Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Poesia à Parte…

Por Luísa L.

Abri a janela do meu quarto. Olhei para a atmosfera e senti o ar em movimento. A velocidade do movimento das partículas húmidas era agreste. Grossos cumulonimbus mantinham suspensa, na baixa troposfera, uma enorme quantidade de água no estado líquido. Esta água prometia desprender-se a qualquer momento. Fechei a janela. Já na banheira, retirei o excesso de gordura e transpiração do corpo com um abrasivo ligeiro, de cheiro adocicado. Sequei-me num pano, tecido em algodão, e vesti-me.

Desci quinze andares numa caixa mecânica, que diariamente contribui para o atrofiamento dos meus músculos. Entrei no habitáculo de um veículo motorizado e manobrei alavancas. Parei-o em frente a um estabelecimento comercial. Entrei e estimulei os músculos do meu corpo com cafeína. Saí. Sentado na escada de acesso ao estabelecimento estava um ser humano do sexo masculino, que aparentava menos de metade da idade média de um homem.

– Vizinha… dá-me um trocado para uma sandes?

Abri a carteira, retirei de lá uma moeda de cinquenta cêntimos e depositei-lha na mão. Era para a cerveja da manhã. Tinha feito a minha má acção diária.

Voltei a entrar no veículo e manobrei-o até ao mercado. Comprei proteínas na forma de pescado e bife de aves. Passei na secção de vitaminas e sais minerais e abasteci-me. Adquiri ainda lípidos, cálcio e algumas fibras. Paguei no caixa, com moeda corrente, muito mais do que o valor real dos alimentos e ainda todos os impostos directos e indirectos.

Parei em frente de outro estabelecimento; aprecei as flores dos vegetais que ali se vendiam. Escolhi uma herbácea perene de pétalas abundantes e coloridas, comummente chamada gerbera.

Voltei para o veículo motorizado e manobrei-o até chegar à porta de casa. Levava na alma a sensação vazia de dever cumprido. Hoje a poesia que me acompanha desde que nasci está de folga.

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8 thoughts on “Poesia à Parte…

  1. Pingback: Ver! | Blog | Poesia à Parte…

  2. Muito bom, Luísa. Aqueles dias…

  3. “Já na banheira, retirei o excesso de gordura e transpiração do corpo com um abrasivo ligeiro, de cheiro adocicado. Sequei-me num pano, tecido em algodão, e vesti-me”.

    Imaginei que este cenário e costume já não existissem mais…

    Bem,
    A poesia transformada em escrita talvez estivesse de folga mesmo.

    Mas,
    O trajeto, o encontro, o movimento, o observar, o caminhar…

    Absolutamente poético!

    Tenho pena (no bom sentido) de vocês poetas, que escreve poesias, e aí vem pobres mortais, desprovidos dessa genial capacidade e destroem tudo. Rsrsrs

    Beijo Luisa.

  4. cecília on said:

    “Parei em frente de outro estabelecimento; aprecei as flores dos vegetais que ali se vendiam. Escolhi uma herbácea perene de pétalas abundantes e coloridas, comummente chamada gerbera.”

    Acredita que fui pesquisar o que é gerbera? rsrs..Interessante que mesmo com todo este trajeto do dia, ( vida real) e a poesia estando de folga houve um tempinho para se escolher flores, o que significa que a essência dela ainda estava no ar…rsrs

    Beijos

  5. Pingback: Poesia à Parte… | Contos e Crónicas | Scoop.it

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