Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Uma Boa Morte

Campo Verde…

Por Luísa L.

– Chegou a hora Babi. – Murmurou carinhosamente ao ouvido da irmã.

Ela estremeceu, beijou-o no rosto e desfez o abraço que os unia, olhando para os envelopes que ele segurava. Agitada pegou num pequeno copo de plástico e com um passo alcançou a máquina do café.

– Sim, acho que sim… Queres um café? – Mas ele já não a ouvia, atento à tagarelice das colegas, que disputavam a sua atenção.

A porta da sala abriu-se para dar passagem a um homem alto de aspecto jovial.

– Boa tarde! Olá-lá… olhem quem está aqui!… Minhas senhoras, não se deixem enrolar pela conversa fiada dele! – Depois, rindo, abraçou vigorosamente o outro homem. – Estás com bom aspecto rapaz.

Helena acabou o seu café, despediu-se do irmão com um “até logo” acompanhado dum beijo voador e saiu da sala, como quem sai do palco para os bastidores: aliviada pela ausência do público, mas angustiada e insegura com a qualidade da interpretação. Fez o seu trabalho como sempre fazia. Visitou os doentes da sua ala, tomou nota das queixas e de seguida deu as instruções que achou convenientes. No balneário despiu a bata, dobrou-a com mais cuidado do que habitualmente e colocou-a no cacifo. Trocou as socas brancas por umas botas de cano alto e vestiu o casaco. Percorreu o enorme corredor e decidiu não usar o elevador. Desceu as escadas que a levaram ao estacionamento, ligou o carro e conduziu até um bairro da periferia.

Estacionou em frente a um prédio. Sem hesitar introduziu um código no painel, a porta abriu-se e Helena atravessou o hall com passos largos, entrando no elevador. Este parou no sétimo andar. Escolheu uma porta, retirou da mala a chave e abriu-a. Olhando através da janela, em pé, estava o seu irmão. Virou-se sem pressa e estendeu-lhe os braços. Helena aconchegou-se no abraço, sentindo o tremor das mãos dele nas suas costas. Fechou os olhos.

– Podemos fazer isto mais tarde…

– Agora, mana… por favor.

O homem dirigiu-se para o quarto, descalçou-se e estendeu-se na cama vestido. Puxou a manga da camisola até meio do braço e sorriu para Helena. Ela inclinou-se e beijou o irmão na testa. Calçou umas luvas, libertou a seringa do invólucro esterilizado que a protegia e encheu-a com um líquido branco e viscoso, retirado dum frasquinho. Concentrou-se no rosto do irmão que continuava a sorrir incentivando-a. Helena escolheu uma veia e as mãos tremiam-lhe quando a agulha penetrou na pele. Tinha que ser rápida ou não conseguiria… retirou as luvas e pegou na mão do irmão. Estava feito. Tudo terminado.

– Quero ver o teu sorriso, Babi… – disse o homem enquanto lhe apertava a mão gelada.

Helena sorriu-lhe e continuou a sorrir muito tempo, mesmo quando ele já não a podia ver. Uma boa morte. O seu irmãozinho tinha tido uma boa morte. Grossas lágrimas rolaram pela sua face. Lentamente descalçou as botas, estendeu-se ao lado do irmão, abraçou o corpo inerte e chorou o seu morto convulsivamente.
…….

– Andava à tua procura. Queria que visses a doente do quarto… – calou-se, olhando a colega e amiga, de tantos anos, nos olhos – estiveste a chorar… Helena, se é por causa dos exames do Rui…

– O Rui morreu, Álvaro, eu…

– Ah minha querida, minha amiga… ele pediu-te!… – calou-se e pegou nas mãos de Helena. – Sei que isso não vai diminuir a tua dor, mas eu teria feito o mesmo, por um familiar, por um amigo, por ti… ele ia começar a sofrer muito, Helena. Ia perder a alegria, a dignidade e fez a sua escolha.

– Não foi capaz de o fazer sozinho… as mãos já não lhe obedeciam e a visão já o traía.

– Daqui a uma semana começaria a perder o equilíbrio, dentro de um mês estaria amarrado a uma cama cheio de tubos e dependente duma arrastadeira. Vai ser bom recordá-lo generoso, alegre e cabeça de vento, sempre atrás de um rabo de saias. Vai para casa Helena, não tarda muito serás chamada a uma tarefa difícil… e a tua mãe vai precisar de apoio.

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15 thoughts on “Uma Boa Morte

  1. Pingback: Ver! | Blog | Uma Boa Morte

  2. Beleza, Luísa. Um ato de amor que o preconceito religioso insiste negar com seus julgamentos precários.

  3. Depois volto.
    Beijão.

  4. Valéria on said:

    Luiza, ainda caminho nos dois extremos, sou tão a favor como contra…. por isso não me acho apta a comentar….
    Mas adorei o conto…como sempre marcante!
    Beijo no coração

    • Valéria, a eutanásia e o suicídio assistido são temas muito delicados, pois para além de mexerem com uma série de valores sociais e legais fortemente enraizados, mexem com toda a nossa estrutura psicológica, valores e princípios. É muito difícil tomar uma posição pessoal e generalizada, em casos destes. Na minha perspectiva, o que é realmente necessário é deixar o caminho legal desimpedido, para que cada ser humano possa decidir.

      Grande beijinho!

  5. Chorei lendo este conto, porque passarei por uma imensa cruz e terei que ser forte para aguentar mas o Rui morreu ….e ficará na lembrança o seu sorriso a sua alegria. Lindo conto. Abraços

  6. Sissym on said:

    Luisa, outro dia li algo tao semelhante. O mesmo sentido. Seria tao bom que realmente pudessemos fazer este tipo de escolha. Sorte dos animais que podemos abreviar o sofrimento, mas no nossso caso é crime. Penso que um ser humano que tenha uma doença incuravel e aceleradamente dolorosa deveria optar por sofrer brutalmente ou nao. Ainda temos que evoluir nisso.

    beijos

    • Sissy, querida, eu já tinha postado este conto em tempos, estou a reeditar neste blog, para compilar todos os contos, peço desculpa.

      O caso que exemplificas, dos animais, é mais que elucidativo. Porquê a falta de piedade, em casos extremos, para os homens?

      Beijos!

  7. tutankamon3000@live.com on said:

    Ak´nkh sempre me ensinou que a vida é uma dádiva que pagamos certos preços,aos quais devemos resistir e aceitar o nosso destino.
    O suicídio é uma covardia conosco e um crime imperdoável pelos Deuses,condenando as almas a vagarem eternamente sem descanso.
    Mas dependendo do diagnóstico,a eutanásia .como o praticado por Helena,foi um ato de amor e aceitável aos homens e pelos Deuses
    Divina Luisa,
    abraços forte

    • Querido Tutankamon, a vida e a morte são temas que sempre fascinaram os homens, daí que, desde o inicio dos tempos, se tenham criado padrões morais tanto para uma como para a outra, e, mais tarde, limites legais.

      Na vida, os homens podem percorrer caminhos perniciosos para a sociedade e a sociedade castiga-os, são exemplo disso todo o tipo de malfeitores que põem em risco terceiras pessoas e bens sociais ou individuais. Mas terão os homens o direito de julgar outros homens, quando se trata da liberdade de dispor da sua própria vida, ou morte, sem que daí advenha qualquer mal para a sociedade?

      É um assunto delicado, Faraó, que até os deuses preferem calar.

      Grande abraço!

  8. Luisa querida,
    Não sou contra. Apenas não sei se teria coragem para executar tal ação.
    Talvez, por conta da minha profissão (enfermagem), mas não por dogma.
    A leveza com que a história foi narrada pareceu-me muito terna.
    Belo conto.
    Beijo.

    • Olá Beth, estou a responder um pouco atrasada, mas não tem sido possível de outra forma. Pois é minha amiga, esta é uma situação muito delicada e difícil. A grande maioria das pessoas, mesmo que idealmente concordem com a eutanásia e suicídio assistido, nunca o praticariam. É assim o ser humano…

      Beijos!

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