Só Contos

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Carta a uma Querida

Por Ivani Medina

Não tem importância se de mim tu queiras nada. Não tem uma ova, mas fingir-me-ei assim. Na verdade, é o meu querer que assim quer. Deve ter lá suas razões, pois nada entende de mulher. Quer estar por perto, mesmo que não seja certo. Quer que eu te faça sentires sempre valorizada, mesmo, a saber, que não me precisas pra nada. Ao justificar-me involuntariamente este particular dom do pensamento, justifica-me a caneta e o papel a se roçarem por nós. Bendita fantasia que a consciência traduz a quem dela vai saber: não é o único a pensar em quem não se deve querer. Que mais próxima companhia estes haveriam de ter?

É que antes não fazias parte da invenção da minha vida. Não me canso de inventá-la. Veja só: conheci-me pelos olhos e nem sabia de “eu”. Perceber é uma coisa, ver é muito diferente, pode mudar tudo num estalo, de repente! Por quem olhavam meus olhos antes de ”eu” ser consciente do pouco que é? E ainda me estranho ao espelho. As olhadelas precisam ser rápidas para não incomodá-lo. Olhar-me aos olhos demoradamente é uma grande invasão na existência de quem está por trás de “mim”. Ah, somos muito mais do que pronomes pessoais!

É a distinção que às vezes faço entre o “mim” e o “eu”. Seria como se o “mim” sofresse as ações “eu” as deflagrassem. “Eu” não é facilmente explicável. Já cometeu tanta imprudência, quem sabe para se divertir à custa de “mim”. “Mim” a pensar que te quer sem que “eu” tenha te visto e te analisado com os seus implacáveis olhos castanhos escuros. Verdade que há certo consenso entre eles, embora “eu” não garanta nada. Seus caprichos estéticos deixam “mim” um pouco inseguro. “Eu” concordou em parte pelo que “mim” percebeu, mas julga pelo que vê. É um inveterado materialista instintivo.

Mas de que te importa isso? Meu ego carece de valorização e de dizer-te tolices como se sinceridades fossem. É só uma conversa íntima em voz alta. Faço-te ouvi-la, pois é lá que tu estás.

Beijos.

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10 thoughts on “Carta a uma Querida

  1. Pingback: Ver! | Blog | Carta a uma Querida

  2. Valéria on said:

    Oi Luiza… esta dualidade que carregamos é imensamente sustentável quando percebemos que um não vive sem o outro…. “Eu” e “Mim”, se intercalam na dualidade do que somos.
    Beijo no coração

  3. Perfeito, Valéria. Obrigado pelo seu comentário.

  4. Luíza, adorei !Ah! então, acho mesmo que isto é verdade, porque se dá comigo… eu não vivo sem ele, que pode ser mim, mas também pode bem ser o outro – ele – aquele que, sem querer, nele me imagino a sorrir… rs…
    Nossa, gostei imensamente deste texto e fiquei aqui a brincar comigo mesma, embora também pensando nele…
    Beijos, Vera .

  5. Vera, obrigado pelo seu comentário. Há um pequeno mundo em nós que, para simplificar, pode se resumido assim.
    Abraço,

    Ivani

  6. Olá Ivani! Nossa amiga Luíza nos indicou seu texto lá no dihitt e fizemos o comentário com ela, o copiamos para cá ou vice-versa. Não nos demos conta de que poderíamos nos comunicar diretamente com a autora! Então, mais uma vez agradeço a ela por trazer este seu texto maravilhoso até nós. E a você, os elogios – Gostei demais. Este blog está muito bom.Será um prazer voltar quando possível.
    Abraços e boa semana para vocês!
    Vera.

  7. Muito obrigado Vera, o autor agradece rsrsrsrs. Não sei por que ma deram este nome. Fazer o quê? Muito nos hora a sua participação.
    Abraço.

  8. Ivani, aqui estou de volta e, eu que olho agora tua foto estou rindo de mim, porque muito claro ficou que és “o” autor.. rs… Há dias que parece que fazemos tudo errado, não é mesmo? Assim foram meus comentários com você. Por castigo li novamente teu escrito, mas foi castigo doce como beijo de mãe…
    Abraço, Vera.

  9. Vera, estavas correta, pois nada tens a ver com esta escolha infeliz do meu nome. rsrsrs Quando menino briguei na escola por causa dele. Muitos pais não pensavam que nome é para a vida toda e dos constrangimentos que podem legar aos filhos.

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