Só Contos

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Inusitado milagre

Nossa Senhora

Por Ivani Medina

Jovem e bem apessoado, o padre Bernardo foi designado para uma igreja em uma cidade do interior do estado do Rio de Janeiro. Seu pai nunca se convenceu daquela vocação para o sacerdócio, achava que naquele mato havia coelho. Contudo, desistiu de tentar desconvencê-lo daquela loucura na esperança de que ele próprio se desconvencesse. A madrinha de Bernardo era a mais entusiasmada com a ideia e a mais revoltada contra o seu pai. Descendiam de uma família de imigrantes italianos do estado do Espírito Santo. Para o pai, a santidade de Bernardo ficava por aí, no nome do estado em que nasceu.

Carola que só ela, Josefa, prima de Giuseppe, pai de Bernardo, havia encomendado em segredo uma imagem de Nossa Senhora por intermédio de uns parentes de uma cidade do Norte da Itália. Cumpria uma promessa feita em segredo para presentear a primeira igreja do afilhado. Era uma imagem top em tudo: com um metro e trinta de altura, cabelos sintéticos, olhos de vidro, roupas de tecido, manto de veludo que cobria a base da imagem que chamava muita atenção com seu forte apelo à realidade. Custou uma fortuna, incluindo os cuidados com o transporte.

Bernardo já havia pensado em desistir da batina como sugeriu o pai. Mas na cabeça dele, pelo fato da mãe e a madrinha terem inculcado desde pequeno uma responsabilidade ridícula, mesmo adulto, sentia-se na obrigação. Segundo elas, Bernardo devia aceitar o destino indicado por “Deus”, senão a geração dele seria a única sem um padre na família. A tradição do sacerdócio realmente corria o risco de ser quebrada, porem não a mais antiga tradição dos Di Lorenzo: contumazes bolinadores de empregadas que deviam servir-lhes em tudo.

A igreja bonita e bem cuidada ficava no alto de uma pracinha. Padre Bernardo logo arrancou suspiros das moças e de outras não tão moças assim. A chegada da imagem foi um sucesso total. Vinha gente de outros bairros para vê-la. A quantidade de batizados e casamentos parecia ter aumentado naquela paróquia por causa das novidades. O jovem pároco esforçava-se para fazer-se naturamente ignorante aos apelos sedutores das moças, que à noitinha se juntavam a ele no catre da sua imaginação. Bernardo vivia em constante pecado mental.

Amélia, a jovem faxineira da igreja, trabalhava lá desde o antigo padre. Fingia-se religiosa por causa do emprego e não se descuidava das obrigações. Trabalhar para padre era muito melhor do que aturar madame. Como mulher, aparentemente, nada apresentava de especial. Seu temperamento particular, silenciosamente discreto a fazia se passar por uma beata qualquer por estar numa igreja. Roupa folgada com tons acinzentados e saia comprida ocultava um verdadeiro tesouro de sedução.

A vida privada de Amélia se dava em sua cidade natal, quase na fronteira do estado de Minas gerais. Era uma moça comum, como outras, mas com o tino de poucas. Esteve para se casar, mas na hora “h” pulou fora. Pressentiu a porcaria de uma vidinha igual à de tantas mulheres que conhecia. Não que tivesse grandes ambições, só não queria para si transtornos desnecessários e bem conhecidos.

Tudo corria em paz até que Satanás pressionou com um vento a porta mal fechada do quarto de Amélia, quando Bernardo passava sob a pérgula fugindo do Sol quente no pátio de serviço. O guarda-pó cinzento desabotoado revelou as mais lindas pernas que ele já tinha visto. Pareceu-lhe não fazer sentido tanta beleza concentrada e oculta apenas para locomoção. Os seios pequenos perfeitos provocaram-lhe uma ereção instantânea que chegou a doer. Designer algum seria capaz de tamanha perfeição. Só Deus mesmo. Amélia tornou-se um perigo real e iminente.

A juventude de ambos acabou por sobrepujar as regras e mais um filho de padre veio ao mundo. A tradição erótica dos Di Lorenzo venceu a influencia da Igreja sobre aquela família. Seu Giuseppe era o único deles a conhecer o imbróglio antes do nascimento do neto. Amélia foi parir em outra cidade, que não a sua, na casa de uma tia que a adorava. Ambas riram muito de tudo e daqueles que iriam chorar. Nem ela nem Bernardo se sentiam culpados de coisa alguma. Não pensavam em vida comum nem em desapegos. Seu Giuseppe fazia questão de criar o neto recém-nascido caso eles não se opusessem. Havia muito no que se pensar.

Sem a menor vontade de voltar ao antigo local de trabalho, para não dar o azar de encontrar com as beatas conhecidas e se ver no desconforto de inventar histórias etc. Amélia se deparou exatamente com o perigo daquela situação, pois teve que ir buscar o dinheiro que seu Giuseppe havia enviado. O bebê era muito tranquilo e praticamente não chorava. Parecia que era mudo. Acomodado numa espécie de bolsa com uma tala ao fundo, para dar firmeza ao acolchoado, ninguém dizia que um recém-nascido era carregado ali. Seguindo o antigo hábito, Amélia entrou rapidamente pela porta lateral do templo e sumiu lá dentro.

Um cheirinho característico denunciava uma fralda recheada. As portas principais ainda estavam fechadas e ela resolveu fazer a troca ali mesmo, num daqueles bancos próximos à imagem da santa doada por dona Josefa. Foi rápida e eficiente. Súbito, um sobressalto: vozes e passos vinham do salão em sua direção. Com a mesma agilidade recolocou o menino na bolsa e a fralda usada sob o manto da santa para retirá-la depois. Conseguiu escapulir sem ser vista.

Relatou o acontecido a Bernardo que se divertiu um pouco. Outro esquema menos arriscado haveriam de montar até que tudo se resolvesse. Ele entregou-lhe o dinheiro, pegou o filho no colo e os dois sorriram de satisfação. Ela voltou rapidamente à nave, levantou o manto de veludo da santa e resgatou a fralda deposita na parte de trás. Na pressa, não reparou que a fralda havia vazado um pouquinho, bem na direção certa. Era uma sexta-feira.

No dia seguinte, vida normal na paróquia com badalações dos sinos convocando o povo à missa. A imagem realista despertava comentários de algumas consciências pesadas e temerosas, do tipo: “parece que ela está olhando pra mim”.

O padre não permitia, mas algumas senhoras tinham a mania de beijar o manto quando ele não via. No que uma delas o levantou um pouco para levá-lo à boca, o cheiro do cocozinho ressecado se fez sentir. Olhou para a outra incrédula, que também o sentiu.

─Não… Você está pensando no que eu estou pensado?

─Ai meu Deus… Eu não acredito.

─ Bem que eu achei que a santinha estava me olhando de um modo estranho.

─Vou cheirar de novo.

─É isso mesmo! Cocô.

Levantou a parte detrás do manto com muito cuidado e descrição e… bingo! Estava lá, bem na direção do santo cuzinho. Um caprichoso e santo montinho. Seria uma brincadeira de mau gosto? Quem teria coragem de fazer aquilo? E mais, com tanta perfeição… Histórias de santas que choravam eram conhecidas, choravam até lágrimas sangue. Mas aquilo? Ademais, era tão perfeita… Por que não poderia fazer cocô? Do jeito que o mundo está poderia ser uma desconcertante mensagem de Deus: A Mãe Dele resolveu cagar para o mundo.

Os debates começaram e as visitas curiosas também. Entre risadas, fé e alguma fedentina os comentários se dividiam:

─Engraçado, fedor de cocô de santa parece com o de neném.

─Fedor o quê! Bate nessa boca. Cheiro, aroma ora. É de santa, onde é que já se viu?

Quando o inusitado milagre chegou ao conhecimento do padre Bernardo, imediatamente mandou limpar e desinfetar a base da imagem, antes que a história se propagasse de modo irreparável. O cheiro forte do desinfetante espantou as beatas como as moscas. Diante de tanta sandice crédula o jovem pároco chegou até a ironizar algumas que vinham de longe por causa daquilo. Eram facilmente identificáveis para ele, conhecedor do seu rebanho.

─Bom dia minha senhora.

─Bom dia seu padre.

─Estou enganado ou a senhora veio também ver o cocô da santa?

─Ah não, seu padre. Eu soube que o senhor mandou limpar. Eu vim só pra ver se ainda dá pra sentir um pouco do cheirinho.

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11 thoughts on “Inusitado milagre

  1. Pingback: Ver! | Blog | Inusitado milagre

  2. Adalmir Rampini Andriolo on said:

    Excelente, gostei demais.ARA

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Essa é a real expressão da “fé demais”…
    Excelente escrito. Parabéns!

  4. Espetacular este conto, Ivani! Adorei.

  5. Muito obrigado a vocês, meus amigos. É o máximo quando a gente se encontra num texto. Fortes abraços.

  6. Ivani Medina on said:

    Obrigado, Ávila. É ótimo contar com o retorno daqueles que apreciam o nosso trabalho. Aliás, é tudo.

  7. Rio de Janeiro…
    Sei não. Padre Bernardo fica em Goiás… rsrsrs
    Legal.
    Um bração Ivani.

  8. Valeu, Beth. Muito obrigado.

  9. RicardoEurico on said:

    E as outras moças???
    O padreco não passou pelas armas??
    “O conto não conta!”

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