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João e Alice

João e Alice

Por Ivani Medina

Alice contava com sete anos de idade quando se mudou para aquele pequeno prédio de três andares servidos por escadas. Tinha um ótimo pátio e outras crianças para brincar, ao contrário do antigo que possuía semelhantes características arquitetônicas sem as vantagens daquele que agora morava. Para ela a mudança foi positiva. Os passeios de bicicleta em volta da lagoa Rodrigo de Freitas eram muito bons, mas ter amigos por perto era muito melhor.

O time de novos amigos era composto por três meninas, uma da mesma idade e as outras mais velhas. Um menino de três anos e outro de cinco. O bom temperamento de Alice logo conquistou as crianças e seus pais. A casa da avó dela passou a ficar movimentada com um entra e sai de criança que passou a incomodar.

Nada acontecia sem a presença de Alice. Festas de aniversário de avó, levar o cão para vacinar, visitas ao dentista etc. passeios ao shopping nem se fala. Geralmente, as meninas tendem a se agrupar e a liderança do grupo recai na mais velha, pois as mais novas assumem voluntariamente a condição de satélites daquela. A mais velha tinha treze anos de idade.

Alice foi eleita à líder da turma e assumiu o mandato sem objeção alguma. Com o tempo as afinidades foram se definindo e curiosamente um elo improvável havia se estabelecido naquele ambiente predominantemente feminino. A amizade número um de Alice era dois anos mais jovem do que ela: João, de cinco anos. A mãe do menino e o restante da família se compraziam com a amizade dos dois.

João era uma criança comum como qualquer outra, talvez apenas sério demais para a sua idade. Uma maturidade precoce podia ser percebida naquele menino. Tornaram-se a corda e a caçamba. Filho único de um jovem casal, João, começava a perceber os encantos do processo de socialização. Finais de semana na piscina da casa do avô no bairro vizinho, sem Alice não tinha graça. Ninguém mais era convidado, só ela.

A festa do aniversário de seis anos dele foi preparada com todo esmero pelos avós. Alheio burburinho dos preparativos, junto às amizades do prédio, ele só pensava em brincar. Tainá, a mais velha da turma, era a mais deslumbrada com a festa que preparavam para o João. Brincavam de patins quando o menino cismou que queria andar um pouco com os patins da Alice, alegando alguma dificuldade com os próprios. Com a negação dela, retirou-se amuado da brincadeira sentando-se a soleira. Desgostoso da vida deitou a cabeça sobre os braços cruzados sobre os joelhos e chorou baixinho.

Os pais dele retornavam do mercado quando viram o filho naquela situação no dia do aniversário dele. Bobagens de crianças, com certeza, mas não custava investigar. O pai perguntou o que havia acontecido. Sabendo que a reação do pai não seria nada boa, João tentou evitar a resposta. Percebendo constrangimentos à vista, a mãe sugeriu que o menino entrasse com eles para uma conversa em família.

Passado alguns instantes, João voltou com a fisionomia melhorada pedindo para conversar com Alice.

─Alice, meus pais disseram pra eu te pedir desculpas, porque o que eu fiz foi muito feio.

─Tá bom. Disse ela.

─Mas você acha isso mesmo, foi feio pra você também?

─Ora João, eu estava usando os meus patins. Você queria que eu os tirasse só pra você não chorar? Eu não.

─Eu só queria experimentar um pouco. Você me deixou muito triste.

O olhar de João era mais do que convincente. Alice não titubeou, tirou os patins e emprestou-os a ele.

À noite o deslumbramento das crianças com a festa foi geral. Os adultos cochichavam e se riam do apego dos dois amigos. João estava feliz, pois todas as suas amizades estavam presentes. Até que veio à hora de cantar parabéns. O pouco tato dos adultos acabou com a alegria das duas inocentes crianças. O amor entre eles era sério demais para piadas de mau gosto ou gracinhas inconvenientes ao entendimento infantil. Aquele hábito idiota de ao final do “parabéns” se cantar: “com quem será, com quem será, com quem será que o João vai se casar”; deixou-os muitíssimos constrangidos.

Sem saber como escapar daquela situação vexatória e dos risinhos imbecis, João enfiou-se debaixo da mesa e não quis mais sair de lá. Ai de quem ousasse levantar a toalha para dar uma espiadela. Quando os adultos se deram conta do dano que haviam causado, já haviam apagado o brilho de alegria das duas crianças naquela noite especial. João não queria saber de ninguém, pois todos foram coniventes com as risadas que o feriram. Alice passou a servi-lo de salgadinhos, doces e refrigerante ali mesmo, debaixo da mesa. Aniversário privé. Outras crianças foram se chegando e os adultos ficaram de fora daquela comemoração íntima que durou alguns divertidos e compensadores momentos.

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3 thoughts on “João e Alice

  1. Pingback: Ver! | Blog | João e Alice

  2. Ivani
    Mais uma narrativa impecável de sua autoria, daquelas que nos remetem a infância e com competência nos lembra do papel da mulher em nossas vidas.

  3. Antonio, grato por mais este simpático comentário.
    Abraço.

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