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A Volta

Passear de bicicleta

Por Ivani Medina

Tomou uma bicicleta emprestada numa dessas praias imensas que parecem nunca ter fim. Pôs-se a pedalar por uma estrada de areia e terra que seguia infindável paralela ao mar, coisa que não fazia havia anos. A areia era fofa demais em alguns trechos, mas não oferecia maiores problemas, senão um pouco mais de força nas pedaladas. Ufa!

Só o barulho do mar, a brisa no rosto, o aroma das plantas nativas, um camaleão a correr entre as folhas, uma frutinha local a experimentar e um horizonte recortado por umas montanhas distantes, mas bem distantes mesmo preenchiam-lhe a alma. Nenhum veículo passou por ele ou outro ciclista incauto. Dava para ilustrar seus pensamentos com aquela paisagem demorada e repleta de detalhes naturais.

Quando criança sempre sonhou com uma bicicleta, como possuíam seus amigos, mas ficou na vontade. Uma pequena frustração que foi juntar-se a tantas que o tempo lhe proveu. Podia até encontrar motivos pensando no assunto, sabendo que os nãos da vida pareciam mesmo sem sentido. Depois, estes podem ser justificados à vontade, aí vai do gosto de cada um. Mas, sentido eles não têm mesmo.

Bromélias em uma árvore que parecia ter secado com vento salgado e pela ação de ervas daninhas, chamaram sua atenção. Eram muito bonitas. A beleza circundante parecia ser uma beleza de resistência. A teimosia da vida se impondo aos nãos naturais. Sentiu-se integrado por isto. Mais um pouco chegaria à cidadezinha a que aquela estrada conduzia. Do acampamento da praia donde ele havia partido eram poucos quilômetros até lá.

Parou para descansar. Foi então que notou que havia pedido demais às pernas desacostumadas com tamanho esforço. Elas já haviam reclamado um pouco. Estavam tremulas e logo estariam inoperantes. Mesmo para um ciclista acostumado haveria de ser extenuante. Deu-se conta da estupidez tarde demais. A delícia de um passeio divagante tornou-se um lastimável e perigoso pesadelo físico. Parecia que ia desabar no chão a qualquer instante por causa da fadiga muscular.

Ah, o tempo passa e a gente aprende quase nada. Ao menos, sabia que se esfriasse o corpo completamente seria pior. Nenhum automóvel salvador para pedir uma carona, nada. Somente ele, a bicicleta e a estrada. Ateu, nem pedir por uma ajudazinha divina ele podia. Segurando a bicicleta pelo guidão, deu início a lenta e dolorosa caminhada de volta. Seu estado físico era de dar dó.

Por que fora tão irresponsável consigo mesmo? O que custava avaliar as suas possibilidades na realização daquele simples desejo? Havia problema algum, era uma simples adequação e não uma complicada equação. O pequeno trabalho neuronal que negligenciou agora exigia muitas avaliações e, acima de tudo, muita coragem e determinação. Não acreditou que tivesse pedalado tanto. Agora, ter que encarar aquilo tudo novamente, e naquele estado…

A tarde estava perfeita. Não teve dificuldade de conseguir a bicicleta. Teve bons momentos consigo mesmo revivendo lembranças e indagações que nem lembrava mais. Tudo estava muito bom para terminar daquele jeito. O pior era que os pensamentos da ida certamente seriam infinitamente superiores aos pensamentos da volta. Sem poesia alguma, ele teria que aturar o pior de si mesmo por aqueles inacreditáveis quilômetros de retorno. Bah!

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3 thoughts on “A Volta

  1. Pingback: Ver! | Blog | A Volta

  2. Olá Luisa,ao ler este conto me lembrei das primeiras vezes que comecei a andar de bicicleta,foi um martírio,por vezes pensei mesmo em desistir.Hoje sou o praticante de BTT,(bicicleta de todo o terreno),desporto duro sem dúvida,mas o primeiro sofrimento,me levou a ao atual profissionalismo no contato com a natureza. Hoje odeio estrada;tudo que envolva máquinas.

    Quero dizer com isto,que de certeza que a esse incauto ciclista,após chegar ao acampamento e ter arrefecido o seu corpo,se lhe apoderou um enorme Alegria,uma sensação que não será igual a outras que virão, e pensou;”que dia maravilhoso que passei,sofri mas também despertei”.

    Obrigada amiga pela partilha.
    bjs

  3. Sissym on said:

    Isso me fez lembrar, com saudades, de um longo passeio que já fiz de bicicleta. Não sei se conseguiria novamente pedalar tanto, mas foi uma das coisas mais gostosas que já fiz.

    beijos

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