber. O entendimento religioso é só uma tentativa, apenas isso.

    Obrigado pela leitura e comentário.

    Ivani.

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